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Super El Niño vai acontecer? Saiba consequências e riscos para a saúde

Calor extremo, chuvas e possível epidemia de dengue colocam especialistas em alerta quanto às repercussões do fenômeno climático no Brasil

Por Layla Shasta Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 27 Maio 2026, 11h52
Desenho de um planeta Terra em chamas, com continentes verdes e oceanos azuis, pintado em um papelão marrom sobre terra e galhos secos, com garrafas plásticas descartadas ao redor
É provável que o El Niño surja em breve (82% de probabilidade entre maio e julho de 2026) e continue durante o verão. (Freepik/Freepik)
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O El Niño é um fenômeno climático temido pois altera os padrões de chuva, temperatura e ventos pelo planeta. Ocorrido pela última vez em 2024, estima-se que retorne no segundo semestre deste ano e dure até 2027.

Além disso, projeções indicam a possibilidade de um “super” El Niño — versão mais intensa do fenômeno —, embora sua força ainda seja considerada incerta.

No Brasil, o evento costuma favorecer períodos de seca em regiões do Norte e no Nordeste e chuvas intensas no Sul e no Sudeste – condições que são ideais para diversos problemas que podem afetar a saúde da população.

Entre eles, estão a contaminação da água, o impacto do calor extremo e a proliferação do Aedes aegypti, com disseminação da dengue e outras arboviroses (viroses transmitidas por mosquitos e carrapatos).

“Todas as vezes em que tivemos El Niño, vimos um impacto importante das arboviroses“, alerta o infectologista Julio Croda, pesquisador da Fiocruz e professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

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Por essa e outras razões, profissionais de saúde demonstram preocupação com o cenário que o país encontrará nos próximos meses.

“Esses eventos trazem importantes repercussões para a saúde da população, incluindo aumento de doenças relacionadas ao calor, problemas respiratórios, doenças transmitidas pela água e por vetores, insegurança alimentar e impactos na saúde mental“, resume a médica Isadora Vianna Fernandes, coordenadora do Grupo de Trabalho de Saúde Planetária da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC).

Quais as chances de um ‘super’ El Niño?

Ainda não há uma resposta fechada. Previsões recentes da NOAA, agência climática dos Estados Unidos, estimam que existe até 96% de chances de que o El Niño se forme este ano, persistindo até fevereiro de 2027.

Mas

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a classificação da sua força ainda é alvo de controvérsias.

Para entender, vale ter em mente que os meteorologistas dividem as intensidades possíveis desse evento em categorias: fraco, moderado, forte e muito forte.

De um lado, alguns profissionais afirmam que, embora as consequências sejam imprevisíveis, esse pode ser um dos eventos mais fortes das últimas décadas.

É o que comenta a médica patologista e microbiologista Evangelina Araújo, especialista em saúde e sustentabilidade. “Poderá ser até três a cinco vezes maior do que foi em 2023 e 2024”, diz.

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Do outro, há previsões mais conservadoras.

Segundo a média de modelos calculada pela NOAA, por exemplo, até agora nenhuma das categorias concentra mais do que 37% de probabilidade, ou seja, as chances estão relativamente distribuídas entre elas.

Ainda assim, as chances de um evento “muito forte” têm crescido nas estatísticas. Isso significa que um “super” El Niño este ano é visto como possível, mas o cenário ainda está em aberto.

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“Nas últimas atualizações, os modelos mostraram maior confiança de que vai ser um super El Niño. Ainda não é 100% confiável, mas as probabilidades estão aumentando”, diz a geógrafa Karina Bruno Lima, doutoranda e especialista em climatologia.

Especialistas lembram, ainda, que o aquecimento global já em curso tende a intensificar o fenômeno, levando a alterações de temperatura mais extremas.

A chegada do El Niño ou de sua “versão turbinada” não é, necessariamente, uma sentença de desastres ou aumento de doenças. Mas… “A comunidade científica que estuda as mudanças climáticas e seus impactos na saúde tem acompanhado essa possibilidade [de um super El Niño] com preocupação”, diz Fernandes

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É que, em um cenário de mudanças climáticas intensas, os especialistas preveem as seguintes consequências imediatas e a longo prazo:

Clima perfeito para arboviroses

As arboviroses — grupo que inclui dengue, zika, chikungunya, febre Oropouche e outras — estão entre as principais preocupações dos especialistas diante de um El Niño.

