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“Engravidei com meus próprios óvulos aos 49 anos”

O relato de uma mãe demonstra como a vida também é feita de recomeços

Por Ana Paula Motta
8 fev 2025, 07h00
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A vida também é feita de recomeços (Ilustração: Eva Uviedo/SAÚDE é Vital)
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Sou casada há 21 anos. Eu, Paulo e meus filhos, Paulo Henrique, de 17 anos, e Paola, de 14, vivíamos uma vida tranquila até que um evento inesperado virou nosso mundo de cabeça para baixo.

Paulinho, meu filho mais velho, sempre foi aluno de excelência acadêmica. Apaixonado por medicina, ele decidiu fazer o vestibular de teste, em 2022, ainda cursando o terceiro ano do ensino médio e passou em primeiro lugar. Foi uma alegria e orgulho imensuráveis, mas a felicidade rapidamente se transformou em uma batalha difícil para permitir que ele ingressasse na universidade.

Por causa da idade, enfrentamos diversos obstáculos legais até que, finalmente, um desembargador aprovou a decisão, permitindo que o meu amado filho seguisse seu sonho de estudar medicina. Minha felicidade não poderia ser maior.

No entanto, em um fatídico dia, 14 de outubro de 2022, tudo mudou. Paulinho sofreu um acidente fatal. A dor e o sofrimento de perder um filho é indescritível. Ficamos completamente sem chão. Uma tristeza profunda. Eu me sentia completamente paralisada sem saber o que fazer.

Nossa vida, a de nós quatro – porque meu filho sempre vai estar aqui –, virou de cabeça para baixo. Um imenso buraco foi aberto no meu peito, Paulinho é meu amor, meu companheiro, meu protetor… um amor que não consigo explicar. O luto é realmente uma luta, e arrisco dizer que é extremamente exaustivo fisicamente e principalmente emocionalmente.

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Briguei com Deus várias vezes. É muito sofrido ver minha Paola com apenas 14 anos viver a saudade e o luto tão nova. O irmão, ídolo e melhor amigo agora não estaria mais com ela fisicamente neste plano.

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Foi nesse momento de dor insuportável que meu marido, que é médico, compartilhou um desejo: o de ter outro filho. Na verdade, era também uma vontade que eu tinha dentro do meu coração, mas que eu não tinha coragem de colocar para fora, mas acho que a minha maior missão nesta vida é ser mãe.

Porém, pensei: “Meu Deus, e agora, o que eu vou fazer com tanto amor dentro do meu coração”? Eu só pedia uma resposta divina porque eu não sabia como ia administrar. Porque a perda de um filho é um sofrimento que não encontramos no dicionário palavra que traduza.

Após muita reflexão e oração, só me restavam duas certezas, que gostaria de ser voluntária e utilizar o meu tempo de sofrimento para ajudar o próximo com a caridade e tentar engravidar com a ajuda da medicina.

Em novembro de 2022, realizei uma consulta com a médica Cláudia Gomes Padilla, especialista em reprodução humana da Clínica Huntington. Mesmo sabendo que seriam pouquíssimas as chances de sucesso. Ainda assim, meu coração nunca duvidou, em momento algum.

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Somos uma família bem reservada, mas eu tenho um combinado com Deus: que eu jamais deixaria de expor esse nosso caso, porque eu poderia incentivar outras mulheres!

Ciente das dificuldades, acreditava que algo especial poderia acontecer. O processo de fertilização resultou em cinco embriões, dos quais três se desenvolveram e, após uma análise genética, apenas um foi considerado viável. Este embrião, de qualidade excepcional, era uma menina.

Acho que, no fundo, Deus já tinha soprado no meu ouvido que alguma coisa daria certo. Falei: Deus sabe de todas as coisas, se for pra eu ser mãe novamente, é com esse único embrião que vai vir uma linda menina pra gente. Então, eu e meu marido tomamos a decisão de tentar.

Claro que nada vai substituir a ausência do meu filho aqui neste mundo terreno comigo, mas eu sabia que ele estaria cuidando da gente e fazendo alguma coisa para que reaprendêssemos a sorrir.

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A implantação ocorreu e, quando fiz o primeiro exame, o beta HCG estava elevado. Cada teste subsequente confirmava que tudo estava se encaixando. A gravidez transcorreu – sem intercorrências. Não tive enjoo, não passei mal nenhuma vez, não tive sangramentos. Tudo transcorreu na mais perfeita ordem.

O pré-natal foi feito com o médico Guaraci Beleza, excepcional profissional e pessoa. Contudo, a gravidez aos quase 49 anos trouxe novas preocupações. Com idades mais avançadas, meu marido aos 52 anos, ponderamos se seria melhor ter o bebê nos Estados Unidos, para abrir mais uma porta para a nossa querida filha.

A verdade é que fica um medo de não estarmos aqui o tempo suficiente para poder orientar e ajudar a nossa filha, porque essa decisão tardiamente também traz essas questões.

Em dezembro de 2023, fomos para Orlando, na Flórida, onde fiz o restante do pré-natal e me preparei para o parto. A princípio, a cesárea seria realizada com 38 semanas, mas a equipe médica, mesmo ciente dos riscos, optou por adiar a cirurgia para a 39ª semana considerando que a gestação estava completamente dentro dos parâmetros normais.

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No dia 12 de fevereiro de 2024, nosso milagre nasceu. Veio ao mundo Maria Paula! O nascimento foi um momento de dualidade emocional para mim. Eu chorava de felicidade pela chegada da nossa filha, mas também sentia uma profunda tristeza pela ausência física do nosso filho Paulo Henrique.

O parto foi um momento muito difícil para mim, um processo de entendimento de que, embora os filhos possam partir, eles continuam presentes, numa dimensão diferente.

Uma foto marcante do nascimento de Maria Paula mostra a nossa pequena, ainda no centro cirúrgico, com as duas mãos fechadas, fazendo um símbolo de vitória. Para mim, essa imagem é um símbolo poderoso de que a vida e os sonhos são possíveis, mesmo depois das maiores adversidades.

A Maria Paula, agora com 10 meses, é uma bebê muito feliz, como nunca vi em toda minha vida. Ela é tranquila, uma criança que nos ensina muito sobre leveza e alegria.

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Então, eu tenho certeza que Deus preparou esse lindo presente para confortar os nossos corações – que nunca deixarão de ser machucados. Mas que a gente ressignifica a vida com vida.

Embora a saudade do Paulinho seja diária, a chegada de Maria Paula trouxe a certeza de que a vida, embora marcada pela perda, também é renovada pela esperança e pelo amor. Essa história é um testemunho de como a fé, a perseverança e o amor podem transformar até os momentos mais sombrios em novos começos.

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