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Cúrcuma: os poderes e as polêmicas da especiaria que ganhou o mundo

Celebrada há milênios na Índia, ela colore pratos, protagoniza pesquisas e vira febre em cápsulas. Nem tudo, porém, é ouro

Por Regina Célia Pereira (texto) e Estúdio Coral (design) 26 Maio 2026, 07h44
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A cúrcuma é de fato muito estudada, mas seu uso em suplementos é controverso (Getty Images/Veja Saúde)
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Cúrcuma. Aquela que dá a cor dourada. Ou hemaragini, para usar o termo original, em sânscrito, que costuma acompanhar a especiaria apelidada de “ouro indiano”. E ele tem tudo a ver com a substância que confere o tom entre o amarelo e o alaranjado da raiz, bem como seus poderes nutricionais.

Falamos da curcumina, uma espécie de polifenol que, junto à sua matriz, protagoniza pesquisas e virou ingrediente de suplementos mundo afora. É ela que também embala o crescimento vertiginoso na procura pela iguaria asiática.

Dados da empresa de pesquisa Intel Market Research mostram que o mercado global de curcumina deve saltar de 205 milhões de dólares em 2025 para 266 milhões em 2032. Segundo o relatório, o principal composto bioativo encontrado na cúrcuma tende a ter cada vez mais destaque nas indústrias alimentícia e farmacêutica.

A seguir, confira uma reportagem completa sobre a história, os benefícios e as polêmicas envolvendo essa raiz. Você vai ler sobre:

  • A história e a ascensão da cúrcuma
  • Quais são os benefícios reais da cúrcuma?
  • A recente polêmica sobre os suplementos de cúrcuma
  • O que é a cúrcuma
  • Curcumina: o segredo por trás das vantagens
  • O risco de ingerir cúrcuma demais
  • O que a ciência diz sobre o uso da cúrcuma
  • Como a cúrcuma é usada na cozinha
  • A cúrcuma pelo mundo
  • Há vantagens no shot de cúrcuma?
  • Ficha técnica da cúrcuma
  • As promessas em estudo
  • Vale a pena escovar os dentes com cúrcuma?
  • Como aproveitar melhor os benefícios da cúrcuma
  • E o açafrão verdadeiro?

A história e a ascensão da cúrcuma

A história de sucesso da especiaria não é recente. Há quem diga que começou entre 6 mil anos e 4 500 anos atrás. Existem relatos de que o célebre mercador veneziano Marco Polo (1254-1324) teria ficado maravilhado com a cor da raiz em uma de suas viagens à Índia.
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Assim, lá se vão séculos e séculos de globalização do tempero cheio de brilho e simbolismos. Ele tinge as vestes de monges budistas, aparece em festas de casamentos hindus, representando luz e prosperidade, e faz bonito na comida, colorindo qualquer prato. “Entra nas receitas de molhos, cozidos, aves, peixes e até no arroz“, conta Deepali Bavaskar, chef do restaurante Samosa & Company Indian Food, em São Paulo.

Hoje, a cúrcuma empresta seu colorido não apenas à culinária indiana. Enche os olhos e a boca de outras cozinhas — inclusive a de casa.
Na indústria, ela pinta manteiga, queijos, sobremesas, bebidas vegetais, massas, entre outros produtos. E chegou com tudo para suprir a demanda por alternativas naturais aos corantes artificiais.

Quais são os benefícios reais da cúrcuma?

Afora a beleza, coleciona evidências de seus benefícios à saúde, daí seu sucesso nos laboratórios de pesquisa. “A curcumina, junto de outros compostos, tem sido amplamente estudada devido às suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias“, conta o nutricionista João Felipe Mota, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) e autor de diversos trabalhos com a cúrcuma.

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Também existem indícios de que ela age a favor da digestão, da imunidade e do controle do peso.

“Na prática clínica, porém, é importante enfatizar que não é uma substância milagrosa. Apesar do potencial, ainda não há respaldo científico para tratar a cúrcuma como solução para a prevenção de doenças”, afirma o médico nutrólogo Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran).

E uma coisa é ingerir o tempero junto à comida, em quantidades mais módicas, outra é tomar cápsulas com altas doses desses compostos.

