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O que as emoções têm a ver com o câncer? Estudo bate o martelo

Pesquisa desbanca mito de que estresse e tristeza causam tumores e mostra que hábitos importam mais do que emoções

Por Layla Shasta Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 8 abr 2026, 07h34 | Atualizado em 8 abr 2026, 07h35
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Há tempos se especula se as emoções negativas podem aumentar o risco de câncer  (OsakaWayne Studios/Getty Images)
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  • Talvez você já tenha sido aconselhado a ter cuidado com o estresse e não guardar mágoas devido ao risco de desencadear um câncer no futuro.

    A ideia costuma vir acompanhada de um alerta quase moral sobre não acumular sentimentos negativos. Mas uma das análises mais robustas já realizadas sobre o tema acaba de cravar: fatores psicossociais não estão associados ao aumento do risco da maioria dos tipos de tumor.

    E, quando estão, a relação é indireta. As descobertas foram publicadas no fim do mês passado, em um periódico científico da Sociedade Americana do Câncer (ACS, na sigla em inglês) e envolveram os dados de mais de 421 mil pessoas, acompanhadas por anos em 22 grandes estudos internacionais. No total, mais de 35 mil diagnósticos de neoplasias entraram na conta.

    Os cientistas avaliaram se situações que afetam o emocional teriam relação com cânceres como os de mama, próstata, colorretal e pulmão. Como resultado, não foi notada relação entre os sentimentos e essas doenças.

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    A exceção foi o câncer de pulmão, que mostrou uma leve associação com fatores como solidão e luto. No entanto, a análise indica que essa ligação provavelmente é, na verdade, comportamental, já que momentos de estresse podem vir acompanhados de hábitos de risco, como fumar.

    “Esse tipo de estudo ajuda a evitar culpabilização do paciente, como se ele tivesse adoecido por não controlar as emoções, ou mesmo a atribuição de culpa à família ou ao trabalho. A mensagem principal é: sofrimento emocional merece cuidado, mas não deve ser apontado como a causa da maioria dos cânceres”, reflete Clarissa Baldotto, oncologista clínica e presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica.

    +Leia também: Jovens que tiveram câncer sofrem mais de depressão e ansiedade na vida adulta

    O que foi avaliado

    Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores avaliaram informações do Consórcio de Fatores Psicossociais e Câncer (PSY-CA), uma colaboração internacional criada justamente para investigar se aspectos da vida emocional e social influenciam o surgimento de tumores.

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    Os cientistas, então, cruzaram os registros de casos de câncer com cinco fatores psicossociais: percepção de apoio social (sentir-se apoiado ou não); luto recente; estado civil (estar ou não em um relacionamento); neuroticismo (traço de personalidade em que uma pessoa tem tendência a emoções negativas) e o sofrimento psicológico geral.

    Após a avaliação, os pesquisadores concluíram que, para a maioria dos cânceres, não há nenhuma associação com as emoções.

    Hábitos importam mais do que emoções

    Como visto, os únicos sinais de ligação apareceram no câncer de pulmão. Nos dados, pessoas com menos apoio social, sem relacionamento ou que passaram por uma perda de ente querido recente pareciam ter um risco maior desse tipo de tumor. 

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    No entanto, quando os pesquisadores ajustaram os dados e consideraram também o histórico familiar de saúde e hábitos como o tabagismo e consumo de álcool, não deu mais para culpar simplesmente as emoções.

    A aparente ligação pode ser, portanto, explicada porque momentos de estresse, solidão ou luto costumam vir acompanhados de mudanças no estilo de vida. E aí entram velhos conhecidos desse tipo de câncer, como o cigarro.

    Por exemplo, na pesquisa, o cigarro explicou mais de 90% da aparente relação entre solidão e todos os cânceres que podem surgir por conta do tabagismo.

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    “O sofrimento psicológico pode aumentar a chance de hábitos ruins, pior sono, sedentarismo, maior consumo de álcool ou tabaco e menor procura por cuidado de saúde. A emoção não aparece, portanto, como causa direta da maioria dos tumores, mas pode interferir em comportamentos que, esses sim, alteram o risco”, reforça Clarissa.

