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De médica para paciente (e vice-versa). Neste espaço, a mastologista e cirurgiã oncológica Fabiana Makdissi, uma das maiores autoridades em câncer de mama no país, compartilha seus conhecimentos, vivências e reflexões sobre a saúde da mulher.

Cirurgia para retirar as mamas: quando é indicada e quais os riscos

Tratamento do câncer de mama evolui para menos cirurgias, mas cresce procura por mastectomias preventivas sem indicação

Por Fabiana Makdissi 17 abr 2026, 14h41
Como tratar câncer de mama com cirurgia
O avanço das cirurgias garantiu melhores resultados estéticos e contra o câncer, mas nem sempre é preciso retirar a mama (Ilustração: Jonatan Sarmento e Rodrigo Damati/SAÚDE é Vital)
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– Dra, quero tirar as duas mamas.

Para você que lê pode parecer estranho, e acredite, mesmo eu, que trato mulheres com câncer de mama todos os dias, também me surpreendo às vezes com essa frase, e posso explicar o motivo.

Ao longo dos anos, o tratamento do câncer de mama passou por um movimento de transformação. Antigamente, com diagnósticos avançados e pouco acesso a terapias adequadas, o número de mulheres que precisavam retirar as suas mamas para controle do câncer era muito grande.

Mas os anos foram passando, novas formas de diagnosticar foram somadas ao nosso arsenal e novas terapias foram criando possibilidade de evitar cirurgias.

Lembro que, no início da minha residência, o lema era: grandes cirurgiões, grandes incisões. No entanto com o tempo e muito conhecimento adquirido, isso mudou.

Sempre que posso fazer uma cirurgia menor, sei que darei alta precoce para a minha paciente, sei que ela terá uma recuperação menos dolorosa, sei que ela terá mais qualidade de vida porque suas cicatrizes vão incomodar menos. E, claro, sei que ela terá sua vida recuperada e a doença superada mais rapidamente, com a mesma qualidade que uma cirurgia maior prometeria a ela.

O paradoxo das cirurgias preventivas no câncer de mama

A questão é que em alguns casos, o conhecimento tem nos levado a um grande paradoxo: quanto mais sabemos sobre as doenças graves, mais tratamentos são somados e as cirurgias vão reduzindo. Por outro lado, também somos capazes de reconhecer pacientes chamados de alto risco. Nestes pacientes, mesmo antes de terem um câncer diagnosticado, pode ser que o médico indique a chamada cirurgia redutora de risco. 

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Explicando em miúdos: com o conhecimento da genética, hoje conseguimos identificar que algumas pessoas já nasceram com um risco aumentado para ter câncer. Assim, antes mesmo de esta pessoa ter o diagnóstico da doença podemos oferecer uma cirurgia para retirar órgãos saudáveis.

Ou seja, cirurgias menores para quem tem câncer e cirurgias maiores para quem nem teve o diagnóstico com o intuito de não terem. Entende o paradoxo?

+Leia também: Médica esclarece 6 boatos sobre câncer de mama que circulam na internet

Quando a cirurgia não é indicada, mas ainda assim é procurada

Ocorre que algumas pessoas sem este risco aumentado e sem compreender que não são parte deste grupo  pedem por estas cirurgias, mesmo sem indicação.

É claro que é fácil discordar de uma paciente que entra no meu consultório e pede uma cirurgia destas, se ela não tem nem teve câncer, não tem familiares com câncer e também não tem um teste genético positivo para uma mutação de alto risco. Entretanto, a vida não é linear e às vezes o risco está ali num meio termo. Difícil de um paciente entender e difícil para o médico explicar.

Medicina não é matemática, e pessoas não são números.

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Às vezes a paciente teve câncer em uma das mamas; tem um ou outro parente próximo com câncer; não teve acesso a um teste genético, e sente que seu risco é elevado. Ou seja, não há critérios claros de um risco tão elevado, mas também não há clareza de um risco tão baixo.