Isso porque calor, mudanças no padrão de chuvas e períodos de seca são perfeitos para a proliferação de mosquitos como o Aedes aegypti, transmissor da dengue e o mosquito-palha, da Oropouche.

Segundo o Ministério da Saúde, durante períodos de El Niño, há um aumento na infestação por larvas do Aedes, especialmente em regiões com temperaturas acima de 23,3°C e precipitações superiores a 153 milímetros.

As temperaturas mais altas favorecem o desenvolvimento dos ovos e larvas. Ao mesmo tempo, períodos prolongados de seca seguidos por chuvas aumentam o acúmulo de água parada, o que é ideal para a reprodução dessa espécie.

O aquecimento global facilita que o mosquito sobreviva e se reproduza em regiões anteriormente consideradas frias (e desfavoráveis para ele), como o sul do Brasil. Com isso, pode haver mais espalhamento.

Combinação explosiva

Ainda há outras preocupações em relação à dengue, em específico.

Em 2024 (após um ciclo de El Niño iniciado no ano anterior), o Brasil registrou a maior epidemia de dengue da sua história.

Embora hoje as taxas gerais de casos estejam bem menores, os especialistas acompanham com preocupação, já há um tempo, uma outra situação: o avanço do sorotipo 3 da doença.

Para contextualizar, a dengue possui quatro sorotipos (versões diferentes do vírus). Quem já teve a doença por um deles fica protegido contra esse tipo, só que não necessariamente contra os outros. Ou seja, uma pessoa pode ter dengue até quatro vezes.

É aí que entra a preocupação. O sorotipo 3 circulou pouco no Brasil nas últimas décadas – os principais vírus circulantes são o dengue 1  e 2 –, mas tem reaparecido.

Isso significa que, embora ele esteja entre nós, grande parte da população ainda não tem imunidade contra ele. Acrescentar o El Niño a essa equação pode ser um risco.

“Se tivermos um “super” El Niño associado à maior circulação do dengue 3 – que está mais presente no território, mas não circulou com intensidade –, nosso temor é de que o país enfrente uma grande epidemia”, alerta Julio.

Riscos dos eventos extremos vão além do que se pensa

A maior revisão já feita sobre a interação entre clima e doenças cardiovasculares, publicada na revista Jama Cardiology, mostrou que eventos extremos como tempestades tropicais, furacões e ciclones estão associados ao aumento do risco cardiovascular, que persiste por meses após o mau tempo.

Outro grande estudo, publicado no periódico da Associação Americana do Coração (AHA, na sigla em inglês), mostrou que tanto o calor quanto o frio extremos aumentam o risco de morte por doenças como infarto, Acidente Vascular Cerebral (AVC), insuficiência cardíaca e arritmias.

Entre os dois, o frio teve um impacto maior: para cada 1.000 mortes cardiovasculares, os dias muito frios estiveram ligados a cerca de nove mortes extras, enquanto os dias muito quentes ainda estiveram associados a cerca de duas mortes a mais.

Com o El Niño, ainda mais se ele for “super”, esses picos poderão ser atingidos com maior facilidade. “Os extremos tenderão a ser mais contrastante. Muito calor alternado por períodos de muito frio”, explica o médico Paulo Saldiva, professor de Patologia na Universidade de São Paulo (FMUSP) e pesquisador há mais de 30 anos dos efeitos da poluição do ar ambiente na saúde.

E há diversos motivos para ambos serem prejudiciais.

“O calor extremo aumenta internações e mortes, porque obriga o organismo a fazer um esforço maior para manter a temperatura corporal equilibrada”, explica Ligia Trevizan, cardiologista do Hospital M’Boi Mirim, gerido pelo Einstein Hospital Israelita.

Segundo a médica, isso leva à perda de líquidos e eletrólitos e redução do volume sanguíneo. Além disso, a desidratação, favorecido pelo clima quente, deixa o sangue “mais espesso”, aumentando o risco de formação de trombose.

Já no frio, o corpo é sobrecarregado ao ativar mecanismos para conservar calor e manter a temperatura estável, como a liberação de adrenalina, o que acelera o metabolismo.

