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O mundo também é dos vírus. E o virologista e especialista em coronavírus Paulo Eduardo Brandão, professor da Universidade de São Paulo (USP), guia nosso olhar sobre esses e outros micróbios que circulam por aí.

Ranavírus: a doença que ameaça anfíbios e desequilibra a natureza

Introduzido no Brasil pela rã-touro-americana, o ranavírus dizima populações de anfíbios nativos — e o impacto vai muito além das lagoas

Por Chloé Pinheiro Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 23 jun 2026, 13h55
Pequeno sapo marrom-claro com olhos grandes e pretos, sentado em uma folha seca alaranjada, com outras folhas e galhos desfocados ao fundo
 (Ana Beatriz Carollo/Getty Images)
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Ranavírus: a doença que ameaça anfíbios e desequilibra a natureza Priorizar nos meus resultados Google

Segundo a tradição Guarani, o mundo passou por uma seca terrível há muitos anos, afetando plantações, secando rios e matando animais. Por mais que os pajés se esforçassem, nada de chuva. Então, as pessoas perceberam algo estranho: enquanto todos os animais fugiam ou choravam de sede, os sapos sumiram da superfície do mundo.

Acontece que eles estavam debaixo do solo, onde ainda havia alguma umidade, reunidos para cantar e atrair a chuva, que, graças aos sapos, finalmente veio e salvou todo o mundo.

Essa história é muito coerente com o que ameaça hoje as populações de rãs, sapos e seus parentes. Mudanças climáticas impactam diretamente esses anfíbios, já que eles são muito sensíveis a mudanças de temperatura.

Fertilizantes, agrotóxicos e esgoto humano são especialmente maléficos a eles, pois sua pele é muito permeável e, evidentemente, eles vivem em águas que, se poluídas, podem dizimar suas populações. A perda de seus hábitats por desmatamento, atividades de mineração e outras coisas ruins que só os seres humanos sabem fazer tem colocado algumas espécies desses animais sob risco de extinção.

Aumentando o peso sobre esses delicados animais, há uma doença causada por um fungo que acomete a pele deles e os sufoca, já que parte importante de sua respiração ocorre por via cutânea. E, claro, também há uma doença viral importante, causada por um vírus com um nome bastante intuitivo: o ranavírus, que vem de rana (rã em latim).

Um vírus com genoma de DNA e identidade iridescente

O ranavírus não perde em tamanho para o coronavírus, mas tem um genoma feito de DNA de fita dupla (como o nosso), com 140 mil pares de “letras”.

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E há algo bem diferente nele: às vezes ele é envelopado e às vezes não, a depender de se os vírus saem da célula infectada “roubando” um envelope das membranas celulares ou se saem dela quando a matam, sendo soltos no meio extracelular.

Olhando ao microscópio, grupos de ranavírus parecem refletir a luz como um arco-íris, daí o nome da família à qual pertencem, a Iridoviridae, em homenagem a Íris, a deusa grega do arco-íris.

Sintomas, letalidade e a rã que não adoece

Anfíbios com ranavírus param de comer, têm dificuldade em nadar e apresentam hemorragias na pele e inchaço generalizado, além de hemorragia no baço, fígado, rins e trato gastrointestinal.

Ele é altamente letal para os anfíbios, mas nem para todos: a rã-touro-americana é uma espécie que, apesar de ser infectada pelo ranavírus, não apresenta sintomas.

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Acontece que a rã-touro-americana foi introduzida no Brasil para a produção de carne (sabe aquelas perninhas de rã fritas?). Quando algumas fazendas de produção de rã fecharam, muitas acabaram fugindo e se instalando com sucesso em alguns biomas brasileiros.

E quem fugiu com elas? Exatamente: o ranavírus, que atingiu populações de anfíbios altamente sensíveis da fauna brasileira. Não há tratamento, não há vacinas para ranavírus.

Tudo na natureza é interconectado

Mas e daí? Rãs, sapos e afins não fazem parte da “fofofauna”, como os saguis, as capivaras e outros animais “fofos”. O ranavírus também não é zoonótico, ou seja, não afeta pessoas.

Ocorre que tudo na natureza é interconectado, um conceito estabelecido pelo naturalista alemão Alexander von Humboldt (1769-1859). Rãs e sapos comem toneladas de insetos, inclusive mosquitos que transmitem doenças como a dengue, a febre amarela, Zika, chikungunya, malária e por aí vai.

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Se um vírus afeta esses anfíbios, a população de mosquitos sobe e aumenta a ocorrência dessas doenças. Para complicar, o ranavírus ameaça também répteis e peixes.

Devemos estar atentos ao canto dos sapos, Se ele parar, já será tarde demais.

 

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