    Somente a perda recente de alguém próximo, 12 meses antes do início do estudo, continuou associada ao câncer de pulmão mesmo depois dos ajustes relacionados ao estilo de vida.

    Nesse caso, o aumento de risco chegou a cerca de 56% e a explicação não parece ser o maior consumo de cigarros, por exemplo.

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    Por que isso acontece ainda não está claro. Mas, para os autores, algumas pistas estão na mesa. Segundo eles, como o luto está relacionado a um evento repentino, que pode afetar diversos comportamentos de saúde simultaneamente (desde o sono até a alimentação), pode ser necessário levar em consideração o efeito combinado dessas mudanças.

    O debate científico 

    O tema sempre foi confuso — e este estudo ajuda a explicar por quê. Pesquisas antigas muitas vezes não consideravam fatores como tabagismo, misturavam metodologias diferentes e usavam desenhos menos confiáveis.

    Por exemplo, enquanto uma meta-análise encontrava uma associação entre eventos de vida particularmente marcantes e câncer de mama, outro estudo sugeria que a intensidade do estresse não estava associada a essa doença.

    Por isso, os autores acreditam que pesquisas anteriores que apontavam para alguma relação entre câncer e emoções partiram de ilusões estatísticas.

    “Estresse, luto e sofrimento emocional podem coincidir com o momento do diagnóstico, o que favorece a impressão de causa e efeito. Mas coincidência não é causalidade“, diz Clarissa.

    Por isso, estudos prospectivos como este são importantes. Nesse tipo de trabalho, a coleta de dados é feita em tempo real, depois da definição do protocolo. É diferente de um estudo retrospectivo, que analisa fatos que já aconteceram. Isso garante mais confiabilidade às informações e ajuda a separar o que é percepção e o que é evidência científica.

    Limitações do trabalho

    Vale ressaltar que, mesmo esta sendo uma pesquisa robusta, ela não é perfeita. O próprio artigo ressalta algumas limitações. Primeiro, os fatores psicossociais foram medidos apenas uma vez, e emoções e situações mudam ao longo da vida. Além disso, nem todos os tipos de câncer foram analisados e há fatores não capturados, como desigualdade social mais profunda.

    Clarissa ressalta ainda  que é possível que fatores emocionais tenham algum papel que não foi confirmado.

    Nenhum estudo resolve totalmente uma questão complexa como essa. Os próprios autores destacam que os fatores psicossociais foram medidos em um único momento no tempo, e isso não mede trajetórias emocionais mais longas ou mais intensas”, diz.

    A oncologista também destaca que sempre pode haver fatores biológicos ou comportamentais difíceis de medir que passem despercebidos nas análises, mas ainda crava que não há suporte para afirmar que fatores emocionais aumentem diretamente os riscos

    “As melhores evidências apontam para o impacto do estilo de vida”, diz. Assim, a médica destaca que as evidências trazidos por este e outros estudos ajudam a orientar políticas públicas de prevenção, mostrando o que deve ser prioritário quando o assunto é impedir o desenvolvimento de cânceres.

    “Devemos considerar aspectos como controle do tabaco, regulação do álcool, vacinação, combate à obesidade, promoção de atividade física e rastreamento quando indicado”, orienta.

    +Leia também: Novos estudos confirmam: exercício é remédio poderoso contra o câncer

    “Mas isso não quer dizer que a promoção da saúde mental não seja uma política importante”, pondera.

    Por fim, ainda que o estudo não tenha encontrado evidência consistente de que fatores emocionais, por si só, levem ao câncer, isso não significa que eles não importem.

    Afinal, como mostrado pela pesquisa, as emoções afetam comportamentos de saúde (como fumar, beber, se alimentar mal), bem como influenciam a adesão a tratamentos e a qualidade de vida.

    Portanto, seja como for, o cuidado com a saúde mental continua sendo muito importante. “Afinal, mesmo que não haja uma relação causal direta, o sofrimento emocional afeta qualidade de vida, tratamento e recuperação”, conclui Clarissa.

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