Câncer do colo do útero: onde avançamos e o que ainda precisamos fazer?
Doença ainda faz muitas vítimas, mas pode ser quase 100% evitável com uma medida simples

“Um futuro livre do câncer do colo do útero é possível.”
Essa frase ganha cada vez mais sentido no Brasil, à medida que o país avança nas estratégias de prevenção, alinhando-se às metas globais da Organização Mundial da Saúde (OMS) para eliminar a doença como problema de saúde pública.
O câncer do colo do útero é uma das maiores ameaças à saúde das mulheres brasileiras, é o quarto tipo de câncer mais comum nas mulheres em termos de incidência e mortalidade em todo o mundo. Mas é uma doença evitável e tratável, graças à eficácia das prevenções primária e secundária.
A prevenção primária inclui a vacinação contra o HPV, vírus responsável pela maioria dos casos dessa neoplasia. Já a prevenção secundária é realizada por meio de exames de rastreamento do patógeno, possibilitando intervenções antes que o câncer se desenvolva.
Desde que foi incorporada ao Calendário Nacional de Vacinação em 2014, a vacina contra o HPV desempenha um papel fundamental na prevenção da doença. Em 2024, a adoção do esquema de dose única ampliou ainda mais o acesso.
O impacto dessa medida é claro: segundo o Departamento de Monitoramento, Avaliação e Disseminação de Informações Estratégicas em Saúde (Demas), da Secretaria da Informação e Saúde Digital (Seidigi), do Ministério da Saúde, até o ano passado, quase 82% das meninas entre 9 e 14 anos já havia recebido a vacina.
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No entanto, ainda há desafios a superar. De acordo com estes mesmos dados, a cobertura entre meninas de 9 anos, idade na qual a vacina é mais imunogênica, permanece em 66%, e a imunização de meninos entre 9 e 14 anos é historicamente inferior à de meninas, com cobertura de 67% desde 2017 até o momento.
Aumentar a cobertura vacinal desse grupo é fundamental não apenas para elas, mas para proteger homens contra cânceres que também os afetam, como os de pênis, ânus e garganta, e para reduzir a circulação do vírus na população geral.
Outra medida de grande importância para cumprir as metas da OMS foi a incorporação de testes moleculares para detecção do HPV no Sistema Único de Saúde (SUS). Esse método, que detecta o DNA do HPV, substitui o exame de Papanicolaou para o rastreamento do câncer do colo do útero.
Com o novo protocolo, a periodicidade dos rastreamentos muda para intervalos de cinco anos após um resultado negativo, refletindo a maior precisão dos testes. Além disso, mulheres com mais de 60 anos e resultado negativo podem encerrar o rastreamento.
Para aquelas com resultado positivo para os tipos de HPV 16 e 18, responsáveis por 70% dos casos de câncer do colo do útero, o encaminhamento para colposcopia é imediato.
Já mulheres com resultado positivo para outros tipos de HPV oncogênico devem fazer outro tipo de análise, a citologia. Caso essa apresente alterações, essas pacientes também são encaminhadas para colposcopia.
Apesar de o Brasil ser uma referência na adoção de estratégias inovadoras para o rastreamento do câncer do colo do útero, há desafios a serem enfrentados em face às dimensões continentais do país, com desigualdades em diversas frentes, da distribuição de profissionais qualificados ao acesso geográfico e econômico a todas as etapas da linha de cuidado, ou seja, vacinação, rastreamento, confirmação diagnóstica e tratamento.
Superar essas barreiras exige uma abordagem integrada e multiestratégica.
Aumentar a cobertura vacinal, implementar um rastreamento organizado com busca ativa, integrar bancos de dados informatizados, promover o uso de inteligência artificial para avaliações histopatológicas e incorporar novas tecnologias são medidas essenciais.
Somente com esses esforços o Brasil poderá não apenas controlar o câncer do colo do útero, mas também liderar outros países da América do Sul nesse caminho.
* Flávia Miranda Corrêa é consultora médica da Fundação do Câncer