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Cientista mexicana é a primeira a eliminar vírus HPV? Entenda notícia

Técnicas que utilizam luz para tratar lesões na pele e no colo do útero já existiam. No Brasil, procedimento ainda não é utilizado para tratar o câncer cervical

Por Valentina Bressan
Atualizado em 21 mar 2025, 20h23 - Publicado em 21 mar 2025, 20h09
hpv-diagnostico
Teste de DNA-HPV consegue identificar câncer de colo de útero precocemente (Dercílio; Ilustração: Rodrigo Damati/Veja Saúde)
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Desde 2019, circula em portais de notícias a informação de que a cientista mexicana Eva Ramón Gallegos teria sido a primeira a criar uma técnica capaz de eliminar o vírus do papiloma humano — mais conhecido pela sigla HPV.

O resultado parece milagroso, mas a história não é bem assim. Apesar de ser promissor, ainda são necessárias novas pesquisas para considerar o procedimento um tratamento contra o câncer de colo do útero.

Gallegos realmente é pesquisadora no Instituto Politécnico Nacional do México, onde há anos se dedica à pesquisa de tratamentos para cânceres de pele e de colo do útero (também chamado de câncer cervical).

A técnica em questão, a terapia fotodinâmica, se mostra promissora para casos de câncer cervical, a cientista não foi a única a empregá-la para esses fins. Além disso, ela não eliminou o HPV em todos os casos, mas apenas naqueles em que não havia lesões pré-cancerosas associadas.

A infecção por HPV pode levar a lesões do colo do útero, mas isso não acontece com todas as pessoas.

Quais os resultados das pesquisas de Gallegos?

Em 2017, junto de outros cientistas, Gallegos publicou um estudo que investigava a efetividade da terapia fotodinâmica para tratar lesões cervicais causadas pelo HPV.

A pesquisa incluiu trinta mulheres com infecção pelo HPV ou com neoplasias intra-epiteliais cervicais (associadas ou não ao vírus). Os resultados de fato foram promissores, mas não eliminaram 100% do vírus HPV no organismo

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Dos pacientes com HPV mas sem neoplasias (ou seja, lesões no colo do útero), 80% ficaram livres da infecção pelo vírus. Já entre pacientes com neoplasias associadas ao HPV, os resultados foram bem sucedidos em 83% dos casos.

Ainda, testes realizados por Gallegos e equipe demonstraram que a terapia fotodinâmica estimula a resposta imune do organismo e pode combater outras infecções, como as provocadas pela clamídia e pela cândida. A cientista também já desenvolveu técnicas de baixo custo para detecção do HPV, com uso de um anticorpo para detecção do vírus.

Uma análise da cientista, publicada somente em 2023, resultou na eliminação de 100% do HPV – mas não em todos os grupos avaliados.

O vírus foi eliminado, mas somente em pacientes que não apresentavam lesões neoplásicas. As lesões pré-cancerosas foram eliminadas apenas em parte. Após seis meses de aplicação, 64,3% das pacientes com neoplasia e HPV tiveram resultados bem sucedidos. Naquelas que tinham lesões não associadas ao HPV, a taxa foi de 57,2%.

+Leia também: O que é o HPV e o que ele tem a ver com o câncer?

Como funciona a terapia fotodinâmica?

A terapia fotodinâmica parte da aplicação de um tipo de ácido na região das lesões. Depois, um equipamento de luz é acionado. Como o ácido é fotossensível, apenas as partes da pele ou da mucosa que receberam a aplicação dele são afetadas pela luz.

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Em 2015, uma proposta brasileira semelhante levou o Prêmio Mercosul de Ciência e Tecnologia do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações brasileiro. Entre 2012 e 2014, 70 pacientes com lesões no colo do útero em uma fase considerada pré-cancerosa, a NIC1 – que pode regredir espontaneamente ou evoluir para câncer – receberam o tratamento.

Os responsáveis por desenvolver o equipamento e a medicação tópica foram empresas parceiras do Instituto de Física de São Carlos, da Universidade de São Paulo (USP). 

De início, o grupo utilizou a técnica para tratar verrugas causadas pelo HPV que não geram câncer, mas podem ser motivo de incômodo – chamadas de condilomas. O sucesso nessa fase levou a pesquisa adiante. Nesta etapa, fortam tratadas mulheres com lesões pré-cancerosas em estágio inicial, detectado pelo exame Papanicolau. As 70 pacientes foram curadas. 

Em 2023, a terapia fotodinâmica foi incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS) como forma de tratamento para o carcinoma basocelular, um tipo de câncer de pele. Nos estudos mais de 85% dos tumores deste tipo foram eliminados. 

O tratamento serve como opção para pacientes que aguardam por cirurgia ou que optaram por não realizar a intervenção cirúrgica. A novidade é também resultado do trabalho de cientistas da USP, que desenvolveram um aparelho capaz tanto de diagnosticar quanto tratar lesões – é o único no mundo com essa dupla funcionalidade.

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Por enquanto, não é usado para câncer cervical no Brasil.

Como a técnica foca na pele ou na mucosa, ela não deve ser efetiva para casos em que as lesões são mais profundas, mas novas pesquisas devem esclarecer este tópico.

Como tratar o HPV?

Há diversos tipos de papilomavírus humanos, que tem diferentes efeitos no organismo. Apenas alguns causam câncer, e mesmo quando contaminados com este tipo de HPV, não são todos os pacientes que desenvolvem a doença.

O rastreio das lesões é feito pelo exame preventivo, chamado de Papanicolau, que deve ser realizado periodicamente em pessoas com útero a partir dos 25 anos de idade. Outro tipo de exame rastreia a infecção por HPV, chamado de DNA-HPV.

O curso de tratamento varia de acordo com o estágio da doença. Em casos de infecção por HPV ou lesão de baixo grau, como a NIC1, a orientação é apenas monitorá-la, repetindo o exame em seis meses. Lesões de alto grau geram encaminhamento para novos exames, a partir dos quais técnicas como cirurgias e quimioterapia podem ser empregadas.

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A melhor forma de combater o HPV é a prevenção: além do uso de preservativos nas relações sexuais, a principal maneira de evitar o contato com o vírus é a vacinação. Os imunizantes estão disponíveis desde 2014 no SUS. A vacina está disponível tanto para meninas quanto para meninos, dos 9 aos 14 e dos 11 aos 14 anos, respectivamente.

 

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