Ansiedade de (re)começos
Um novo ciclo na vida pode ser compreendido como o cultivar de um jardim, algo que leva tempo, paciência e boa vontade

Ter clareza da passagem do tempo é um dos maiores desafios para pessoas neurodivergentes. Ao começarmos uma tarefa, podemos ter dificuldade em nos vermos envolvidos por ela, os segundos se estendem por minutos que parecem deformar-se em horas tediosas e infindáveis.
O contrário também pode se produzir, e ficarmos tão absorvidos que não percebemos o fluxo das coisas. O dia termina como se aquelas mesmas horas coubessem no bolso, de tão curtas.
Escrever um texto (como este, por exemplo), arrumar a casa, cuidar de um jardim, planejar os projetos para o ano, todas essas tarefas encontram um mesmo denominador comum, são ações que se projetam num tempo e num espaço.
O que vertemos sobre o papel, o que ajeitamos nos cômodos do lar, o que colhemos do quintal, o que sonhamos para o ano, se espraiam nesse mesmo território, e são a finalidade para a qual nos lançamos quando as iniciamos. Fim e começo se (re)encontram no papel preenchido, na casa ordenada, no cesto cheio, no peito que se felicita com o prazer dos projetos realizados.
Diante dessas tarefas, podemos nos sentir estimulados, confiantes, seguros de como e por onde prosseguir, ou ainda, por outro lado, inibidos, incomodados, amedrontados e titubeantes. Ansiosos por não sabermos onde se encontra a ponta solta desse fio que insistentemente nos escapa, e muitas vezes, a imobilidade resta como única opção.
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A figura do jardim
Não à toa, a comparação entre o jardim e nossos outros trabalhos está colocada nesse texto.
Esse espaço é um território que demanda revisitação para que seja cuidado. Esse ritual que se repete sobre cada parte, setor ou canto da paisagem, também é ritmado pela batuta dos ciclos das estações, chuva e seca, calor e frio. O local também é um terreno que acumula em si os trabalhos prévios, as escolhas feitas anteriormente.
Há uma planta que cresceu com vigor, revelando sob si um novo espaço, nicho para vegetações que gostam de sombra. Outra queimou por excesso de sol, deixando o espaço vago para que uma nova escolha seja feita. Uma teve as raízes encharcadas. Outra caiu com a tempestade. Algumas nasceram por capricho de um passarinho que dispersou suas sementes. Outras foram arrancadas por algum intruso.
Assim também é um ciclo que se inicia na vida. Um território, espaço e tempo, que aguarda e recebe de nós aquilo que podemos oferecer: dedicação, diligência, consagração, devoção ou ainda displicência, recusa, descaso, descuido, desleixo, desprezo.
O tempo de trabalho em um jardim, assim como um ano novo, não deve ser pensado como algo que se encerra em si, como um círculo, ou circuito, fechado, mas antes, como uma espiral, algo que, ao dar uma volta sobre si, ganha em projeção, tamanho, amplitude e alcance.
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Um horto revela em si a constância do tempo que passa, com cada uma das marcas de sua história, seja proposital, seja acidental. Por isso, como pessoa neurodivergente, eu o aprecio tanto: para além do prazer da fruição de espaço, um jardim me permite a fruição do tempo.
Os instantes inscritos nas nervuras de cada uma das folhas que o compõem. Os segundos revelados na agitação do vento sobre as ramagens. Os minutos na gota d’água que vai cair daquela folha. Os dias nos brotos novos que nasceram aqui e ali, os meses nos galhos. Os anos nos extratos do que, por fim, pode se tornar uma floresta, com seus séculos de existência.
Plantas crescem em espiral em direção ao sol e fractalizam raízes, troncos, galhos e folhas no espaço, com o tempo. Sempre em espiral. Sempre (re)começando a cada ciclo. Um ano novo também. Um texto também. Como este, cheio de torvelinhos e espirais.