Relâmpago: Revista em casa a partir de 9,90
Imagem Blog

Tome Ciência!

Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
A ciência faz toda a diferença para salvar vidas e proteger nossa saúde. Entendê-la é preciso. A jornalista Chloé Pinheiro e cientistas convidados se debruçam sobre os bastidores dos estudos e das políticas públicas para trazer notícias e reflexões exclusivas

Acervo da pandemia evidencia “política de morte” adotada no Brasil

Em entrevista, coordenadora da iniciativa fala sobre os ataques sistemáticos à ciência e seus prejuízos ao enfrentamento da covid-19 no Brasil

Por Chloé Pinheiro
19 mar 2025, 12h03
acervo-da-pandemia
Fernando Atique, pró-reitor de Graduação e Pesquisa da Unifesp, e Soraya Smaili, coordenadora do SoU_Ciência, em evento de lançamento do Acervo da Pandemia (Unifesp/Reprodução)
Continua após publicidade

Para quem tanto escreveu sobre coronavírus, olhar para o assunto pelo retrovisor desperta sentimentos contraditórios.

Por um lado, o alívio de viver uma vida quase normal de novo. Por outro, a tristeza por ver que o movimento antivacina segue ativo, e as condutas antiéticas e possivelmente criminosas adotadas pelos gestores brasileiros ainda estão impunes.

Jornalistas como eu, pesquisadores, vítimas da covid-19 e seus familiares, profissionais de saúde da linha de frente… Quem viveu tudo isso elabora um luto coletivo e por vezes não quer mais tocar no assunto, mas, felizmente, ainda há quem busque dar sentido e forma aos fatos.

Parte desse esforço resultou no lançamento do Acervo da Pandemia, coordenado pelo centro de pesquisas SoU_Ciência, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Trata-se de um projeto que reúne, com metodologia científica, evidências da postura contrária à ciência adotada no Brasil durante o período.

Batizada de “O necrossistema”, a empreitada trata dos ataques à vacina, da demora na compra dos imunizantes, da promoção de medicamentos ineficazes e das desinformações sobre uso de máscaras e isolamento.

O acervo foi lançado no último dia 12, na Escola Paulista de Medicina da Unifesp, com a presença de parceiros do projeto, como a Associação Brasileira de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19 (Avico) e o Centro de Estudos e Pesquisas em Direito Sanitário da Universidade de São Paulo (Cepedisa-USP).

A iniciativa também fez uma pesquisa com a população, mostrando que 52% dos brasileiros querem que os eventuais crimes cometidos no período sejam julgados e condenados.

Continua após a publicidade

+Leia também: 5 anos de covid-19: os legados da pandemia na visão de 7 especialistas

Conversei com a farmacêutica Soraya Smaili, coordenadora do Sou_Ciência, sobre as memórias da pandemia e a importância da iniciativa. Smaili era reitora da Unifesp quando o coronavírus chegou ao país.

Confira a seguir.

soraya-smaili
Soraya Smaili, coordenadora do SoU_Ciência e ex-reitora da Unifesp (Arquivo Pessoal/Reprodução)

VEJA SAÚDE: Quais foram suas principais atividades durante a pandemia?

Soraya Smaili: Eu estava reitora da Unifesp, no período final do meu segundo mandato e nós tínhamos acabado de celebrar 25 anos da universidade, em 2019.

Tinha sido um ano fantástico, e haviam várias atividades programadas para dezembro, quando veio a notícia de que um vírus novo, com uma capacidade de transmissão muito grande, que causava uma doença desconhecida, estava se espalhando.

Continua após a publicidade

Então, quando começamos o ano de 2020, já tínhamos esse peso. Passei o restante de meu mandato fazendo a gestão da pandemia. Nós fomos surpreendidos com a velocidade com que tudo aconteceu, mas nos organizamos rapidamente para criar um comitê de emergência, buscar pesquisas e angariar recursos para preparar o Hospital São Paulo para atender à demanda.

Também tivemos que lidar com mortes de profissionais da nossa equipe e coordenamos muitas pesquisas, inclusive da vacina de Oxford, que foi muito importante para termos as primeiras vacinas no início de 2021.

A partir de julho de 2021, criamos o centro SoU_Ciência, que passou a trabalhar no combate à desinformação, de onde vinha, como circulava, quais eram os métodos utilizados, e de lá para cá temos investido bastante nestes estudos.

Por que sentiram essa necessidade?

Primeiro, já em 2019 começamos a sofrer ataques do governo Bolsonaro, como outras universidades públicas, questionando a moral dos cientistas e das instituições de ensino.

