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O projeto brasileiro que transforma leite materno em pó

Cientistas criaram versão em pó do leite humano para minimizar o desabastecimento dos bancos e oferecer uma alternativa às fórmulas infantis

Por Maria Tereza Santos 4 mar 2020, 17h18
leite materno em pó
Pesquisadores descobriram como transformar leite materno em pó sem que o alimento perca os nutrientes. (Foto: Bruno Marçal/SAÚDE é Vital)
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Um projeto que pode auxiliar novas mamães a cumprirem a amamentação até pelo menos os 6 meses de vida é o vencedor do Prêmio Péter Murányi de 2020. Os ganhadores da 19ª edição são a nutricionista Vanessa Bueno Moreira Javera e o químico Jesuí Vergílio Visentainer, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), que descobriram como pegar o leite materno e transformá-lo em pó, sem perder nutrientes.

A iniciativa nasceu da dissertação de doutorado de Vanessa e foi feita em parceria com o Banco de Leite Humano do hospital da UEM. Com essa inovação, mulheres que não conseguem amamentar ou manter a prática após o fim da licença-maternidade ganham uma alternativa para suprir as necessidades de seu filho. De quebra, a estratégia auxilia a lidar com a demanda das UTIs neonatais.

“Vários estudos mostram a importância do aleitamento materno, principalmente para os recém-nascidos. Ele tem que ser feito de maneira exclusiva até os 6 meses de idade, mas no Brasil isso acontece com menos de 40% das crianças”, contextualiza a nutricionista.

Antes de explicar essa inovação e quais suas implicações em detalhes, é preciso entender o funcionamento da doação.

A doação do leite materno hoje

No Brasil, ela é regulamentada por uma resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Para se tornar uma doadora, a mulher deve produzir mais que o necessário para o seu filho, estar saudável e se dispor a ordenhar e entregar o excedente a um Banco de Leite Humano (BLH).

O próximo passo é entrar em contato com o BLH mais próximo — no site da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) você encontra a lista de telefones e endereços de todos os postos do país. Eles realizam o cadastro e dão orientações sobre o procedimento. Neste link, ensinamos a fazer a coleta e o armazenamento.

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Uma vez que chega ao banco, o leite é avaliado, classificado, pasteurizado e congelado. O líquido tem validade de seis meses e é direcionado às UTIs neonatais conforme a necessidade.

Só que todo o processo demanda muitos cuidados. “Depois de descongelar o leite pasteurizado, ele dura 24 horas. Se a gente, por exemplo, disponibilizar um frasco para uma UTI que só tenha dois bebês em um dia e eles consumirem 50 mililitros, o que sobra é desprezado”, revela Vanessa.

No Brasil, 45% dos recém-nascidos que precisam de leite doado não têm acesso a ele, de acordo com o Ministério da Saúde. O desperdício e o baixo número de doadoras contribuem para esse cenário.

No mais, o material coletado em casa é armazenado em recipientes de vidro — normalmente, são potes vazios de café solúvel ou maionese. No transporte, eles correm risco de quebrar, além de ocuparem um espaço significativo nos hospitais.

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“O produto não pode ser levado para um banco que fique há mais de seis horas de distância da doadora. Se descongela, perde as propriedades e estraga”, complementa a especialista.

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Como o leite vira pó

“Comecei a trabalhar no banco de leite da universidade para observar a rotina. Inicialmente, conversamos com os funcionários para ver qual a demanda. Então, notamos que podíamos ajudar com a versão em pó”, conta a nutricionista.

A equipe recorreu a duas máquinas diferentes: o spray dryer e o liofilizador. “As duas já existem e são comumente utilizadas na preparação de alimentos e medicamentos. Nós as adaptamos com uma metodologia específica para esse líquido”, informa a pesquisadora.

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Na liofilização, o produto congelado é colocado em um equipamento que diminui ainda mais a temperatura, de maneira rápida. Assim, a pressão sobe, o que leva a água a passar do estado sólido para o gasoso — é a chamada sublimação. Daí, sobra somente a “farinha”, formada pelos componentes nutricionais.

Já na chamada secagem por spray drying, o gelo evapora por causa do calor gerado na máquina, não pela pressão. O resultado final é o mesmo e a validade chega a um ano.

“O processo de liofilização leva até 24 horas, enquanto o spray dryer demora de 15 a 30 minutos, dependendo do volume de leite”, acrescenta Vanessa.

Na hora do consumo, basta colocar o leite materno em pó e água morna filtrada em um recipiente. É do mesmo jeito que se faz com a versão comum, vendida nos mercados.

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“Se você precisa dar 100 mililitros para o bebê e tem 10 gramas de pó, é só adicionar 90 mililitros de água”, exemplifica a nutricionista. Segundo os cientistas, todas as propriedades nutricionais são mantidas.

Por que o projeto ajudaria a melhorar o aleitamento materno

Há alguns motivos. Primeiro, o armazenamento nos bancos e nas UTIs neonatais fica mais fácil, o que minimiza desperdícios.

Só que não para por aí. Com as técnicas testadas, a mulher terá a possibilidade de ordenhar o seu leite, transformá-lo em pó sem que seja pasteurizado e dá-lo para seu próprio filho em momentos de necessidade, ou meses depois. No período em que estiver hospitalizado, ele conseguirá beber o que a própria mãe gerou.

Dito de outra maneira, o pequeno recebe o alimento vindo da progenitora, enquanto essa mesma mulher deixa de precisar do leite doado. E, claro, isso reduz a pressão sobre os BLHs.

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A pesquisadora informa ainda que a versão em pó seria uma alternativa às fórmulas infantis para a parte da população feminina que volta a trabalhar e interrompe a amamentação exclusiva antes dos 2 anos de idade.

“Quando você compra uma lata no mercado, ela contém uma quantidade padrão de nutrientes. Já o leite materno sempre é modulado. A composição, a quantidade e a disponibilidade se adaptam às necessidades da criança”, justifica a expert. “Os gastos públicos com tratamentos de doença ao longo da vida vão diminuir. Há um retorno para o país”, finaliza Vanessa.

Ela e Visentainer, que coordenou a pesquisa, receberão a premiação de R$ 200 mil da Fundação Péter Murány. O valor será investido no desenvolvimento do projeto.

Até o momento, no entanto, essa nova estratégia está restrita ao Banco de Leite Humano do hospital da Universidade Estadual de Maringá. Para que a iniciativa seja expandida, barreiras regulatórias terão de ser ultrapassadas.

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