Ainda, os vasos sanguíneos se contraem — processo chamado de vasoconstrição — para evitar perda de calor pela pele. Com isso, coração precisa fazer mais força para bombear o sangue, o que também pode lhe “cansar”.

Chuvas, inundações e deslizamentos

Um dos primeiros problemas a aparecer e que pode afetar principalmente o Sul e o Sudeste costuma ser relacionado ao impacto da chuva, especialmente ao afetar a drenagem urbana.

“Talvez as cidades recebam mais quantidade de chuva do que o seus sistemas de drenagem conseguem suportar”, explica Saldiva. E as consequências são inundações e deslizamentos.

De imediato, essas ocorrências podem afetar a população ao favorecer que pessoas sejam arrastadas, sofram traumas ou afogamentos.

Depois, surgem consequências derivadas do contato com a água contaminada (por esgoto, urina de ratos e germes), que pode transmitir hepatite e leptospirose.

“Em cerca de uma semana ou 15 dias depois [de um alagamento ou deslizamento] começam a surgir essas doenças infecciosas”, diz Saldiva.

E tem mais. “Há, ainda, infecções por fungos nas casas com umidade”, lembra Evangelina. Também, em médio prazo, os desastres afetam a saúde cardiovascular e mental das pessoas atingidas.

Seca, queimadas e poluentes

Além dos impactos diretos do calor, regiões que enfrentarão temperaturas elevadas e períodos de estiagem podem sofrer problemas relacionados à disponibilidade e à qualidade da água.

A Amazônia seria especialmente afetada. Recentemente, aliás, houve períodos em que os rios ficaram tão baixos que deixaram de ser navegáveis, afetando atividades essenciais para a população, como a pesca e o transporte.

Quando o nível de rios e reservatórios diminuem, mas o despejo de esgoto e resíduos continua no mesmo ritmo, a concentração de poluentes aumenta. “Isso favorece a disseminação de doenças do trato digestivo, especialmente em locais com saneamento inadequado”, completa Saldiva.

Esses eventos também podem favorecer as queimadas e a poluição. “Nós podemos ter uma fumaça intensa, gerada a partir da queimada, que espalha material particulado, um poluente muito danoso para a saúde”, alerta Evangelina.

Como se proteger?

As medidas de proteção variam de acordo com o tipo de evento climático extremo. Confira:

  • Durante ondas de calor

É importante reconhecer os sinais de doenças relacionadas ao calor, como tontura, desidratação, confusão mental e exaustão.

A recomendação é manter hidratação frequente, priorizar alimentos leves e ricos em água — como frutas e verduras — e evitar bebidas alcoólicas, excesso de cafeína e bebidas muito açucaradas.

“A atenção deve ser redobrada para crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas, transtornos mentais, acamadas, em situação de rua e trabalhadores expostos ao calor”, alerta Isadora.

  • Durante queimadas

Em caso de fumaça, o ideal é reduzir atividades ao ar livre e evitar a entrada de fumaça nos ambientes internos sempre que possível.

Quando a exposição for inevitável, o uso de máscaras adequadas pode ajudar, principalmente para pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares.

  • Em chuvas fortes, enchentes e alagamentos

Nesses casos, é importante acompanhar os alertas da Defesa Civil e seguir as orientações das autoridades. Em áreas de risco, deve-se manter documentos e medicamentos de uso contínuo em locais de fácil acesso para uma eventual evacuação.

Evite contato com água potencialmente contaminada e fique atento aos riscos de afogamentos, desabamentos, choques elétricos e fios caídos.

O uso de calçados fechados e atenção ao mexer em entulhos ou locais sem visibilidade ajudam a reduzir acidentes.

  • Contra arboviroses

O principal alerta é reforçar o controle do mosquito transmissor, eliminando possíveis focos de água parada.

Além disso, a vacinação contra a dengue está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos, além de trabalhadores da saúde com até 59 ano, nas unidades básicas de saúde.

Pessoas fora do público-alvo podem adquirir na rede particular com preços entre R$320 e R$400 por dose (são necessárias duas aplicações com intervalo de três meses).

Saiba como aliviar a coceira da dengue

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