A recente polêmica sobre os suplementos de cúrcuma

O fato é que a fama de remédio natural tem feito muita gente comprar e ingerir suplementos de cúrcuma ou curcumina por conta própria — e essa atitude pode, inadvertidamente, trazer danos à saúde. O movimento levou órgãos regulatórios de países como Alemanha, Austrália, Canadá, França e Itália a lançar comunicados públicos sobre os problemas oriundos do uso indiscriminado desses produtos.

E o alerta chegou ao Brasil. Por aqui, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu recentemente um parecer sobre os riscos atrelados ao uso de suplementos de cúrcuma sem supervisão profissional.

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Na sequência, uma instrução normativa, publicada no Diário Oficial da União, apresentou novas regras para os fabricantes, reforçando a obrigação de eles estamparem os possíveis efeitos adversos aos consumidores. “Essas diretrizes ajudam a garantir que os suplementos possam ser utilizados dentro das doses recomendadas para ter eficácia e segurança”, resume a nutricionista Vanderlí Marchiori, conselheira da Associação Brasileira de Fitoterapia (Abfit).

Esses cuidados, convém ressaltar, se aplicam às cápsulas. Como tempero — sempre com bom senso, inclusive para não estragar a receita —, a cúrcuma está liberada.

O que é a cúrcuma

O que se conhece como cúrcuma é, na realidade, o rizoma de uma planta herbácea, que foi domesticada na Índia justamente em razão do atraente pigmento dourado.

A parte externa dessa raiz, que mede até 10 centímetros, apresenta uma coloração esbranquiçada ou cinzenta. Dali saem folhas grandes e flores amareladas, de cores mais pálidas. “A espécie se adapta bem a climas tropicais“, conta Rita de Cássia Alves Pereira, agronôma e pesquisadora da Embrapa Agroindústria Tropical, no Ceará.

Inclusive, temos produção no Brasil, onde Goiás tem se destacado, sobretudo o município de Mara Rosa. “O que se cultiva lá é reconhecido pela alta qualidade e teor de curcumina, sendo considerado patrimônio cultural material do estado”, revela Pereira. Trata-se de uma cultura fundamental para a economia local.

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Curcumina: o segredo por trás das vantagens

Embora seja considerada como o maior tesouro da cúrcuma — e de fato mereça esse título —, a curcumina é parte de um grupo de substâncias chamado curcuminoides, que incluem a demetoxicurcumina e a bis-demetoxicurcumina, por exemplo.

A raiz ainda guarda outros polifenóis, que são classificados pelos experts como metabólitos secundários, isto é, são sintetizados pelos vegetais para defendê-los em situações adversas na natureza. E eles também tendem a cumprir, em maior ou menor grau, esse papel protetor no nosso organismo.

Um dos efeitos mais reconhecidos é a ação antioxidante. Significa que são capazes de neutralizar os radicais livres, moléculas desemparelhadas que podem comprometer até o DNA celular. A curcumina tem a proeza de interromper esse ataque, preservando as células. Tal mecanismo, mais a ação anti-inflamatória, já é considerado um aliado de atletas de alta performance, que vivem à mercê do estresse oxidativo.

O professor João Mota tem colhido bons resultados em pesquisas sobre o uso da suplementação da cúrcuma com esportistas. “Por meio de avaliações metabólicas, observamos que a espécie contribui para a recuperação muscular”, diz.

Ele e outros pesquisadores da UFG investigaram ainda a atuação da especiaria na melhora de sintomas gastrointestinais em mulheres com obesidade. E, outra vez, os resultados foram animadores, principalmente em relação à prisão de ventre. Nessa direção, estudos têm apontado o impacto positivo da cúrcuma na redução de processos inflamatórios no intestino.

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Já existe uma explicação para isso. Há evidências de que a turma da curcumina favoreça a produção dos ácidos graxos de cadeia curta, moléculas geradas pela microbiota intestinal que contribuem para a integridade da barreira do intestino, evitando que agentes nocivos alcancem a circulação e desencadeiem inflamações.

Inclusive, trabalhos sugerem que esse mecanismo poderia ajudar a aplacar males até no cérebro. “Mas cabe salientar que a maior parte dos benefícios atrelados à cúrcuma vem de pesquisas com doses padronizadas do extrato em forma de suplemento”, observa a nutricionista Lara Natacci, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (Sban).

