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Libido, coração, cansaço: a verdade sobre o uso de testosterona em mulheres

Especialistas enfatizam que o hormônio deve ser utilizado apenas em um contexto clínico específico, assim como sua dosagem

Por Lucas Rocha Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 7 Maio 2025, 14h00 | Atualizado em 5 jun 2026, 06h33
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Aplicação de testosterona na menopausa pode ser recomendada para tratar perda de libido (Freepik/Reprodução)
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A utilização de testosterona por homens e mulheres é uma das questões médicas mais polêmicas dos últimos tempos. No contexto feminino, circula na redes sociais um conjunto de desinformações que alimentam mitos e aumentam o uso indevido do hormônio.

As promessas são diversas: recuperação da libido, melhora do desempenho esportivo, perda de gordura e até mesmo efeitos protetivos ao coração.

As evidências científicas disponíveis, no entanto, não comprovam os benefícios. Pelo contrário, estudos destacam efeitos colaterais como o crescimento anormal de pelos, engrossamento da voz, aumento de tamanho do clitóris, surgimento de acne, entre outros problemas ao organismo.

“A mulher produz testosterona em quantidade mínimas. Portanto, é preciso que fique bem claro que não existe nenhuma síndrome ou patologia associada ou descrita com baixa do hormônio entre elas”, destaca o médico endocrinologista Amélio Fernando Godoy Matos, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso).

Antes de mais nada, é preciso esclarecer que há somente uma indicação de terapia de testosterona para mulheres reconhecida e respaldada por diretrizes nacionais e internacionais. O recurso é válido como estratégia para o tratamento do transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH) em mulheres na pós menopausa.

A informação é destaque de uma nota conjunta divulgada recentemente pela SBEM, pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e pelo Departamento de Cardiologia da Mulher da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).

A publicação teve como objetivo combater fake news sobre o tema e alertar para os riscos da prescrição hormonal sem indicação formal.

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+ Leia também: Testosterona: quando dosar e quem realmente precisa dela

Testosterona pode aumentar a libido?

O transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH) é definido como a ausência ou redução significativa da libido ou motivação para relações sexuais.

Um amplo estudo com a participação de 14 mil mulheres entre 40 e 80 anos, de 29 países, apontou que até 43% delas apresentavam queixas relativas ao transtorno. Os achados foram publicados no The Journal of Sexual Medicine.

A condição se manifesta em critérios específicos avaliados pelo médico:

  • desejo espontâneo reduzido ou ausente
  • desejo responsivo reduzido ou ausente diante de estimulação
  • incapacidade de manter o desejo ou interesse durante a atividade sexual por um período de pelo menos seis meses, causando sofrimento
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As instituições médicas destacam que o diagnóstico de TDSH é clínico e de exclusão. Ou seja, antes de considerar a terapia com testosterona o especialista deve avaliar e tratar outras causas associadas à baixa da libido.

E não são poucas, viu? A lista inclui problemas como:

  • baixos níveis de estrogênio
  • depressão e outros transtornos psiquiátricos
  • efeitos colaterais de antidepressivos
  • obesidade e síndrome metabólica
  • disfunções no relacionamento conjugal ou fatores psicossociais

+ Leia também: Desejo em baixa? Confira 6 causas e saiba como aumentar a libido

Mulheres precisam fazer dosagem de testosterona?

Os níveis de testosterona são naturalmente baixos na mulher, embora tenham um papel importante para o organismo. Portanto, não há um limiar laboratorial bem definido que caracterizaria uma deficiência no hormônio.

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Os especialistas são categóricos ao afirmar também que não há uma queda abrupta da testosterona na menopausa. Na realidade, os níveis caem progressivamente a partir da terceira década de vida, com redução discreta e gradual.

Nesse cenário, a dosagem deve ser feita apenas em um contexto específico: a investigação de possível alta desse hormônio, que caracteriza um quadro chamado hiperandrogenismo.

A condição, causada por problemas como síndrome do ovário policístico, tumores ovarianos ou adrenais e síndrome de Cushing, pode levar à manifestação de características masculinas, como excesso de pelos, disfunções menstruais, alterações na voz, queda de cabelo e acne.

“Essas manifestações após a menopausa levantam a suspeita de hiperandrogenismo. Nesse caso, deve-se realizar a dosagem de testosterona e de outros androgênios para determinar a origem desses sinais, que podem vir de um tumor ovariano ou da suprarrenal, por exemplo”, reforça o médico.

As entidades médicas reforçam que não há indicação de dosagem para diagnosticar deficiência androgênica em mulheres saudáveis ou com queixa de baixa libido.

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O teste também não é recomendado para rastrear “níveis baixos” como justificativa para prescrição de testosterona.

Por fim, frisam que a prática como exame de rotina ou sob alegação de “déficit androgênico feminino” não possui respaldo científico e pode induzir o uso inadequado de remédios e prescrição hormonal desnecessária.

Testosterona protege o coração da mulher?

Não há evidências de que terapias com testosterona melhorem marcadores de síndrome metabólica ou a saúde cardíaca de mulheres na menopausa.

Na verdade, todos os estudos clássicos com o hormônio mostram um aumento do risco cardíaco em doses suprafisiológicas (ou seja, acima do considerado normal para aquela pessoa).

Testosterona ajuda contra o cansaço?

Frequentemente, médicos e outros profissionais de saúde oferecem tratamentos à base de testosterona para combater a falta de disposição e dar mais energia para o dia a dia.

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A nota emitida pela SBEM, Febrasgo e SBC reforça que esse uso não é amparado por evidências científicas.

Embora a reposição hormonal na menopausa seja uma estratégia importante e amplamente estudada pela ciência, tratamentos hormonais indevidos podem se aproveitar dessa chancela e oferecer riscos sérios à saúde. Clique aqui para ler mais sobre o assunto.

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