Mistério do câncer: cientistas desvendam detalhe poderoso da radioterapia
A descoberta abre novas oportunidades para melhorar o tratamento e aumentar as taxas de cura da doença

Ao longo de décadas, cientistas buscam entender por que a radioterapia mata células de um mesmo tumor de maneiras diferentes.
Um novo estudo, publicado na revista Nature Cell Biology, revela pela primeira vez como o reparo do DNA, que normalmente protege células saudáveis, determina a causa da morte das células após a terapia à base de radiação.
A descoberta parece complicada, mas abre novas oportunidades para melhorar o tratamento do câncer e aumentar as taxas de cura.
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Como funciona a radioterapia
A radioterapia é um tratamento contra o câncer bem antigo e conhecido, que utiliza radiação para destruir células do tumor.
No organismo, as células saudáveis crescem e se dividem para formar novas. As versões cancerosas também fazem isso, mas muito mais rápido. A radiação atua promovendo pequenas quebras no DNA celular, que atrapalham justamente esse processo de crescimento e divisão, levando à morte.
Em geral, os resultados são positivos, promovendo o desaparecimento ou controle da doença.
Apesar de ser uma estratégia bem conhecida e amplamente utilizada, permanecem dúvidas sobre como essas células são destruídas. E isso faz diferença na resposta do organismo ao câncer.
Enquanto algumas formas de morte celular não são percebidas pelo sistema de defesa humano, outras induzem uma resposta imunológica mais potente, que elimina outras células doentes.
“Nosso organismo tem um mecanismo que chama-se vigilância imunológica, em que somos capazes de detectar células tumorais e combatê-las”, explica o médico João Viola, chefe da divisão de pesquisa do Instituto Nacional de Câncer (Inca).
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Por dentro da análise
Quando atacadas, as células lançam mão de seus mecanismos de reparo do DNA.
O estudo mostra que quando o DNA danificado pela radioterapia foi reparado por um método chamado recombinação homóloga, as células cancerosas morreram durante seu processo de reprodução.
Porém, a destruição celular durante essa fase pode passar despercebida pelo sistema imunológico, sem a ativação de uma resposta mais ampla e importante para o combate à doença. Por outro lado, as células que lidaram com o dano da radiação por meio de outros métodos de reparo de DNA sobreviveram à divisão celular e morreram depois.
No entanto — e este pode ser o pulo do gato — elas liberaram subprodutos nesse processo que, às vistas do sistema de defesa, se assemelham a uma infecção viral ou bacteriana. Isso faz com que a célula morra de uma maneira que dispara um alerta e induz uma resposta imunológica mais robusta.
Resumidamente, o grupo de pesquisa mostrou que bloquear a recombinação homóloga mudou a maneira como as células cancerosas morriam. Elas passaram a ser destruídas de uma maneira que evocou uma atuação mais poderosa das defesas do organismo.
A expectativa é de que essas descobertas tornem possível a utilização de medicamentos que impedem a recombinação homóloga para que as células tratadas com radioterapia morram de uma maneira que desperte a resposta imune do corpo contra o câncer.
“Isso abre novas oportunidades para aumentar a eficácia da radiação por meio da combinação com outras terapias, particularmente a imunoterapia, para aumentar a taxa de cura do câncer’’, afirmou a radio-oncologista Harriet Gee, da Rede de Radio-Oncologia do Distrito de Saúde Local de Western Sydney, em nota.