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(Getty Images/Veja Saúde)

O risco de ingerir cúrcuma demais

E é preciso ficar atento à dose e a contraindicações, uma recomendação que só pode vir após exames e a avaliação médica ou nutricional. O perigo é exagerar nas cápsulas. O efeito positivo se esvai e dá margem a exatamente o contrário.

Há risco de danos oxidativos e inflamações, que atingem especialmente o fígado, órgão que participa de processos como a eliminação de toxinas e da metabolização de medicações, suplementos e fitoterápicos. “O mecanismo de lesão hepática ainda não está completamente esclarecido, mas parece ocorrer por reações mediadas pela imunidade”, diz o hepatologista Luis Edmundo Pinto da Fonseca, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo.

Predisposição genética, consumo de álcool e presença de gordura no fígado podem agravar as coisas.

+Leia também: Por que suplementos de cúrcuma podem ser perigosos para o fígado? Hepatologista explica

O que a ciência diz sobre o uso da cúrcuma

Apesar das promessas pregadas e postadas por aí, existem ressalvas importantes sobre os trunfos da cúrcuma para o corpo humano. Em primeiro lugar, boa parte dos experimentos é feita com culturas de células e animais — e ainda faltam mais testes em humanos, um rito seguido no caso dos medicamentos tradicionais.

Em segundo lugar, a ciência mostra que a biodisponibilidade da curcumina — isto é, sua capacidade de ser assimilada e aproveitada pelo organismo — é baixa. Isso tem feito inclusive empresas de suplementação lá fora a utilizar a nanotecnologia para driblar o impasse.

Como a cúrcuma é usada na cozinha

Como tempero, no entanto, existem até formas de dar uma turbinada no aproveitamento dos compostos da cúrcuma. A estratégia é aliá-la a outras especiarias. “A pimenta-preta contém piperina, substância que ajuda a aumentar sua absorção“, conta a nutricionista Denise Maki, expert em gastronomia asiática de São Paulo.

Segundo ela, a combinação também traz mais equilíbrio ao sabor do ouro indiano, que, embora seja sutil, tende a apresentar leve amargor. Por essa razão, o famoso curry pode levar vantagem. O tempero, marca da culinária indiana, contém as duas especiarias, além de cravo, canela e demais elementos, de acordo com a receita da família.

Outro macete na cozinha é juntar a cúrcuma com boas fontes de gordura. “Misturar com o azeite de oliva, por exemplo, nos permite ativar seus aromas”, explica o engenheiro químico Nelusko Linguanotto Neto, da Bombay Food Service.

Marcante, o perfume do açafrão-da-terra resulta da união de compostos voláteis, sobretudo a turmerona e o zingibereno. São eles que dão um toque terroso às preparações. Aquecer um pouco o condimento é outro truque para liberar substâncias aromáticas. “Mas não devemos esquentar muito nem deixar queimar”, instrui Deepali Bavaskar. Calor de mais, sabor de menos.

A professora Maria Teresa Pedrosa Clerici, da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), conta que a questão da temperatura foi uma das razões para que ela elegesse o macarrão para uma pesquisa sobre enriquecimento de alimentos com cúrcuma.

“A escolha foi estratégica por permitir um processamento relativamente brando, especialmente no caso de massas frescas, já que o cozimento ocorre em água fervente e leva poucos minutos”, justifica. O resultado do experimento foi que a pasta ganhou mais cor e compostos bioativos — prova de que não há fronteiras culinárias para o ingrediente.

A cúrcuma pelo mundo

Na cozinha espanhola, a cúrcuma é usada na paella, prato que, embora na receita legítima leve o açafrão verdadeiro, especiaria caríssima, pode ser adaptado com o pó da raiz indiana. É assim que ele deixa tudo bem amarelinho e mais acessível aos bolsos.

“Já entre as receitas japonesas, temos o kare rice, um guisado de legumes e carne, preparado com um caldo à base de curry e pimenta”, ilustra Maki. No Brasil, a cúrcuma ainda pode emprestar seus predicados à galinhada, tradição nas bandas de Goiás, justamente o estado símbolo da produção nacional.

Há vantagens no shot de cúrcuma?

Por falar em brasileiros, tem muita gente por aqui investindo numa suposta receita milagrosa com a fonte de curcumina. É o shot matinal, em geral preparado com suco de limão e ingerido em jejum. Já foi louvado na internet como o elixir da imunidade.

