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Antropologia da dor: como cultura e sociedade moldam o sofrimento

Uma reflexão sobre como fatores sociais e simbólicos influenciam o cuidado em saúde e a maneira como cada pessoa vivencia sensações dolorosas

Por Mariana Schamas, cinesiologista*
5 fev 2026, 09h37 • Atualizado em 5 fev 2026, 09h42
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A dor não é influenciada somente por fatores físicos  (Foto: Tomás Arthuzzi/SAÚDE é Vital)
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  • Pensar a dor a partir de explicações simplistas como: “se doeu é porque fez algo errado” ou “se carregou peso, vai doer”, limita profundamente nossa compreensão do adoecimento.

    Embora esse tipo de raciocínio possa fazer sentido em situações pontuais, ele é insuficiente para explicar a complexidade da dor. A própria definição de dor já aponta essa complexidade: trata-se de uma experiência sensorial e emocional desagradável, que pode ou não estar associada a uma lesão tecidual. Ou seja, a dor não é apenas física, ela é multifatorial.

    É nesse contexto que a antropologia da dor amplia o olhar para a questão, ao estudar como diferentes culturas e grupos humanos entendem, expressam e respondem à dor. Essa perspectiva nos convida a enxergá-la não só como um fenômeno biológico, mas como uma experiência moldada por fatores culturais, sociais, históricos, simbólicos e relacionais.

    Em algumas culturas, expressar dor é sinal de força; em outras, silenciá-la representa autocontrole e maturidade. A forma como expressamos a dor não é inata — ela é aprendida ao longo da vida. Gestos, silêncios, metáforas, rituais e narrativas revelam modos culturais de sentir e comunicar o sofrimento.

    Dor, subjetividade e identidade social

    A dor é sempre subjetiva e individual. Sua intensidade e significado são influenciados por crenças, valores, expectativas, gênero, religião, posição socioeconômica, vínculos sociais e experiências de vida. Compreender isso é essencial para ampliar o cuidado e respeitar a experiência de quem sente dor.

    Atletas, povos originários, devotos religiosos e pessoas que vivem com dor crônica e se organizam em comunidades acabam, muitas vezes, construindo identidades sociais em torno da dor. Em alguns casos, ela motiva; em outros, gera culpa, punição ou orgulho. A dor passa a ocupar um lugar central na forma como o sujeito se percebe no mundo.

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    +Leia também: Dor social: quando o sofrimento nasce da falta de empatia

    Limites do modelo biomédico tradicional

    Para avançar nesse entendimento, é fundamental escutar e elaborar as tensões e os estigmas existentes entre a experiência real do paciente e a interpretação biomédica tradicional, que isoladamente, já se mostra ultrapassada.

    É urgente sair do modelo dual da medicina e olhar para o sujeito como um todo, considerando os fatores sociais e culturais que influenciam o adoecimento: desigualdades de gênero, classe e etnia, discriminação por raça e cor, além da forma como a dor é frequentemente deslegitimada pelos profissionais de saúde e pela sociedade.

    Também é indispensável investigar como as narrativas pessoais dão sentido à experiência da dor: como são construídas, como as pessoas lidam com o estigma e como renegociam a vida, a rotina, a identidade, o trabalho, o autocuidado e as relações sociais.

    Por que a mesma lesão gera dores diferentes?

    Agora, eu te pergunto: por que duas pessoas podem sofrer a mesma lesão, receber o mesmo diagnóstico e sentir dor de formas completamente diferentes? O que você acha que influencia esse cenário?

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    A resposta não é simples. Mas a antropologia, a neurociência, a psicologia e a medicina contribuem juntas para um entendimento multifatorial da dor, ajudando-nos a construir caminhos mais consistentes para o restabelecimento da saúde.

    Cada sociedade — e isso inclui não apenas países, raças e culturas, mas também famílias, grupos e comunidades — cria sua própria forma de entender, expressar, valorizar ou até discriminar a dor.

    No universo esportivo, especialmente em certas culturas, a dor é vista como prova de dedicação, perpetuando slogans como o famoso (e, na minha opinião, bastante questionável) “no pain, no gain”. Em contextos religiosos, a dor pode ser interpretada como redenção, transcendência, culpa ou penitência.

    No caso das mulheres, muitas vezes a dor é naturalizada, normalizada, minimizada ou ignorada. Por isso, é urgente capacitar profissionais de saúde para não negligenciar a dor de quem a sente.

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    +Leia também: “Ela é mais forte”: estigmas sobre a mulher negra resultam em negligência

    Dor crônica e cuidado em saúde

    Compreender a dor em toda a sua magnitude, considerando todas as dimensões que a influenciam, é determinante para o diagnóstico e para o tratamento. Caso contrário, continuaremos normalizando o sofrimento e mantendo a dor crônica como uma espécie de território desconhecido, distante e confuso, que precisa ser explorado diariamente.

    A antropologia da dor nos convida a refletir: o que aprendemos, muitas vezes sem perceber, sobre quando devemos sentir, expressar ou esconder a dor? Essa perspectiva revela algo essencial: a dor não é apenas aquilo que o corpo sente, mas também aquilo que a sociedade permite ou não permite que o indivíduo sinta e manifeste.

    A dor é uma experiência física, emocional, social e cultural, tecida por crenças, história e significado.

    Entender isso muda muita coisa. Amplia nosso olhar sobre o fenômeno da dor, ajuda a mapear quem somos, de onde viemos, no que acreditamos e como aprendemos a nos cuidar. Abre uma janela de oportunidades para soluções mais coerentes com o contexto de vida das pessoas — e não apenas baseadas em diretrizes rígidas recém-saídas do laboratório.

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    Todas as ciências têm seu valor e contribuem para a evolução do cuidado, mas nenhuma delas é única ou suficiente sozinha. Talvez seja nesse caminho que a antropologia nos ajude a contar não apenas a história da dor, mas a história do indivíduo, da sociedade em que ele vive e da forma como interpreta, sente e experimenta tudo isso.

    Quando compreendemos essa complexidade, abrimos espaço para uma forma de cuidado mais ampla, mais compassiva e infinitamente mais humana.

    Mariana Schamas-Esposel, BSc em Cinesiologia, pós-graduada em dor, coordenadora do curso Dor e Movimento – HCX-USP

     

     

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