Mas qual o problema de comer uma besteirinha de vez em quando?
Obesidade infantil avança pelo mundo e expõe impacto dos ultraprocessados na saúde
Acaba de sair um extenso relatório feito pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) com dados globais em relação à alimentação e nutrição de crianças e adolescentes. Os dados analisados refletem pesquisas divulgadas pela OMS, pelo Banco Mundial e pelo próprio UNICEF e trazem conclusões alarmantes.
De forma assustadora, a obesidade cresce mais na faixa etária infantil do que na faixa etária adulta, caminha para superar os números de desnutrição, mostrando que as tendências aumentam o cenário de desigualdades no mundo.
A prevalência e os problemas relacionados ao excesso de peso e à obesidade em crianças e adolescentes são maiores nos países que sempre lutaram contra a desnutrição. A obesidade traz consequências já na infância e molda problemas metabólicos que se perpetuam na vida adulta.
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Ambientes alimentares desfavoráveis às crianças
Milhões de crianças e adolescentes estão crescendo em ambientes onde bebidas açucaradas, lanches salgados, doces e fast foods, incluindo alimentos e bebidas ultraprocessados, são altamente acessíveis e promovidos de forma agressiva. É uma luta desigual e exaustiva, em que famílias e crianças saem perdendo.
Essa indústria tem uma influência desproporcional sobre os ambientes alimentares das crianças. Ela molda quais alimentos e bebidas são produzidos e como eles são comercializados, especialmente em ambientes onde há pouca ou nenhuma regulamentação governamental.
Com objetivos que visam prioritariamente ao lucro, a indústria utiliza vastos recursos financeiros e profunda influência política para resistir a políticas destinadas a criar ambientes alimentares mais saudáveis e equitativos. Esse desequilíbrio de poder dificulta que governos, comunidades e famílias protejam o direito das crianças à alimentação e nutrição.
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Alimentação como reflexo das desigualdades sociais
A alimentação, a nutrição e o padrão alimentar têm se tornado um marcador socioeconômico, uma vez que o relatório demonstra que, à medida que os países se desenvolvem economicamente, o padrão de excesso de peso em crianças muda.
Em países de baixa renda, as crianças são mais propensas a ter excesso de peso quando pertencem a famílias mais ricas, que podem arcar com maiores quantidades de alimentos, incluindo alimentos ricos em energia.
À medida que os países fazem a transição para o status de renda média, os alimentos e bebidas ultraprocessados se tornam mais amplamente disponíveis e mais acessíveis, aumentando a prevalência de excesso de peso entre as crianças em todos os níveis de renda familiar.
Em países de alta renda, o padrão se inverte: dietas pobres em nutrientes e não saudáveis são um marcador de pobreza, não de riqueza, e o excesso de peso tende a ser mais comum entre crianças e adolescentes pertencentes a famílias mais pobres.
Quais os problemas destes alimentos?
Uma alimentação pobre em nutrientes e não saudável é definida como contendo quantidades excessivas de alimentos e bebidas não saudáveis e é pobre ou carente de alimentos nutritivos e saudáveis.
Essas dietas geralmente contêm quantidades inadequadas de vitaminas e minerais essenciais, proteínas, fibras e outras substâncias que promovem a saúde e fornecem energia excessiva. Elas aumentam o risco de todas as formas de má nutrição, impacto no crescimento, perda de peso, baixo peso, deficiências de micronutrientes, sobrepeso e obesidade, bem como de doenças não transmissíveis relacionadas à alimentação.
Dietas não saudáveis aumentam o risco ainda de outras condições cardiometabólicas em crianças e adolescentes, incluindo pressão alta, glicemia elevada e alterações de lipídios no sangue.
Esses problemas de saúde podem persistir na vida adulta, aumentando o risco de doenças crônicas não transmissíveis, incluindo diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer. O sobrepeso e a obesidade também estão associados à baixa autoestima, ansiedade e depressão entre crianças e adolescentes.
Os pais enfrentam tanto o impacto emocional dos desafios de saúde mental de seus filhos quanto a pressão financeira decorrente do aumento das despesas médicas e da perda de renda para cuidar deles.
* Anna Dominguez Bohn é pediatra