Será? “Ele pode até fazer parte da rotina, mas nada substitui um padrão alimentar adequado. Se você não gosta, não faz nenhum sentido se forçar a tomar”, orienta a nutricionista Tarcila Campos, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

Se as cápsulas e os shots exigem cautela, resta o convite a desfrutar do tempero no dia a dia — ou conhecer a versão fresca da raiz, que vai bem em picles, saladas e molhos.

A chef indiana Deepali Bavaskar, nascida na cidade de Nagpur, brinca que, na culinária de seu país, a cúrcuma é quase como o sal. É popular, mas não deixa de ser especial. A ponto de entrar na Masala Dabba, a caixa de especiarias que a noiva recebe de sua mãe quando vai casar, para dar sorte e prosperidade ao casal. E, mantida a tradição, saúde para a família.

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(Getty Images/Veja Saúde)

Ficha técnica

Classificação
A Curcuma longa é da família das zingiberáceas, a mesma do gengibre.

Como é conhecida
Cúrcuma, açafrão-da-terra e açafrão-da-índia.

Origem geográfica
É natural do sudoeste asiático, sobretudo de países como a Índia.

Maiores produtores
A Índia domina a produção e o consumo, mas países como China e Bangladesh se destacam também.

O que se utiliza
A raiz, na verdade chamada de rizoma.

Uso culinário
Combina com pratos indianos, molhos, aves, frutos do mar e receitas de arroz.

Uso medicinal
Os suplementos podem ser coadjuvantes no tratamento de doenças marcadas por inflamação — sempre sob orientação.

As promessas em estudo

As ações já investigadas por pesquisas:

Antioxidante
A sinergia entre os curcuminoides e outros compostos neutraliza os radicais livres, moléculas que, em excesso, estão por trás de danos às células.

Anti-inflamatória
Experimentos mostram que a curcumina está relacionada com a inibição de determinadas vias do organismo que resultam em inflamação.

Antibacteriana
Pesquisas em laboratório revelam que as substâncias encontradas na especiaria brecam o crescimento de bactérias e fungos.

Pró-imunidade
Outra vez a curcumina seria a responsável, ao interagir com células do sistema imune e ajudar a modular a capacidade de defesa do organismo.

Pró-intestino
Há indícios de que contribua para a microbiota intestinal, favorecendo a produção de substâncias que promovem a integridade do aparelho digestivo.

Vale a pena escovar os dentes com cúrcuma?

Faz alguns anos que nasceu a moda de utilizar o pozinho para a higiene bucal. “Mas não se deve confundir a ação anti-inflamatória sistêmica da cúrcuma com o efeito tópico odontológico”, diz o dentista Mário Sérgio Giorgi, do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (Crosp).

Além de não exibir a mesma proteção microbiana dos cremes dentais, ela pode provocar manchas. Por enquanto, nada substitui a pasta de dente com flúor e o fio dental.

Como aproveitar melhor os benefícios da cúrcuma?

Veja truques de cozinha que valem muito:

Misture com pimenta
A pimenta-preta oferece a piperina, que favorece a absorção da curcumina. A proporção é de uma colher de chá rasa do pó para uma pitada da pimenta.

Acrescente óleo
Que tal combinar com azeite de oliva? O meio oleoso colabora para o aproveitamento da curcumina e ainda ajuda a liberar os aromas da especiaria.

Não aqueça demais
O pó não deve ser consumido cru, mas também não pode ser tão exposto ao calor. A sugestão é usar fogo brando ou adicionar na metade do cozimento.

Guarde direito
A dica é acondicionar o pó em recipiente de vidro, bem tampado e longe da luz para manter tanto as características sensoriais quanto
os benefícios.

Saiba conservar
A raiz fresca vai bem em marinadas e pode durar de uma a duas semanas, se guardada em geladeira. Também dá para congelá-la inteira ou ralada.

E o açafrão verdadeiro?

A cúrcuma (Curcuma longa) também é chamada de açafrão-da-terra porque apresenta coloração bem parecida com a do real açafrão (Crocus sativus). Mas este é caríssimo, por vir de uma planta mais rara e originária da região mediterrânea.

Para obter 1 quilo são necessárias mais de 200 mil flores de açafrão. E, nesse caso, bastam pequenas quantidades dos fios minúsculos para deixar as receitas como a paella douradas e cheias de sabor.

Tempero rico em antioxidantes faz bem ao coração e à imunidade

 

 

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