Os riscos de decisões cirúrgicas mal indicadas

Definitivamente não são decisões fáceis de serem explicadas. E o que vemos é que, quando existe dúvida, pacientes pedem por cirurgias que poderiam não ser feitas, mas médicos, infelizmente, por vezes fazem a cirurgia, mesmo sem indicação, e nem sempre com a técnica que deveria ser feita.

Explico. Por medo de complicações, cirurgias podem ser reduzidas e aí mora um grande perigo: cirurgias de retirada de mama precisam ser oncológica. A cirurgia que retira uma mama para reduzir risco é muito diferente de uma cirurgia redutora de mamas, que tem por objetivo somente diminuir tamanho.

Já tive pacientes entrando no meu consultório, dizendo que estavam lá, por excesso de zelo, afinal, “já tinham sido operadas e disseram a elas que suas mamas tinham sido retiradas”, mas, ao examinar o que elas tinham feito de fato, descobri que tinha sido uma plástica redutora de mama, e não uma cirurgia redutora de risco.

E como a gente sabe da diferença entre elas? Com um pouco de experiência já no exame físico podemos perceber, mas um exame de imagem, mamografia, ou ressonância consegue mostrar o tanto de mama que “sobrou” e que ainda precisa de cuidado.

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O que dizem os estudos sobre o aumento dessas cirurgias

Uma revisão publicada no JAMA Surgery em 2021 revelou que as taxas de mastectomia contralateral profilática (remoção de mama saudável) nos Estados Unidos aumentaram de menos de 2% em 1998 para 30% em 2012.

Estes dados mostram que, por mais que nós, médicos, tenhamos o cuidado de contraindicar uma cirurgia quando desnecessária, ainda não estamos fazendo bem o nosso trabalho, pois as pacientes continuam a decidir por cirurgias maiores de retirada das mamas saudáveis em vários lugares do mundo.

Segundo os trabalhos, o grupo que mais faz este tipo de cirurgia são as mulheres jovens, raça branca, que tem algum seguro saúde, com nível socioeconômico elevado e percepção aumentada de risco.

Nestes casos, mesmo que o médico contraindique a operação, a ansiedade é mantida pelo medo de um dia o câncer retornar e, infelizmente, mesmo sem dados concretos de que a intervenção reduziria o risco de uma recidiva, a cirurgia é feita e, aí, não tem volta.

Muitas mulheres chegam ao meu consultório pedindo pela cirurgia, mas outras tantas chegam se queixando dos efeitos de tê-la feito.

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Quem realmente se beneficia da cirurgia preventiva

São as mulheres que nasceram com um gene de alto risco para câncer de mama. Um exemplo disso é o caso da atriz Angelina Jolie. Para essas mulheres, a cirurgia bilateral, pode mudar tudo. Essa cirurgia quando bem indicada e bem realizada, pode salvar vidas e ao sistema é economicamente viável como publicado em outro artigo da Revista JAMA em 2024.

Resumo: o que você precisa saber sobre a retirada das mamas

Por tudo isso, achei importante ter essa conversa aqui com vocês. Vamos para um resuminho:

  • Não são todas as mulheres que têm câncer que vão se beneficiar de uma cirurgia bilateral;
  • Mulher com câncer de mama pode e deve conversar com seu médico sobre as melhores opções para a sua mama doente (retirar uma parte? Toda ela? Cada caso é um caso);
  • Também deve conversar com o médico sobre operar os dois lados, sendo um pelo câncer e o outro lado para simetrizar a mama (cirurgia plástica é super bem vindo se for desejo da paciente e se isso for o melhor para ela);
  • Não são todas as mulheres com câncer que, se um dia o câncer retornar, será na mama (doença metastática geralmente acontece em outros órgãos);
  • Paciente sem câncer e sem teste genético com mutação, não precisam cirurgia redutora de risco;
  • Não são todos os genes que quando positivos geram indicação de cirurgia redutora de risco.

Por fim, tema complexo, lindo, e sensível. Converse com seu médico e nunca, jamais tome uma atitude por medo. Tome atitudes com conhecimento e responsabilidade. Este recadinho é para pacientes e médicos, tá?

Grande abraço e até meu próximo texto.

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