Exposição ao ruído de aviões pode estar associada a problemas no coração
Pessoas que moram nas proximidades de aeroportos, que convivem com altos níveis de barulho, podem apresentar maior risco de alterações cardíacas, sugere estudo

Um dos gatilhos para a perda auditiva, a exposição prolongada a ruídos também pode ter impactos para a saúde do coração. É o que sugere um novo estudo publicado no Journal of the American College of Cardiology (JACC).
Pessoas que moram perto de aeroportos e convivem com a poluição sonora podem apresentar maior risco de desenvolver uma função cardíaca ruim, com aumento da probabilidade de ataques cardíacos, arritmias fatais e derrames.
Liderado por pesquisadores da University College London (UCL), o trabalho analisou dados detalhados de imagens cardíacas de 3,6 mil pessoas que viviam nas proximidades de quatro grandes aeroportos na Inglaterra.
Dentro deste grupo, a equipe comparou a estrutura do coração de indivíduos em áreas de maior e de menor ruído. A investigação revelou que os habitantes das localidades mais barulhentas apresentavam músculos cardíacos mais rígidos e grossos, que se contraíam e expandiam com mais dificuldade e com menor eficácia para bombear sangue pelo corpo.
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O achado foi ainda mais relevante no contexto de moradores que sofriam com a maior poluição sonora à noite, potencialmente devido a fatores como prejuízos ao sono e mais tempo de contato com os incômodos sonoros.
“À noite ocorre uma desaceleração das funções cardiovasculares com redução do número de batimentos cardíacos e da pressão arterial. Esse ‘descanso’ é necessário e fisiológico, sendo assim, qualquer fator externo que modifique essa sequência pode repercutir negativamente nas funções cardiovasculares”, afirma o médico Ricardo Pavanello, membro do conselho administrativo da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), que não esteve envolvido no estudo.
Pavanello explica que a elevação da pressão arterial durante a noite, por exemplo, poderia implicar em maior trabalho cardíaco, com consequências a médio e longo prazos, conforme revelaram as alterações mostradas pelo ecocardiograma realizado no estudo.
Em análises à parte de pessoas não expostas ao ruído de aviões, os especialistas descobriram que esses tipos de anormalidades cardíacas podem resultar em riscos duas a quatro vezes maiores de um evento cardíaco grave, como ataque cardíaco, arritmia com risco de morte ou acidente vascular cerebral (AVC), quando comparados às chances de pessoas sem nenhuma dessas alterações no coração.
“Nosso estudo é observacional, então não podemos dizer com certeza que altos níveis de ruído de aeronaves causaram essas diferenças na estrutura e função do coração. No entanto, nossas descobertas se somam a um crescente corpo de evidências de que esse barulho pode afetar negativamente a saúde cardíaca e nossa saúde em geral”, afirma a cardiologista Gaby Captur, do Instituto de Ciências Cardiovasculares da UCL, autora do estudo, em nota.
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Além de afetar o sono, o ruído do ambiente pode desencadear respostas de estresse e levar a uma superativação do sistema nervoso simpático, causando aumento da pressão arterial, constrição ou dilatação das artérias e digestão mais lenta. Também pode causar a liberação de cortisol, o hormônio do estresse, que pode aumentar o apetite e causar ganho de peso.
Para o estudo, os pesquisadores analisaram dados do UK Biobank de participantes que fizeram ressonância magnética detalhada do coração e que moravam perto dos aeroportos de Heathrow, Gatwick, Birmingham ou Manchester.
Eles usaram estimativas da UK Civil Aviation Authority do nível de ruído de aeronaves para cada 100 metros quadrados dentro dessas áreas. O som mais alto foi definido como mais de 50 decibéis, em média, durante o dia e 45 decibéis durante a noite – considerando o período de 23h às 7h.
“Os resultados da pesquisa podem contribuir para estimular mudanças no planejamento das cidades, evitando que a construção de aeroportos ocorra próximo a aglomerados urbanos. Outra medida que pode minimizar essas consequências ao aparelho cardiovascular é a restrição a operações em horários noturnos”, conclui Pavanello.