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Maternidade é um estado irreversível

Entenda o luto silenciado de mães que perderam filhos

Por Flavia Camargo, advogada e escritora* 10 Maio 2026, 11h54
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Perder um filho não significa deixar de ser mãe (Ilustração: Daniel Almeida/Veja Saúde)
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Costumamos associar a maternidade à presença física do filho: o colo, a amamentação, as fraldas, o crescimento e a construção cotidiana de memórias.

No entanto, existe um universo de mulheres que atravessaram a perda gestacional ou neonatal e que também são mães, embora o mundo, muitas vezes, relute em conferir a elas esse reconhecimento legítimo.

Ser mãe não é um cargo que se exerce apenas diante de uma plateia ou de um berço cheio; é uma transformação profunda do ser. Quando um filho morre, a sociedade costuma projetar sobre a mulher uma expectativa cruel de que ela “retome a vida” e volte a ser quem era antes. Existe uma pressa externa para que o luto seja superado. Mas essa “volta” é impossível.

A maternidade não é uma vestimenta que se tira, nem algo que se possa deixar de ser por conta da distância ou do silêncio. Uma vez que o vínculo é estabelecido, a identidade feminina se altera de forma definitiva.

A maternidade é, essencialmente, um estado interior e irreversível, que não depende da permanência para validar sua existência. Depois que esse laço é criado, algo se transforma na estrutura emocional da mulher. Ela será mãe para sempre, com ou sem o filho ao alcance dos olhos.

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+Leia também: Precisamos cuidar da saúde emocional de quem sofre um aborto

É um equívoco imaginar que a falta do contato teria o poder de diminuir um laço que transcende a matéria e se instala na alma. Infelizmente, a inabilidade social para lidar com temas delicados e a imperícia em acolher a dor alheia fazem com que o luto materno seja frequentemente silenciado ou invisibilizado.

Esse isolamento impõe um desafio extra a quem já carrega o peso de uma saudade eterna, transformando o luto em uma jornada solitária e, por vezes, invalidada pelo entorno.

Se você conhece uma mãe de braços vazios, não tente oferecer clichês que busquem apressar a sua cura. Em vez disso, procure se colocar disponível para escutá-la e validar sua história.

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Lembre-se de que ser mãe não é apenas viver um relacionamento que pode ser registrado em fotografias, mas carregar uma marca indelével no coração, que permanece viva para além de qualquer partida.

*Flavia Camargo é advogada, escritora e mãe de Igor, Lucas e Luisa. Autora de Enquanto vocês crescem e de livros publicados desde 2010, entre romances, biografias sobre maternidade e luto materno, poesias e literatura infantil.

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