A doença que não dá sintomas, pode até matar e já afeta mais de 1 bilhão de pessoas
Novo estudo projeta que casos podem chegar a 1,8 bilhão até 2050. Entenda a condição e por que ela está no radar dos especialistas
Vivemos uma pandemia de gordura no fígado, um problema de saúde pública que costuma ser silencioso, mas pode tanto evoluir para a falência do órgão como contribuir para diabetes, infarto e AVC.
O novo alerta sobre essa condição cada vez mais prevalente foi dado por um estudo publicado na respeitada revista médica The Lancet: a MASLD, sigla do inglês para doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, já afeta 1,3 bilhão de pessoas no mundo, número que deve saltar para 1,8 bilhão até 2050.
Nos últimos anos, apoiados por uma profusão de evidências científicas, os especialistas têm batido na tecla de que o quadro, que atinge ao menos 16% da população global, não é uma mera gordurinha estacionada no fígado.
Ele costuma andar de braços dados com um processo inflamatório que traz danos para o órgão em si, mas também repercute em outros cantos do corpo. A questão é que isso pode passar anos sem dar sintomas, progredindo para situações mais graves como cirrose e câncer.
“Estou envolvido nesse campo de estudo por mais de 30 anos e devo dizer que a MASLD está se tornando a doença hepática mais prevalente no mundo, impulsionada pela pandemia de obesidade e diabetes tipo 2”, afirma o hepatologista americano Zobair Younossi, presidente do Global NASH Council, que esteve na última Semana de Fígado do Rio de Janeiro, um dos principais congressos da área.
O especialista relata que vivenciamos uma mudança de paradigma quanto ao maior desafio hepático no planeta. “Saímos de uma era dominada pelas hepatites virais para outra marcada pela dominância da MASLD”.
O cenário é ainda mais alarmante para o Brasil e a América Latina. “Não são boas notícias para a região, que concentra a maior prevalência global.” De fato, estima-se que até um terço da população no país possa ter gordura no fígado, condição que pode evoluir para fibrose, cirrose, tumor e está se tornando uma das principais causas de transplante no mundo.
Riscos além do fígado
A questão é que a esteatose hepática não representa apenas um perigo para o órgão-alvo. “A principal causa de morte dos pacientes com essa doença é cardiovascular: infarto, derrame, insuficiência cardíaca”, observa o endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, pesquisador da USP de Ribeirão Preto e coordenador do Endodebate.
Trata-se de uma ameaça insidiosa. Como a gordura no fígado não dá sinais, é comum a pessoa só descobrir em um check-up geral (o que é bom) ou quando já há danos e complicações (o que é péssimo).
“Se o médico espera o paciente ter sintomas, vai chegar tarde. A gordura no fígado é silenciosa, mas suas consequências, não”, enfatiza Couri.
Para lidar com essa “epidemia invisível”, o endocrinologista defende que o rastreamento da esteatose hepática não é mais opcional. “Em um cenário de obesidade e diabetes crescentes, ele deve fazer parte da avaliação clínica de qualquer paciente.”
Younossi concorda e defende medidas preventivas quanto antes: “Esses números continuarão aumentando a menos que façamos algo tanto no nível dos pacientes como em termos de políticas públicas.”
Para o Brasil, a pauta é urgente. “Na América Latina, vemos que é mais frequente uma alteração genética que propicia a MASLD, além de as pessoas estarem expostas a uma abundância de alimentos ultraprocessados e à falta de atividade física”, nota o hepatologista americano.
Em poucas palavras, mudanças de hábitos e realização de exames para apurar a situação do fígado (e existem tanto os de sangue como os de imagem) se tornaram inescapáveis para mitigar a nova pandemia.







