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O mundo também é dos vírus. E o virologista e especialista em coronavírus Paulo Eduardo Brandão, professor da Universidade de São Paulo (USP), guia nosso olhar sobre esses e outros micróbios que circulam por aí.

Raio-x do ebola: cepa atual é mais leve, mas tem mais chances de espalhar

Por ser leve, ebola Bundibugyo pode se espalhar mais facilmente e não tem vacina nem tratamento — mas risco de pandemia é baixo; entenda

Por Paulo Eduardo Brandão 22 Maio 2026, 17h14 | Atualizado em 22 Maio 2026, 17h15
Microscopia eletrônica do vírus Ebola, com formato filamentoso e curvo, em tons de amarelo e preto sobre fundo roxo
Ebola pertence a grupo de vírus filamentosos, categoria particularmente perigosa para humanos (CDC/Divulgação)
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    Centenas de pessoas já foram afetadas pelo mais recente surto de ebola, que acomete a República Democrática do Congo (RDC) e Uganda. Ao todo, são 51 casos confirmados, 600 suspeitos e 139 que podem ter morrido pela doença.

    O vírus ebola é nativo do continente africano, tendo sido descrito pela primeira vez em 1976 justamente na RDC, um país profundamente afetado por uma guerra civil.

    Diante da situação, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou, na última semana, uma Emergência de Saúde Pública Internacional.

    Esse tipo de medida, porém, não é sinônimo de uma declaração de pandemia, como o que ocorreu com a Covid-19, mas indica a necessidade de mobilização de esforços internacionais para salvar as pessoas sob risco conter o surto.

    Raio-x do vírus ebola

    O vírus foi identificado pela primeira vez em uma região próxima ao rio Ébola, afluente da atual República Democrática do Congo — origem que inspirou o nome da doença.

    Atualmente, existem seis espécies circulantes desse patógeno, que pertence ao grupo dos vírus filamentosos (ou filovírus), um time que recebe esse nome devido ao seu formato peculiar que, no microscópio, lembra fios de lã emaranhados.

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    Esse fio pode chegar a ter o tamanho de três coronavírus enfileirados e envolve um genoma — o conjunto de informações genéticas do vírus — altamente mutável, formado por RNA, molécula que sofre mutações com facilidade, ajudando o patógeno a driblar parte da resposta imune da pessoa infectada.

    Assim, uma vez no corpo, o vírus ebola gosta de atacar células do sistema imunológico e nódulos linfáticos (pequenas estruturas de defesa conhecidas popularmente como “ínguas”), além de se concentrar em órgãos como fígado e rins.

    O vírus também pode se dirigir às células que revestem os vasos sanguíneos, o que leva ao sintoma mais assustador: a hemorragia generalizada por orifícios naturais do corpo (isto é, sangramentos no nariz, boca, olhos e ouvidos).

    +Leia também: Por que surtos de ebola acontecem com frequência? Entenda

    Menos letal, mais transmissível? A evolução do novo ebola

    Ao infectar uma nova vítima, geralmente, o ebola passa por um período silencioso que dura uma semana.

    Depois disso, começam os sintomas, que são, inicialmente, parecidos com os da gripe. Rapidamente, porém, os sinais evoluem para falha da função do fígado e dos rins, infecção cerebral e falha geral do organismo.

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    Em última instância, o vírus chega ao ponto de invadir as células dos vasos sanguíneos e, quando isso acontece, o estrago já é grande o suficiente para causar a morte do paciente.

    Então, a taxa de letalidade da doença varia de 25 até 90%, a depender da espécie de ebola envolvida. No surto atual, quem está circulando é a cepa chamada de Bundibugyo, a menos letal de todas.

    Mas aí é que está… ser menos letal é excelente para a sobrevivência do paciente, mas, paradoxalmente, faz com que o vírus tenha mais chance de se espalhar.

    Isso porque, falando friamente, se o paciente morre, ele para de transmitir o vírus, mas, se sobrevive, o vírus tem mais chance de se transmitir, que é exatamente o que ele quer.

    Como começou o surto atual?

    O ebola, como quase todo vírus assustador que se preze, vem de morcegos — no caso, morcegos que comem frutas e que têm um papel essencial na disseminação de sementes.

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    Ele vive também nos nossos primos chimpanzés e gorilas, que compartilham grande proximidade genética conosco. Por isso, o vírus se transmite bem entre eles e nós, tanto que mortes de gorilas já foram registradas após pessoas passarem ebola para eles.

    Então, o caos da guerra que aflige uma população já fragilizada somado ao contato entre esses povos e animais selvagens — seja pelo deslocamento de pessoas e bichos em fuga, seja para alimentação (que pode ser a única opção) — pode ter facilitado o pulo do ebola para os habitantes dos países em foco agora.

    Já entre nós, humanos, o vírus se transmite por qualquer fluido corporal contaminado com o qual entremos em contato, vindo de uma pessoa infectada.

    Prevenção e tratamento em falta

    vacinas para o ebola, mas só para uma das espécies do vírus, a Zaire. Ou seja, sem vacinas para a Bundibugyo. E tratamento com antivirais? Sim, temos, mas… não para a Bundibugyo

    Ebola pode virar pandemia?

    Existem fatores “contra” e “a favor” dessa teoria.

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    Contra: os reservatórios só existem na África; dos vários surtos de ebola, nenhum cresceu para uma pandemia e a comunidade internacional já está trabalhando para conter o surto.

    A favor: não há tratamento específico e nem vacinas; a negligência sobre a população africana aumentou agora que alguns países, como os EUA, condicionaram ajuda sanitária à entrega de minerais críticos; não há preparo em locais de chegada, como portos e aeroportos, para detectar pessoas infectadas ou doentes por ebola, mesmo depois de tudo o que deveríamos ter aprendido com a Covid-19.

    Portanto, na minha opinião: há poucas chances de termos uma pandemia de ebola com os dados atuais.

    Mas o mundo dos vírus é imenso. Um vírus pandêmico ideal é aquele que se espalha bem entre pessoas sem precisar de outros animais no meio, que se transmite por via respiratória e que muda tão rápido que as vacinas não o conseguem alcançar.

    Para mim, como já opinei, este vírus é o influenza. E a tempestade perfeita está se formando aos poucos, enquanto você lê este texto. Está em nossas mãos desenrolar esse fio.

    Os verdadeiros “efeitos colaterais” das vacinas

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