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Virosfera

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O mundo também é dos vírus. E o virologista e especialista em coronavírus Paulo Eduardo Brandão, professor da Universidade de São Paulo (USP), guia nosso olhar sobre esses e outros micróbios que circulam por aí.

Furto na Unicamp: qual vírus pode ter sido levado e quão perigoso ele é?

Entenda quais patógenos podem estar envolvidos no caso e o nível de risco à biossegurança de cada um

Por Paulo Eduardo Brandão 26 mar 2026, 15h52 | Atualizado em 26 mar 2026, 15h52
Vírus foi furtado em laboratório da Unicamp
Vírus foi furtado em laboratório da Unicamp (Designed by Freepik/Freepik)
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Este é o tema de discussão entre todos da comunidade virológica, certamente até fora do Brasil: uma colega da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) foi acusada de roubar vírus de um laboratório da universidade. Como foi, que vírus foi, e quando isso será usado para um atentado terrorista? Tudo isso e muito mais ainda é obscuro, mas é possível dar opiniões educadas sobre o tema, ao menos na esfera viral.

Se eu quiser adquirir uma cepa viral qualquer, há vários meios legais para fazê-lo. Posso pedir a colegas que me cedam, posso comprar em fornecedores especializados ou tentar isolar no laboratório.

Vários outros materiais biológicos que usamos em um laboratório de virologia vêm por estes meios, incluindo linhagens celulares (inclusive uma linhagem de células que meu orientador importou e que eu deixei morrer durante meu PhD. Sorry, profe).

Mas também é necessário levar em conta se o meu laboratório tem condições para manipular aquele vírus com segurança. Para cada microrganismo, considerando-se sua “agressividade”, deve-se utilizar um Nível de Biossegurança (NB) adequado, e existem quatro níveis:

  • NB-1

Destinado a microrganismos de baixo risco. É o nível básico de laboratório, com bancadas abertas, pias para lavagem das mãos e uso de aventais, luvas e óculos de proteção.

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  • NB-2: Risco Moderado

Para microrganismos que causam doenças de gravidade moderada, mas que são difíceis de transmitir por aerossóis (partículas minúsculas, que saem da respiração, tosse, espirro, etc., e são capazes de viajar longas distâncias pelo ar). Exige o uso de Cabines de Segurança Biológica (CSB) e o acesso ao laboratório é restrito.

  • NB-3: Alto Risco Individual

Quando há chance de transmissão aerógena de microrganismos que podem causar doenças fatais e que são transmitidos principalmente pela respiração. O local deve possuir pressão negativa (o ar entra, mas não sai sem ser filtrado).

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  • NB-4: Risco Máximo (Contenção Total)

Para microrganismos extremamente perigosos, frequentemente fatais, para os quais não há vacina nem tratamento disponível. Neste caso, o laboratório é geralmente um prédio isolado, e os pesquisadores utilizam roupas pressurizadas (semelhantes às de astronautas).

Este é o único tipo que ainda não temos no Brasil, mas que está em construção, justamente em Campinas (SP).

Qual vírus pode ter sido furtado do laboratório da Unicamp?

Considerando essa classificação, vamos analisar quais vírus podem estar envolvidos no caso, com base no foco de trabalho de cada pesquisador responsável pelo laboratório em questão:

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Dentre os vírus que infectam seres humanos, temos o SARS-CoV-2 (causador da Covid-19), o vírus Oropouche, o Zika vírus e o vírus Chikungunya, que causam doenças de alta gravidade. Todos eles são classificados para manipulação em NB-3 (alto risco).

Outro exemplo é o Bocavírus, um patógeno respiratório humano comum, que causa infecções respiratórias e gastrointestinais, e deve ser manipulado em NB-2.

Também temos os vírus derivados de animais domésticos, como o H5N1 (da gripe aviária), H1N1 e H3N2 (dois vírus da gripe suína), além dos vírus da doença de Newcastle, vírus de Gumboro, Coronavírus Aviário, Metapneumovírus Aviário, Circovírus, Parvovírus suíno e canino e o vírus da Cinomose.

Nesse cenário, o H5N1 e o vírus da doença de Newcastle são os únicos que demandam NB-3. Apenas o H5N1 é considerado perigoso para humanos, embora o Newcastle possa causar conjuntivite em pessoas expostas.

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Esses vírus de aves e suínos (exceto Newcastle e H5N1) são amplamente disseminados no mundo todo e fáceis de encontrar em granjas, tanto em suas formas selvagens quanto naquelas utilizadas em larga escala em vacinas com vírus vivos para manter a produção de carne e ovos ativa.

Baseado nisso, eis a minha opinião: não saiu do laboratório da UNICAMP nenhum vírus que possa ameaçar a saúde humana ou a saúde de animais de produção.

Se fosse, por exemplo, um vírus da febre aftosa (erradicado do Brasil) ou um vírus da varíola (que hoje só existe em laboratórios NB-4 na Rússia e nos EUA, sendo letal para seres humanos), minha opinião seria bem diversa.

Claro, isso não quer dizer que seja aceitável que vírus desapareçam de nossos laboratórios; esse caso mostra fragilidade na cadeia de segurança, e só por isso o incidente é grave.

Quanto ao que realmente aconteceu — se foi roubo, furto ou engano — e quais exatamente foram os vírus que desapareceram, bem, isso já não é do escopo da “Virosfera”, mas recomendo acompanhar os próximos capítulos, que estão se transmitindo tão rápido quanto um surto de gripe.

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