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Depois de ter AVC aos 21 anos, jovem estuda para ser neurologista

Conheça a história de superação de Julia Guglielmi Moreira, que se formou em medicina após ter derrame e hoje se prepara para residência

Por Julia Guglielmi Moreira, médica*
7 dez 2024, 10h45
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Maioria dos pacientes com AVC não recebe a assistência adequada depois de sobreviver  (VEJA SAÚDE/SAÚDE é Vital)
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Tudo começou em um domingo de manhã, quando caí no banheiro do meu quarto. Minha mãe me encontrou e me levou para o hospital. Segundo ela, eu estava com a boca torta, e todo o lado direito do meu corpo não respondia mais a comandos. Como é enfermeira, ela já tinha identificado que se tratava de um acidente vascular cerebral (AVC).

Não consigo descrever com exatidão tudo que se passou. Fui tomada por um misto de sensações ao mesmo tempo e estava paralisada. Era difícil de acreditar que uma garota de 21 anos, tão jovem, teve um derrame.

Apesar de ser mais comum em pessoas acima dos 50 anos, estima-se que, no mundo, cerca de 2 milhões de pessoas entre 18 e 50 anos sofram com um AVC anualmente, segundo a Sociedade Brasileira de AVC.

Sempre fui uma estudante muito dedicada, era atleta também. Na época, em dezembro de 2014, eu estava de férias, tinha acabado o 3º ano da Faculdade de Medicina do ABC. E minha vida mudou completamente. Tive que reaprender a realizar movimentos que fazemos sem pensar, como deglutir e até mesmo respirar.

O AVC acontece quando vasos que levam sangue ao cérebro entopem ou se rompem, provocando a paralisia da área cerebral que ficou sem circulação sanguínea. No meu caso, atingiu o hemisfério esquerdo – ou seja, o lado direito do meu corpo ficou completamente enrijecido e prejudicado e, detalhe, eu sou destra.

Sentia meu lado direito todo muito pesado, o que me fez aprender a utilizar meu lado esquerdo.

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Foram seis meses internada na UTI e cinco meses no quarto hospitalar. O apoio dos meus amigos e da minha família, em especial da minha mãe, foi essencial para minha recuperação. Brinco que ela virou uma caçadora de reabilitação, achando e garantindo melhores profissionais ao meu lado.

+Leia também: Sobreviver ao AVC é só o começo: saiba a importância da reabilitação

A reabilitação precoce e constante foi o ponto-chave para a recuperação crescente que fui conquistando. Começou já na UTI, quando eu ainda estava em coma. O neurologista do pronto-socorro assumiu o meu caso, e, 15 dias depois, eu já estava sendo acompanhada por um fisioterapeuta e uma fonoaudióloga duas vezes ao dia.

Fomos aprendendo, na prática, o que era espasticidade e o quanto ela estava limitando a minha vida. Essa condição acomete principalmente as extremidades do corpo – braços, mãos e pés que ficam contraídos, semelhante a uma atrofia muscular. Os sintomas da espasticidade me impediam de fazer os tratamentos diários, por causa da rigidez e das dores provocadas.

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Pouco conhecida e subdiagnosticada, essa é uma sequela em até 40% dos casos de derrame. O diagnóstico precoce e assertivo, aliado a um tratamento abrangente, conduzido por uma equipe multidisciplinar, e à aderência do paciente ao protocolo, claro, são essenciais para lidar com a condição.  Além disso, tinha muita dificuldade com a fala, outra sequela do AVC chamada afasia.

Com o passar do tempo, fui reaprendendo cada tarefa simples e diária, como escovar os dentes. Aos poucos, fui me recuperando e recomeçando a vida. Após a alta, meu neurologista falou: “Júlia, você vai para casa e, em 15 dias, volta para faculdade”. E assim eu fiz mas, infelizmente, não entendia nada, eu era apenas uma ouvinte neste primeiro momento.

Eu acompanhei a minha turma, mas, em 2016, eles seguiram para o internato e eu fiquei. No 4º ano, me inscrevi em neurologia e psiquiatria, segui no meu ritmo e consegui concluir a faculdade em 2022.

Na colação de grau, compartilhei minha história durante uma homenagem que fiz, junto ao meu colega Pedro Henrique Godoy, aos pacientes, reforçando a importância da empatia. Lembro do discurso até hoje:

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“Empatia não é sentir pelo outro, mas sentir com o outro. Hoje estou aqui, como médica formanda, fazendo este discurso de agradecimento aos nossos pacientes. Mas eu também já fui paciente. Muitas vezes, nós, profissionais da saúde, pensamos que nossa formação depende apenas de muita dedicação, mas, na verdade, são os nossos pacientes que de fato nos tornam médicos e transformam cada um de nós em seres humanos melhores”.

Ainda convivo com a espasticidade, que felizmente está controlada com a ajuda de todos os médicos que me acompanham, e ainda passo por desafios com a afasia, outra consequência trazida pelo episódio. Mas, ao olhar para minha jornada, fico feliz em ver que já superei diversos obstáculos.

Meu desafio atual é ainda não conseguir falar como eu falava, além de não ter todo o movimento que gostaria na mão direita. É preciso dedicação, tempo e paciência, porque os exercícios são repetitivos e cansativos. Mas os resultados aparecem!

Hoje, eu estou estudando para entrar na residência em radiologia por imagem, enquanto busco uma colocação profissional. Continuo fazendo acompanhamento com fonoaudiáloga e psicoterapeuta, para cuidar também da parte emocional.

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A mensagem que deixo àqueles que trilham ou convivem com alguém que percorre o mesmo caminho que o meu: sigam firmes e não desistam. Continuem avançando, passo a passo, mesmo que esse movimento seja lento e exija muito esforço. Eu passei por isso e sei que é possível alcançar um amanhã melhor, com mais autonomia e qualidade de vida.

*Julia Guglielmi Moreira, médica graduada pela Faculdade de Medicina do ABC

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