Afinal, o que significa ser neurodivergente?
Psiquiatra com diagnóstico de autismo explica o quão diversas são as vivências de pessoas incluídas nesta classificação

Nomear algo é dar-lhe contorno e forma, permitir que seja identificado e reconhecido, evocado, apontado e respeitado.
A palavra “neurodivergência” é recente, cunhada no fim dos anos 1990 pela socióloga australiana Judy Singer, ela mesma uma neurodivergente que buscava um jeito menos estigmatizante de se referir à sua condição.
Nós, neurodivergentes, sempre existimos, embora ainda nos faltasse o termo que nos reconhecesse. Um filósofo importante, seu escritor predileto, o cientista que você mais admira, o artista que mais lhe intrigou provavelmente foram ou são neurodivergentes.
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Eram nomeados excêntricos, excepcionais, gênios: Aristóteles, Kant, Heidegger, Kafka, Mozart, Einstein, Tesla, Van Gogh, para citar alguns pensadores e inventores famosos. Mas, embora agora tenhamos essa nomeação, o que é isso que sempre esteve por aí, só que não era identificado como tal? O que é ser neurodivergente?
Se pudéssemos distribuir a humanidade numa planície e dividíssemos as pessoas segundo os modos pelos quais elas se relacionam umas com as outras e como se organizam no espaço e com o tempo, obteríamos uma bela mandala, como um miolo de flor de girassol, onde cada indivíduo ocuparia seu espaço, único e singular.
Essa forma expressa o conceito de neurodiversidade. Cada um é neurodiverso à sua maneira.
Se pegássemos essa mesma humanidade e a separássemos em dois grupos que tendem a se comportar de maneira mais ou menos assemelhada entre si, teríamos um, a maioria, os chamados neurotípicos, e outro, minoritário, os neurodivergentes.
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Sim, conceito de norma tem a ver com isso: o padrão dos majoritários. Os neurodivergentes seriam os que pertencem às margens nesse arranjo.E por que o conceito guarda em si o termo “neuro”?
Cada pessoa, típica ou divergente, apresenta um modo próprio de ser aberto ao mundo, ou seja, aos outros, às coisas, ao espaço e ao tempo. A magnitude dessa abertura é determinada pela maneira como nosso cérebro funciona, modulando a amplitude e a velocidade com as quais se manifestam a cognição, a afetividade, a sensibilidade sensorial e a destreza motora.
O cérebro dos neurotípicos é mais parecido um com o outro em relação a essa amplitude e velocidade de processamento e leitura do mundo. Contudo, os neurodivergentes também variam bastante entre si — tanto quanto divergem dos neurotípicos.
Assim, podem apresentar capacidades cognitivas, sensibilidades sensoriais, reatividades afetivas ou destrezas motoras mais ou menos pronunciadas.
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Estamos falando, quando pensamos em diagnósticos clínicos, de pessoas no espectro autista, no espectro de déficit de atenção e hiperatividade, no espectro das altas habilidades, no espectro da dislexia etc. Insisto na palavra “espectro” para não esquecermos que mesmo dentro desses grupos as diferenças são tão flagrantes que seria injusto pensar que cada pessoa caberia na mesma roupa de um só conceito.
Ora, cérebros são florestas neuronais em que podemos observar várias paisagens, ecossistemas celulares, neurossistemas, configurados pela diversidade com que se compõem, se agrupam e interagem.
Viver é experimentar como cada árvore, bosque e mata balançam frente aos ventos. A esses ventos podemos dar o nome de instantes.
Assim, o modo como cada cérebro está disposto a acolher o que lhe chega — sensorialmente, afetivamente e cognitivamente — determina como cada pessoa está consagrada ao instante, essa unidade inapreensível do tempo, mas que cada um de nós pode inferir a partir de sua própria existência.
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Geralmente, pessoas neurodivergentes, pela intensidade com que um instante se apresenta, ficam tão absortas e capturadas que tendem a buscar previsibilidade e coerência no modo como lidam consigo, com os outros, com o espaço e o tempo.
Aqui encontramos os traços da rigidez cognitiva, do perfeccionismo, da necessidade em construir rotinas, da afeição pelo que já é conhecido, pela dificuldade em viver mudanças, pelo estabelecimento do hiperfoco, ancorando-se, por assim dizer, em blocos de tempos, aos quais se agarram como tábua de salvação.
Por outro lado, estar arrebatado assim pelo instante também pode fazer com que a pessoa seja mais impulsiva, desorganizada, ávida por estimulação sensorial constante, arremessada de fragmento em fragmento do espaço e do tempo, num estado de miopia existencial que dificulta o estabelecimento de um foco, desgarrada no vai e vem das ondulações dos acontecimentos imediatos.
Ser neurodivergente é viver essa distensão, contração e dilatação do tempo. Imagine como é se relacionar com pessoas quando elas estão nessa outra “frequência”. Imagine quão desafiador é realizar tarefas segundo expectativas, prazos e padrões normotípicos quando se convive com essas condições.
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Isso significa que nós, neurodivergentes, estamos fadados à insuficiência, ao degredo e ao fracasso? Óbvio que não. Sermos neurodivergentes reconhecidos e identificados permite que possamos nomear não somente nossa natureza, mas também reconhecermos e identificarmos as sutilezas do nosso modo de ser — ou o que também se chama de sinais e sintomas.
Isso nos dá a clareza sobre como acontecem as intempéries nos cotidianos e ilumina os recursos a que podemos recorrer para lidar com elas: um leme, uma vela, um remo, uma âncora… Às vezes, um motor de popa, que os profissionais de saúde conhecem como medicação.
Ser um neurodivergente não reconhecido pode ser doloroso e demandar mais esforço para velejarmos na vida. Mas isso tampouco silencia nossas potências. Aristóteles, Kant, Heidegger, Kafka, Mozart, Einstein, Tesla, Van Gogh estão aí para provar.
Conhecer as neurodiversidades é reconhecer cada galho da árvore na floresta humana e os vazios entre os galhos. É reconhecer cada relevo de nossas geografias: riacho, montanha, deserto, geleira, vulcão. E você? Sabe reconhecer suas paisagens?