O câncer de próstata não precisa ser tratado?
Especialista debate a necessidade de usar ou não as armas da medicina para enfrentar a doença
Por Dr. Miguel Srougi*
Um em cada sete homens será atingido pelo câncer de próstata, mas somente 7% deles perecerão desse mal. Ainda assim, muitas aflições assolam a mente dos indivíduos envolvidos pela doença. Parte delas se deve à imprevisibilidade desses tumores. Entre 20 e 25% dos pacientes apresentam doença indolente, que não coloca a vida em risco. Outros 60% exibem lesões mais agressivas, mas curáveis se eliminadas a tempo. Em número menor, surgem tumores incontroláveis, que podem tolher a existência a despeito das investidas. A primeira questão controversa que emerge é: seria seguro não tratar pacientes com câncer indolente?
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Logo em seguida, vem outra discussão de anos: qual o jeito mais eficiente de enfrentar os casos agressivos, com cirurgia radical ou radioterapia? Estudos antigos sugeriam que as chances de cura com a cirurgia eram maiores, mas ainda faltava um veredicto científico. Eis que pesquisadores da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, publicaram o primeiro trabalho comparando a evolução em longo prazo de pacientes abordados de diferentes formas. Por sorteio, 545 permaneceram sem tratamento, realizando só exames periódicos, 553 foram submetidos à cirurgia e 545, à radioterapia. Após dez anos, o número de óbitos foi muito baixo e igual nos três grupos, gerando certa comoção. Será que a doença não precisaria ser tratada? Teriam milhões de homens sofrido intervenções desnecessárias?
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Como não raro ocorre nesta ciência, as dúvidas logo se dissiparam. Compreendeu-se que as observações feitas foram reais, mas influenciadas por nuances imperceptíveis em um primeiro olhar. Para começar, cerca de 75% dos voluntários apresentavam tumores indolentes. Depois, mais da metade dos participantes não tratados no início foi submetida posteriormente à cirurgia ou à radioterapia porque houve sinais de agravamento. Finalmente, constatou-se que a disseminação da doença no organismo foi de duas a três vezes maior no grupo não tratado, que só sobreviveu porque recebeu medicações hormonais.
Diante disso, concluímos que o médico só exercerá com grandeza seu papel de guardião do corpo e da alma se levar em conta não apenas números emblemáticos mas também os sentimentos e os direitos que as pessoas têm de controlar seu destino. Quero dizer que médico e doente, em um conluio durante a travessia, devem optar por terapêuticas mais contundentes se a doença é agressiva e a sobrevida se mostra crucial ao paciente. E devem se permitir um esquema de vigilância, sem tratamento, quando as evidências indicam um tumor inofensivo e as possíveis complicações da terapia seriam intoleráveis.
*Dr. Miguel Srougi é professor titular de urologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e diretor clínico do Hospital Sírio-Libanês (SP).
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