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O álcool como símbolo de pertencimento e o alto custo para a saúde

O consumo de álcool se tornou um rito social, mas carrega riscos comprovados para o desenvolvimento de câncer e outras doenças

Por Juliano Rodrigues da Cunha, cirurgião oncológico, e José de Moura Leite Netto, jornalista*
10 jan 2026, 10h40 • Atualizado em 10 jan 2026, 16h27
Consumo de álcool é tratado como elemento central de integração, mas traz riscos sérios à saúde em qualquer dose.
Consumo de álcool é tratado como elemento central de integração, mas traz riscos sérios à saúde em qualquer dose. (Designed by Freepik/Freepik)
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  • Um estudo sobre bebidas alcoólicas, publicado em dezembro de 2025 na revista científica Cancer Epidemiology, trouxe a análise de 62 pesquisas conduzidas ao longo de dez anos, reunindo informações de quase 100 milhões de pessoas.

    A conclusão foi de que não existe dose segura de consumo de álcool, reforçando o posicionamento da Organização Mundial da Saúde (OMS). Mesmo em pequenas doses, o risco de câncer é evidente. Portanto, “beber com moderação” não é uma mensagem positiva.

    Esse dado confronta um hábito profundamente naturalizado. O álcool se consolidou, ao longo do último século, como símbolo de pertencimento social. Para muitos, brindar significa fazer parte. Recusar uma bebida, muitas vezes, exige explicação.

    Em encontros familiares, celebrações, ambientes de trabalho e grandes eventos esportivos, o consumo de álcool segue sendo tratado como elemento central de integração.

    Essa construção não é apenas histórica, mas sim atual. A próxima Copa do Mundo, nos Estados Unidos, México e Canadá, um dos maiores eventos de audiência global, tem entre seus principais patrocinadores uma marca de cerveja e uma de bebida ultraprocessada (refrigerante).

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    Celebrar, torcer e pertencer continuam sendo associados ao consumo de álcool e produtos sabidamente nocivos à saúde.

    Esse modelo repete uma lógica antiga. Assim como ocorreu com o tabagismo (incluindo o famoso carro com o qual Ayrton Senna foi tricampeão mundial), bebidas alcoólicas e ultraprocessados ocupam hoje um espaço privilegiado na publicidade, vinculados à emoção, união, alegria e identidade coletiva.

    A diferença é que agora não se trata mais de desconhecimento. Trata-se de convivência explícita entre marketing agressivo em detrimento às evidências científicas robustas.

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    Enquanto esse discurso seguia ativo, a ciência avançou. Hoje está bem estabelecido que oálcoolé uma substância tóxica e carcinogênica. No organismo, ele é metabolizado em acetaldeído, capaz de causar danos diretos ao DNA celular e favorecer a proliferação desordenada das células. Não importa o tipo da bebida, sua procedência ou sofisticação, o etanol causa um severo dano.

    +Leia também: Dá para minimizar os efeitos do álcool no organismo?

    Mesmo o consumo considerado leve ou moderado já carrega risco mensurável. Quando associado ao tabaco (que sozinho também é um vilão para saúde), esse risco não apenas se soma, mas sim se potencializa.

    A combinação eleva de forma significativa a incidência de cânceres de boca, garganta, laringe, faringe, esôfago e estômago. Somam-se a isso os alimentos ultraprocessados, cada vez mais presentes na dieta e já associados ao aumento do câncer colorretal, inclusive entre pessoas mais jovens.

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    +Leia também: DNA de tumores dos anos 50 pode explicar aumento do câncer colorretal em jovens de hoje

    Falar sobre isso não é proibir nem moralizar comportamentos. É informar. Reduzir o consumo de álcool, ultraprocessados e tabagismo é uma estratégia eficaz de prevenção não apenas do câncer, mas também de doenças cardiovasculares e outras condições crônicas, como a obesidade.

    Políticas de saúde pública baseadas em informação têm impacto comprovado sobre escolhas individuais e coletivas. O pertencimento social não deveria ter como preço a própria saúde.

    *Juliano Rodrigues da Cunha é cirurgião oncológico e mastologista, diretor nacional de Comunicação da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) e diretor do Grupo Oncoclínicas e do Hospital do Câncer de Uberlândia (UFU).

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    *José de Moura Leite Netto é jornalista, diretor da SENSU Comunicação e doutor em Ciências pelo A.C.Camargo Cancer Center.

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