Anatomia do Caos: documentário reconstrói os bastidores da CPI da Covid-19
Cineasta Dandara Ferreira afirma: "Não estávamos apenas diante de uma pandemia, mas de uma tragédia agravada por escolhas humanas”
No dia 18 de outubro de 2021, o taxista Márcio Antônio do Nascimento Silva, de 57 anos, depôs na CPI da Covid-19. “Meu filho não é um 1número. Minha dor não é mimimi”, declarou ele, que perdeu Hugo Dutra do Nascimento Silva, de 25 anos, no dia 18 de abril de 2020.
“Quando fui reconhecer meu filho, ele estava dentro de um saco. Não pude dar um abraço nele. Não pude dar um último beijo”, emocionou-se. Seu depoimento era uma resposta ao presidente Jair Bolsonaro que, no dia 4 de março de 2021, protestou sobre a pressão que recebia por conta do avanço do coronavírus: “Chega de frescura, de mimimi. Vão ficar chorando até quando?”.
“Nós merecíamos um pedido de desculpas da maior autoridade do país”, lamentou Márcio.
O relato do taxista é um dos momentos mais emocionantes do documentário Anatomia do Caos, roteirizado e dirigido pela cineasta Dandara Ferreira, que chega aos cinemas hoje, dia 2.
A CPI da Covid-19 teve início no dia 27 de abril de 2021 e chegou ao fim no dia 26 de outubro de 2021. Durante seis meses, mais de 60 pessoas, entre autoridades, médicos e familiares de vítimas, prestaram depoimento no Senado.
Márcio Antônio do Nascimento Silva morreu no dia 3 de outubro de 2022, aos 58 anos. Vítima de problemas cardíacos, partiu sem ver nenhum dos 78 indiciados pela CPI punido pelas 716.626 mortes de Covid-19 registradas no país.
“Que país é esse em que uma tragédia desta dimensão pode não produzir consequências proporcionais?”, questiona Ferreira. A seguir, confira uma entrevista com a responsável pelo filme:
Confira a entrevista com Dandara Ferreira
Saúde é Pop: “Como” e “quando” surgiu a ideia de fazer o documentário Anatomia do Caos, que registra os bastidores da CPI da Covid-19?
Dandara Ferreira: A ideia nasceu praticamente junto com a CPI. Quando ela foi instalada, em abril de 2021, tive a sensação de que estava diante de um acontecimento histórico.
Pela primeira vez, o Estado brasileiro passaria a investigar, publicamente, as decisões tomadas durante a maior crise sanitária da nossa história. Naquele momento, eu não sabia exatamente qual seria o filme. Sabia apenas que aquele processo precisava ser registrado.
À medida que acompanhei os depoimentos e consegui acesso aos bastidores, percebi que a CPI era mais do que uma investigação parlamentar. Ela se tornou um espaço onde o Brasil confrontava suas próprias escolhas. Foi ali que entendi que poderia existir um filme.
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A CPI durou cerca de seis meses. Qual teria sido o momento mais difícil?
O mais difícil não foi um dia específico, mas conviver durante anos com esse material. Rever continuamente aquelas imagens foi emocionalmente muito duro.
Mas, se eu tivesse que escolher um momento, seria tudo o que envolve Manaus. A falta de oxigênio, o desespero das famílias e a sensação de abandono representam um ponto de ruptura.
Ali ficou evidente que não estávamos apenas diante de uma pandemia, mas de uma tragédia agravada por escolhas humanas.
A CPI propôs o indiciamento de 78 pessoas, incluindo o presidente Jair Bolsonaro. Nenhuma delas, porém, foi condenada. O que isso diz sobre o Brasil?
Acho que isso revela uma característica muito profunda da história brasileira: nós temos dificuldade em transformar traumas em responsabilização.
Muitas vezes, produzimos provas, produzimos memória, produzimos indignação, mas nem sempre conseguimos produzir justiça. O Brasil convive há muito tempo com uma cultura de impunidade em relação às grandes responsabilidades do Estado.
Isso não significa que a CPI tenha sido inútil. Pelo contrário. Ela construiu um registro histórico extremamente sólido sobre como a pandemia foi conduzida. Esse patrimônio documental permanece, independentemente dos desdobramentos judiciais.
Mas, o fato de tantas pessoas apontadas pela CPI não terem sido responsabilizadas nos obriga a fazer uma pergunta incômoda: que país é esse em que uma tragédia desta dimensão pode não produzir consequências proporcionais?
É justamente aí que o cinema também tem um papel importante. A Justiça trabalha com processos e prazos. O cinema trabalha com a memória. E uma democracia que perde a memória também enfraquece sua capacidade de exigir responsabilidade.
Qual é o seu sentimento hoje ao ver Anatomia do Caos e saber que, só no país, o vírus matou mais de 700 mil pessoas?
Existe tristeza, porque cada número representa uma vida interrompida. Existe indignação, porque muitas dessas mortes poderiam ter sido evitadas. Mas existe também um enorme senso de responsabilidade.
Eu nunca quis fazer um filme movido apenas pela revolta. Quis fazer um filme que ajudasse a compreender como chegamos até ali. O cinema não devolve as vidas perdidas, mas pode impedir que o esquecimento se torne uma segunda violência contra essas pessoas.
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O documentário será lançado no próximo dia 2, a 94 dias do primeiro turno das eleições. O que pretende com Anatomia do Caos? Recordar para nunca esquecer?
O filme já era para ter sido lançado, mas ficou pronto neste ano, no ano de eleição. Na verdade, acho que ele vem no melhor momento, pois pode ajudar no debate público sobre negacionismo, desinformação e outros temas atuais que ainda impactam na nossa vida.
Fiz um filme sobre memória e responsabilidade histórica. As democracias dependem da capacidade de lembrar. Quando uma sociedade esquece rapidamente suas tragédias, ela corre o risco de repeti-las.
Acho que Anatomia do Caos convida o público a revisitar um período muito recente da nossa história não para permanecer preso ao passado, mas para compreender como determinadas decisões políticas impactam concretamente a vida das pessoas. O cinema também tem um papel político.
Se o filme conseguir ampliar esse exercício de memória e reflexão, ele já terá cumprido um papel importante. O cinema não muda o passado, mas pode mudar a forma como uma sociedade escolhe lembrá-lo.






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