Idosos também sofrem em silêncio: como reconhecer ansiedade e depressão
Sinais emocionais em idosos podem ser confundidos com o envelhecimento. Veja como identificar mudanças de comportamento e quando buscar ajuda especializada
Janeiro é o mês dedicado à conscientização sobre a saúde mental. Embora esse tema esteja cada vez mais presente nas discussões públicas, ainda existe um grupo que frequentemente passa despercebido: os idosos.
Isso acontece porque, na terceira idade, ansiedade e depressão nem sempre se manifestam de forma clássica, com tristeza intensa ou choro frequente, como se vê nos pacientes mais jovens. Muitas vezes, os sinais são sutis, diferentes, e acabam sendo confundidos com o próprio envelhecimento.
Familiares e cuidadores precisam estar atentos não apenas ao que o idoso faz, mas também ao que ele diz. Isso inclui frases como:
- “Não tenho mais vontade de nada”
- “Sou um peso para a família”
- “Minha vida já acabou”
- “Não durmo direito, minha cabeça não para”
Essas afirmações podem indicar sofrimento emocional importante, mesmo quando não há menção direta à tristeza. A escuta sem julgamentos, sem minimizar sentimentos e sem respostas prontas é um dos pilares do cuidado emocional.
Como médica geriatra, observo diariamente que esse equívoco pode atrasar diagnósticos, prolongar o sofrimento e comprometer a qualidade de vida dos idosos.
Envelhecer não é sinônimo de sofrimento
Envelhecer não é sinônimo de adoecer emocionalmente!
É importante deixar claro que apatia, isolamento, irritabilidade ou perda de interesse pela vida não são consequências naturais da idade.
Embora o envelhecimento traga mudanças físicas, sociais e até perdas importantes, isso não significa que o sofrimento emocional deva ser considerado “normal”.
Quando esses sinais aparecem de forma persistente, é fundamental acender um alerta e buscar avaliação médica especializada.
Muitas vezes os idosos não verbalizam sentimentos como tristeza, angústia ou ansiedade. Em vez disso, o sofrimento emocional pode se manifestar de outras formas.
Dentro da lista de sinais mais comuns, estão a apatia e a perda de interesse. Elas aparecem como falta de vontade de realizar atividades que antes davam prazer.
Nesses casos, o idoso passa a se isolar, evita principalmente compromissos sociais e demonstra desânimo constante. Muitos familiares atribuem isso ao envelhecimento natural.
Além disso, vale destacar que nem toda depressão se apresenta com tristeza. Em idosos, ela pode vir associada a impaciência, irritabilidade, intolerância ou explosões emocionais sem motivo.
Da mesma forma, a ansiedade pode se manifestar como inquietação, preocupação excessiva ou sensação de tensão contínua.
+Leia também: Saúde mental dos idosos: como reconhecer e ajudar pessoas com problemas
Outro sinal de alerta para quadros emocionais é quando o idoso apresenta múltiplas queixas físicas vagas e sem causa aparente, como dores no corpo, cansaço persistente, sensação de mal-estar, falta de energia e até sintomas gastrointestinais, que podem ser expressões físicas do sofrimento emocional.
Nesses casos, exames médicos não identificam uma causa clara, e é aí que entra considerar uma causa emocional como parte da investigação. Mudanças no padrão alimentar e do sono também merecem atenção.
Outro ponto importante é que depressão e ansiedade podem causar alterações cognitivas, como lapsos de memória, dificuldade de concentração e confusão mental. Sintomas que podem ser confundidos com demência, mas, em muitos casos, são reversíveis quando o transtorno emocional é tratado adequadamente.
+Leia também: Saúde na aposentadoria: médica dá dicas para chegar bem a essa fase
O papel da família e dos cuidadores
Familiares e cuidadores tornam-se peças-chave na identificação precoce do sofrimento emocional, pois são eles que notam sinais sutis de mudanças de comportamento do idoso no convívio diário, muitas vezes não captados com clareza em uma consulta médica. A escuta atenta, o acolhimento e a busca por avaliação profissional fazem toda a diferença.
Vale ressaltar que cuidadores e familiares também podem se sentir sobrecarregados emocionalmente. O desgaste físico e mental do cuidado contínuo pode dificultar a percepção dos sinais de alerta. Por isso, oferecer suporte, orientação e informação a quem cuida é igualmente importante.
Ansiedade e depressão na terceira idade têm tratamento e podem ser controladas com uma abordagem adequada, que inclui acompanhamento médico, psicoterapia, mudanças no estilo de vida e, quando necessário, medicação. Cuidar da saúde mental do idoso é promover autonomia, dignidade e qualidade de vida.
Ou seja, fica o convite à reflexão: olhar para o idoso além das doenças físicas e reconhecer que o bem-estar emocional também é essencial em todas as fases da vida. Cuidar do emocional é transformar o envelhecer em uma fase mais saudável, digna e equilibrada.
*Julianne Pessequillo é Geriatra e clínica geral, especializada em longevidade saudável, membro da Brazil Health
(Este texto foi produzido em uma parceria exclusiva entre VEJA SAÚDE e Brazil Health).
Clique aqui para entrar em nosso canal no WhatsApp








