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O que o leite materno “ensina” ao bebê

MicroRNAs no leite materno programam a saúde do bebê; obesidade materna influencia o risco de doenças crônicas

Por Gyslane M. Santos* 3 Maio 2026, 10h30 | Atualizado em 5 Maio 2026, 10h47
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O aleitamento materno é essencial, mas ainda é cercado de estigmas e desafios (Freepik/Reprodução)
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O leite materno é reconhecido há décadas como o alimento padrão-ouro da nutrição infantil, reunindo nutrientes, anticorpos, hormônios e outros compostos que protegem contra infecções e reduzem o risco de doenças crônicas ao longo da vida.

Entre esses componentes, os microRNAs, pequenas moléculas de RNA que não produzem proteínas mas regulam a expressão de diversos genes , vêm ganhando destaque por seu papel na imunidade, no metabolismo e até no desenvolvimento neurológico.

No leite materno, essas moléculas são produzidas principalmente pelas células da glândula mamária e liberados em diferentes frações.

Muitas vezes, estão protegidos em vesículas chamadas exossomos, que funcionam como pequenos “pacotes de entrega” biológica.

Estudos indicam que essas moléculas resistem ao processo digestivo, são absorvidas pelo intestino do recém-nascido e alcançam a circulação sanguínea, onde podem influenciar a atividade de genes em diversos tecidos.

Como o leite materno programa o organismo do bebê

Na prática, isso significa que o leite materno não apenas alimenta, mas também transmite instruções moleculares que ajudam a programar o organismo do bebê, modulando processos ligados ao metabolismo de energia e gordura, à inflamação e à defesa imunológica.

Um estudo conduzido por mim, sob liderança da professora Luciana Pellegrini Pisani, do Departamento de Biociências e coorientação da professora Fabíola Isabel Suano de Souza, do Departamento de Pediatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), reforça um conceito já consolidado, o das “origens desenvolvimentistas da saúde e da doença” (DOHaD, na sigla em inglês).

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A ideia é que estímulos ambientais na vida fetal e nos primeiros meses de vida, entre eles a nutrição, podem deixar marcas duradouras no organismo.

Nesse contexto, os microRNAs ganham atenção, já que ajudam a ligar e desligar genes e parecem atuar como mensageiros entre o organismo da mãe e o do bebê.

Obesidade materna pode influenciar bebê

O artigo, publicado na revista internacional Obesity Reviews, aponta que a obesidade materna pode alterar o perfil desses microRNAs no leite e, com isso, influenciar o risco de obesidade, diabetes e outros problemas metabólicos ao longo da vida da criança.

A boa notícia é que, segundo os mesmos dados, mudanças no estilo de vida e na alimentação materna durante a gestação e a amamentação também têm potencial para modular essa comunicação, abrindo uma janela de oportunidade para prevenção já no início da vida.

Ao reunir evidências de estudos em humanos e modelos animais, as autoras mostram que a obesidade materna está associada a alterações consistentes no conteúdo de microRNAs do leite, o que pode ser uma das peças que ajudam a explicar a ligação entre o estado nutricional da mãe e o risco de doença na prole.

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A obesidade e o sobrepeso já foram classificados como uma epidemia global, afetando também mulheres em idade reprodutiva e gestantes, com impacto direto sobre a saúde da mãe e do filho.

Durante a gestação, o excesso de peso aumenta o risco de complicações como diabetes gestacional, hipertensão, parto prematuro e alterações no crescimento fetal.

Após o nascimento, cresce a chance da criança desenvolver obesidade, distúrbios metabólicos e doenças cardiovasculares ao longo da vida.

Neste trabalho, analisamos estudos em pares mãe-bebê e em modelos animais para entender como o estado nutricional da mulher impacta os microRNAs do leite.

De forma consistente, mães com sobrepeso ou obesidade apresentaram redução na quantidade total de microRNAs presentes nas vesículas do leite, além de alterações na expressão de genes específicos relacionados ao metabolismo de gorduras, à sensibilidade à insulina e à inflamação.

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Leite materno segue como melhor escolha

Apesar dessas alterações, as autoras são enfáticas em um ponto: mesmo nesses contextos, o leite materno continua sendo a melhor estratégia alimentar para o bebê.

Estudos epidemiológicos mostram, de forma consistente, que, em geral, crianças amamentadas apresentam menor risco de obesidade, diabetes tipo 2 e outras doenças crônicas ao longo da vida, em comparação àquelas alimentadas exclusivamente com fórmulas infantis.

Portanto, os achados não devem ser interpretados como um incentivo à suspensão do aleitamento, mas como um alerta de que o cuidado integral com a saúde da mulher, antes, durante e após a gestação, é parte essencial para promoção e prevenção em saúde pública, com impactos que se estendem também às gerações futuras.

Em outras palavras, apoiar o aleitamento materno e, ao mesmo tempo, oferecer acompanhamento nutricional e condições para a adoção de um estilo de vida mais saudável pode potencializar os benefícios que o leite já oferece naturalmente.

Potencial dos microRNAs vai além da nutrição

O interesse pelos microRNAs do leite não se limita à compreensão de mecanismos de risco.

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Essas moléculas vêm sendo estudadas também como possíveis ferramentas diagnósticas e terapêuticas, justamente por sua capacidade de regular múltiplos genes ao mesmo tempo.

Exossomos contendo miRNAs derivados do leite, por exemplo, já demonstraram potencial em modelos de doenças como enterocolite necrosante em recém-nascidos e infecções virais, ao modular a inflamação, a integridade intestinal e a resposta imune.

Embora pareça um tema altamente técnico, a mensagem dessa linha de pesquisa é simples e de grande relevância social: cuidar da saúde da mãe é um investimento direto na saúde da criança, e isso começa muito antes da primeira consulta pediátrica.

Promover ambientes que favoreçam alimentação adequada, prática de atividade física, controle de peso e apoio ao aleitamento materno é um desafio coletivo que envolve políticas públicas, serviços de saúde e condições sociais.

A ciência começa a mostrar que, dentro de cada gota de leite, circulam mensagens capazes de influenciar o organismo em formação.

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Com esse conhecimento, o próximo passo é transformar evidências em ação, apoiar mulheres, famílias e profissionais de saúde na construção de um início de vida mais saudável para as próximas gerações.

Como toda área emergente, a pesquisa sobre microRNAs no leite materno ainda enfrenta limitações importantes.

A revisão ressalta a necessidade de estudos maiores, de longo prazo e em populações diversas, que avaliem não apenas o perfil de microRNAs, mas também desfechos clínicos ao longo da infância e da vida adulta.

Só assim será possível transformar esse conhecimento em recomendações mais precisas e, eventualmente, em intervenções terapêuticas. A pesquisa foi financiada pela CAPES.

*Gyslane M. Santos é nutricionista e pesquisadora do Laboratório de Nutrição e Fisiologia Endócrina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), campus da Baixada Santista.

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