Variante Cicada da covid-19: o que sabemos sobre a BA.3.2?
Entenda as características deste subtipo, o impacto na imunidade e por que ele não causa uma doença mais grave
O ano de 2019 já parece distante, mas foi lá que o mundo como o conhecíamos começou a se esfarelar, quando, em dezembro, teve início a histórica pandemia de covid-19, que matou milhões de pessoas ao longo dos anos.
Ao mesmo tempo em que fazia estrago, o coronavírus despertou o interesse de muita gente para a virologia e também permitiu que muitos negacionistas, enterrados em seus buracos por anos, saíssem por aí cantando suas fake news.
A situação de emergência em relação ao coronavírus acabou, mas a covid ainda continua dando suas voltas pelo mundo e (surpresa, surpresa) novas variantes continuam surgindo. A mais recente delas a dominar as notícias é a BA.3.2, apelidada de Cicada.
Vamos, a seguir, dissecar a BA.3.2 para entender por que ela está fazendo tanto barulho.
Origem e identificação da variante Cicada
Primeiro, quem é ela? A BA.3.2 Cicada é da família das variantes Ômicron do coronavírus Sars-CoV-2, causador da covid, surgidas em 2021 e que se tornaram dominantes entre nós.
Essa em específico foi registrada pela primeira vez em um paciente na África do Sul em 2024. Veja, não quer dizer que ela surgiu lá, apenas que foi detectada lá pela primeira vez. É difícil, mas possível, saber onde uma variante surgiu, mas ainda não sabemos isso nesse caso.
O que muda na estrutura do vírus
O que ela tem de diferente? Se compararmos com o primeiro Sars-CoV-2 detectado em 2019, ela tem por volta de 75 mutações no gene que faz a famosa proteína de espícula (spike, que fica na superfície do vírus e é essencial para que ele infecte as células); se compararmos com sua ancestral mais recente, estas mutações caem para 50.
Ter uma mutação genética nem sempre quer dizer ter uma alteração na proteína, e ter uma proteína mutada nem sempre quer dizer que ela vai brotar de um modo estranho no vírus.
Não é nada espantoso achar mutações em um vírus, ainda mais em um como o coronavírus, que tem uma velocidade elevada de mutação — algo como a velocidade da nave Orion, da Artemis 2, comparada à velocidade de um jabuti.
A Cicada escapa das nossas defesas?
Ter uma espícula diferente permitiu que a Cicada fosse mais esperta em fugir de nossos anticorpos contra coronavírus, já que o encaixe vírus/anticorpo não é tão perfeito. Mas isso é bem diferente de escape imunológico.
Nosso sistema imune não tem só anticorpos, tem também uma diversidade de células brancas, cada tipo com uma função diferente, mais ou menos como a sociedade das formigas: algumas dão o alarme para chamar outras células para o local da invasão viral, outras atacam e matam células onde estão os vírus, outras “se lembram” da invasão e estão prontas para reagir numa próxima vez.
Esse sistema imune celular olha partes do vírus que não variam tanto e dá um guarda-chuva amplo de proteção. Ou seja, ainda que nossos anticorpos não peguem bem a Cicada, o sistema imune celular cobre essa falha e consegue controlar a doença — e é para isto que, no fim, servem as vacinas contra a covid-19. Portanto, a vacinação tem que estar sempre em dia.
Por que o nome Cicada?
Cicada é cigarra em inglês. As cigarras, em sua fase de ninfa, podem passar até 17 anos enterradas até emergirem e mutarem para sua forma adulta, cujo canto é tão bucólico.
Acontece que a BA.3.2 ficou por um longo tempo meio que escondida entre as demais variantes e aos poucos subiu às nossas vistas, tal como as cigarras de verdade.
A variante Cicada causa doença mais grave?
Não. Nada do que foi observado nos pacientes com a Cicada revela que os sinais e sintomas sejam mais graves do que naqueles com outras variantes.
Ah, e tem mais: tudo bem que a espícula da Cicada mutada fuja um pouco dos nossos anticorpos, mas há um problema (para a Cicada): ela não consegue se ligar tão bem às nossas células e sua infecção não é, portanto, tão eficiente. Nada na natureza é perfeito, mas apenas bom o suficiente.
Temos que estar e estamos atentos a novas variantes do coronavírus. É pouco provável que a Cicada se torne dominante. E, mesmo que se torne, variantes vêm e vão. É como no haicai:
No som da cigarra
nada revela
seu fim tão próximo
Matsuo Bashō, mestre japonês do haicai (1644-1694)