Quando chegou a pandemia, começamos a ver circularem não só mentiras sobre as universidades, mas sobre as vacinas, o uso de máscaras, os medicamentos… Enfim, tudo isso que hoje está reunido no acervo.

Continua após a publicidade

Por isso ele foi criado: queremos que tudo esteja no mesmo lugar, para que as pessoas possam entender o que aconteceu. É muito importante que a gente possa, de fato, ampliar o nível de compreensão e de conscientização sobre o que é científico e o que é anticientífico.

+ Leia também: Como o Brasil virou o país da cloroquina?

Conte um pouco sobre o acervo. Por que ele foi criado e o que é possível encontrar por lá?

O acervo é quase uma consequência dos estudos que já vínhamos fazendo sobre o papel das universidades na sociedade e sobre a percepção pública da ciência.

Ele reúne materiais que juntamos ao longo desse período, detalhando as atividades dos negacionistas. Está dividido em diversas seções e reúne dezenas de áudios, vídeos e documentos, revisados e catalogados pela nossa equipe. É um acervo que será sempre enriquecido e é colaborativo. Aliás, já estamos recebendo sugestões de outras instituições e pesquisadores.

É importante como um material de pesquisa para cientistas, jornalistas e para a sociedade em geral. E é interessante por ser uma construção coletiva, que vai além de um repositório, mas é um lugar de acolhimento.

Continua após a publicidade

Por que a escolha do termo necrossistema e por que vocês falam em “política de morte”?

O uso do termo surge a partir da leitura de diversas pesquisas e evidências, reunidas principalmente pelas pesquisadoras Vanessa Moreira Sígolo e Letícia Sarturi, que descrevem o que aconteceu no Brasil como algo pensado, elaborado.

Por meio de fatos, documentos e declarações públicas, grupos bem organizados disseminaram informações falsas no Brasil. Tudo isso faz parte de um sistema que, por ter ocasionado tantas mortes, foi chamado por nós de necrossistema.

É um conceito acadêmico que ainda está em formulação, mas outros autores também tem trabalhado com ele. Então o acervo traz evidências para que a gente possa caracterizar o que, na nossa visão, foi um plano que produziu tantas mortes desnecessárias no Brasil.

Vocês fizeram pesquisa sobre a percepção popular em relação a essa responsabilização. Pode destacar alguns resultados?

O principal é que a maioria da população [52%, segundo o levantamento] quer justiça. Se houve crimes durante a pandemia, eles querem que sejam julgados e reparados. Esse é um dado surpreendente, porque muitas vezes assumimos que “ninguém liga mais pra isso”, mas não é bem assim.

Por isso é tão importante que os cientistas escutem a sociedade. Nessa linha, o Sou_Ciência elaborou outras pesquisas ao longo dos últimos anos. E mostramos que, especialmente em 2022, cresceu muito o apoio à ciência e a credibilidade dos cientistas.

Continua após a publicidade

Mas precisamos trabalhar para que as pessoas entendam que certas coisas são vendidas como ciência, mas não são científicas. Os grupos negacionistas se apropriaram dessa popularidade e não falam mais mentiras escrachadas, mas distorcem dados e os tiram de contexto para gerar medo nas pessoas com um verniz supostamente científico.

Então é importante que esse trabalho de conscientização continue.

+Leia também: “Popularizar a ciência é um dos pilares para enfrentar o negacionismo”

Você mencionou no lançamento a preocupação com a segurança jurídica do acervo. Por que que há necessidade desse cuidado legal? Vocês já receberam algum tipo de ameaça desses grupos?

Sim. Há cerca de dois anos, recebi uma notificação extrajudicial, junto com outros professores da Escola Paulista de Medicina, por conta de um manifesto assinado por nós relacionado às vacinas.

E outros colegas estão sendo processados e receberam ameaças inclusive de morte. Então fizemos todo um procedimento para criar o acervo com um método rigoroso e científico, que não tivesse juízo de valor.

Tomamos todo o cuidado em especial para evitar ataques à Unifesp. Não estamos livres disso, mas nos protegemos juridicamente da melhor maneira possível.

Compartilhe essa matéria via:

 

 

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Domine o fato. Confie na fonte.

10 grandes marcas em uma única assinatura digital

Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*
a partir de 9,90/mês*
ECONOMIZE ATÉ 63% OFF

Revista em Casa + Digital Completo

Você pediu, a gente ouviu. Receba a revista em casa a partir de 9,90.
a partir de R$ 9,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$118,80, equivalente a R$ 9,90/mês.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.