Entre suplementos e hormônios: os riscos ocultos da busca pelo corpo perfeito
A busca por resultados rápidos nas academias tem ampliado o consumo de substâncias sem indicação médica, o que pode afetar o coração
Nos últimos anos, a cultura da suplementação ganhou espaço nas academias com uma intensidade inédita. Shakes de proteína, cápsulas para “aumentar a performance”, pré-treinos potentes e até substâncias hormonais passaram a fazer parte da rotina de muitos frequentadores.
O problema é que, em grande parte dos casos, essas práticas não têm relação com necessidade médica ou fisiológica real. Para muitos cardiologistas, o cenário atual revela uma distorção: aquilo que deveria ser exceção virou regra.
O que começou como suplementação pontual para atletas de alto rendimento acabou se transformando em um mercado gigantesco voltado principalmente para praticantes amadores, muitos deles em busca de resultados rápidos.
Do ponto de vista científico, é importante separar três situações diferentes: suplementos que podem ter utilidade, mas são supervalorizados; produtos usados sem critério; e substâncias que realmente podem representar risco cardiovascular.
Whey protein: tomar ou não?
Entre os produtos mais populares está o whey protein, proteína derivada do soro do leite. Do ponto de vista científico, ele não é um “veneno”, mas tampouco é a solução mágica que muitas campanhas de marketing sugerem.
O whey pode ser útil como forma prática de atingir a ingestão diária de proteínas, especialmente em pessoas que treinam musculação. No entanto, muitos frequentadores de academia superestimam seu impacto isolado no ganho de massa muscular.
Estudos mostram que o crescimento muscular depende principalmente do conjunto de fatores: treino adequado, ingestão total de proteínas ao longo do dia, consumo calórico suficiente, descanso e regularidade.
A ciência também mostra que existe um limite fisiológico para o estímulo da síntese muscular por refeição. Em muitos adultos, cerca de 20 a 40 gramas de proteína por vez já atingem esse estímulo máximo. Quantidades muito maiores não significam, necessariamente, mais músculo.
Isso não quer dizer que o organismo “desperdice” proteína, mas uma parte dela pode ser utilizada em outros processos metabólicos, e não diretamente na construção muscular.
Na prática, grande parte das pessoas consegue atingir a ingestão recomendada de proteína – algo em torno de 1,4 a 2 gramas por quilo de peso corporal por dia, para indivíduos fisicamente ativos – apenas com alimentação equilibrada.
Ou seja, para muitos praticantes amadores, o suplemento funciona mais como conveniência do que como necessidade real.
+Leia também: O culto à proteína: saúde ou marketing?
Suplementos de academia e o território cinzento dos produtos
Além das proteínas, existe um universo crescente de produtos vendidos como estimuladores de desempenho: pré-treinos, termogênicos, “boosters” hormonais e compostos que prometem aumentar força, energia ou queima de gordura.
O problema é que muitos desses produtos combinam estimulantes em doses elevadas ou substâncias cuja eficácia é limitada ou mal demonstrada.
Outro ponto preocupante é a rotulagem. Diversos estudos internacionais já identificaram suplementos contaminados com substâncias não declaradas no rótulo, incluindo pró-hormônios e estimulantes proibidos.
Em alguns levantamentos, até um quarto dos suplementos testados apresentava algum tipo de contaminação ou ingrediente não listado. Isso significa que a pessoa pode estar ingerindo compostos que não imagina estar consumindo.
Esse risco aumenta em produtos voltados para ganho muscular ou queima de gordura, dois segmentos extremamente lucrativos da indústria de suplementos.
Hormônios anabolizantes: o maior risco
O cenário mais preocupante surge quando entram em cena substâncias hormonais, como testosterona, esteroides anabolizantes e hormônio do crescimento (GH).
Esses compostos são frequentemente utilizados fora de indicação médica, em ciclos voltados para ganho de massa muscular ou definição corporal. Em ambientes de academia, muitas vezes circulam como “protocolos” compartilhados entre colegas ou orientados por pessoas sem formação médica.
Estudos mostram que o uso de esteroides anabolizantes pode provocar uma série de alterações cardiovasculares importantes. Entre elas estão piora do perfil de colesterol, aumento da pressão arterial, hipertrofia do músculo cardíaco e maior risco de arritmias.
Em alguns casos, o uso prolongado dessas substâncias está associado ao desenvolvimento de doença coronariana precoce, insuficiência cardíaca e infarto em indivíduos jovens.
O hormônio do crescimento, quando usado sem indicação clínica, também levanta preocupações. O excesso pode estar associado à hipertensão, retenção de líquidos, alterações metabólicas e sobrecarga do coração.
Embora muitos usuários enxerguem esses produtos como um atalho para resultados rápidos, o custo fisiológico pode ser alto.
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Corpo perfeito sem atalhos: o que o atleta amador realmente precisa
Um dos paradoxos mais interessantes desse cenário é que grande parte dos frequentadores de academia busca estratégias complexas de suplementação quando, na prática, o corpo responde principalmente a três fatores básicos: treino consistente, alimentação equilibrada e descanso adequado.
A ciência do exercício mostra que ganhos de força e massa muscular ocorrem de forma gradual e dependem de adaptação biológica ao treinamento. Não existe fórmula rápida capaz de substituir esse processo.
Isso não significa que suplementos não possam ter utilidade em contextos específicos. Mas, para a maioria dos praticantes amadores, o excesso de produtos muitas vezes reflete mais marketing e ansiedade por resultados do que necessidade real.
Em outras palavras, enquanto o treino deveria ser o centro da transformação física, muitas vezes ele acaba se tornando apenas o pano de fundo de uma cultura de consumo que promete atalhos.
E, quando esses atalhos envolvem substâncias hormonais ou compostos de origem incerta, o risco pode deixar de ser apenas estético e passar a envolver algo muito mais importante: a saúde do coração.
*Carlos Alberto Pastore é cardiologista, livre-docente pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e membro da Brazil Health
(Este texto foi produzido em uma parceria exclusiva entre VEJA SAÚDE e Brazil Health)






