“Tenho paralisia cerebral e virei instrutor de spinning”
Jovem português conta como superou estigmas e a importância da atividade física em sua trajetória com limitações de movimento

O meu nome é Nuno Ribeiro, tenho 34 anos e sou de Barreiro [cidade em Portugal]. Nasci em 28 de Agosto de 1990 — se calhar, quem sabe, para mudar mentalidades e demonstrar que a palavra impossível não deveria existir no dicionário.
Nasci com paralisia cerebral, deficiência relacionada com o sistema nervoso central.
Quando me perguntam o que é, não sei a melhor forma de explicar, de forma a que as pessoas entendam. Por isso, digo que o cérebro não envia os comandos corretos para o corpo, daí eu tenho problemas de equilíbrio e desloco-me com este “andar desengonçado”.
Desde que nasci, todos os médicos disseram aos meus pais que eu nunca iria andar. Foi então que conhecemos a Associação NÓS — Associação de Pais e Técnicos para a Integração do Deficiente, que tem como objetivo promover a inclusão social de pessoas com deficiência ou em situação de risco e/ou desvantagem social.
Lá, foi dito aos meus pais que havia uma fisioterapeuta, a quem eles poderiam pedir mais uma opinião. Depois de já terem ouvido tanto, não perderiam nada consultando mais alguém. Após uma avaliação, a fisioterapeuta disse a eles que eu tinha tudo para andar. E que iria andar!
Aprendendo a andar
Comecei a andar apenas com cerca de 7 anos de idade, depois de fazer a minha primeira cirurgia, para alongamento de tendões. Até então, só me equilibrava agarrado a alguém ou a alguma coisa. Era uma operação inovadora em Portugal, que havia sido realizada poucas vezes, por isso os médicos não sabiam qual seria o resultado final em mim.
A cirurgia foi um sucesso, mas os médicos disseram aos meus pais que poderia ser necessário repetí-la mais tarde, na adolescência devido ao crescimento.
Nos meus 16/17 anos, fase da adolescência em que damos um pulo grande em termos de desenvolvimento, foi necessária nova cirurgia, uma vez que os tendões não acompanharam o crescimento. Foram alongados novamente.
Esta cirurgia foi dividida em 3 fases. E acabou em mais um sucesso!
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O encontro com o spinning
Depois de finalizado novo processo de recuperação, e já cansado de tantos anos de fisioterapia, resolvi entrar para um ginásio. Por ser um ambiente novo para mim, foi necessário contratar um personal trainer, seria a melhor forma de me ambientar e evoluir ainda mais.
Se a minha vida tinha mudado até aqui, iria mudar mais ainda…
Num dos treinos, perguntei-lhe se ele dava aulas de grupo e, se sim, quais eram. Ele disse que dava aula de spinning. Perguntei-lhe o que era, e ele explicou-me. Fiquei interessado, mas, quando lhe perguntei se teria condições para a prática, ele disse que seria difícil… Mas eu gosto de ir a favor do que dizem ser difícil ou impossível, por isso fui experimentar.
Desde essa primeira aula, a paixão nunca mais desapareceu. Quatro anos se passaram, e ser só aluno para mim não bastava mais. Eu queria mais, queria ser instrutor!
Foi então que me foi apresentado o instrutor Pedro Maia, que já tinha dado formação a outras pessoas com algum tipo de limitação, como eu. Após uma “avaliação” para ver a viabilidade de eu lecionar classes de spinning, ele propôs que eu fizesse a formação e, depois, reavaliasse a possibilidade de uma carreira como instrutor.
Inscrevi-me na formação e, felizmente, a conclui com sucesso. Hoje dou aulas e me sinto feliz.
Ter recebido o certificado de instrutor foi mais uma lufada de ar fresco na minha motivação, pois consegui me superar em algo que nunca pensei ser possível.
Concluo deixando a mensagem: quando quiserem dizer que algo é impossível, substituam o impossível por possível!
*Nuno Ribeiro tem 34 anos e é portador de paralisia cerebral
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