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Cartilha orienta como professores podem falar com adolescentes sobre saúde mental

Documento dá recomendações para que educadores e gestores de escolas deem suporte aos jovens e, quando preciso, encaminhem casos para outras instâncias

Por Larissa Beani Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
28 jan 2026, 09h00 • Atualizado em 28 jan 2026, 09h05
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Cartilha dá orientações sobre como professores podem acolher estudantes com problemas de saúde mental (Freepik/Freepik)
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  • Segundo relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), no Brasil, praticamente um a cada seis jovens de 10 a 19 anos têm algum transtorno mental, como ansiedade, depressão, bipolaridade, autismo (TEA), entre outras condições psiquiátricas.

    É também nessa faixa etária que tem sido registrado o aumento de casos de suicídio e autoagressão. Segundo levantamento da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a cada 10 minutos, um adolescente é atendido em unidades de saúde por causa de lesões feitas contra si mesmo.

    Para identificar quem está em risco, a família e a escola devem estar atentas e abertas ao diálogo.

    Pensando nisso, o Instituto Vita Alere, referência na prevenção do suicídio, está lançando uma cartilha digital para capacitar profissionais da educação a falar sobre saúde mental em sala de aula e abordar estudantes que precisem de ajuda.

    O documento, Saúde Mental de Adolescentes para Educadores, está disponível gratuitamente no site do Mapa da Saúde Mental.

    “A escola é um dos principais espaços de convivência na vida dos adolescentes e pode ser um espaço privilegiado para perceber sinais de sofrimento e promover a saúde mental”, acredita Karen Scavacini, fundadora do instituto e doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP).

    A seguir, confira algumas das principais orientações da cartilha e uma entrevista exclusiva com a psicóloga.

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    Quem está em sofrimento?

    Nem sempre as pessoas verbalizam quando estão tristes e quando precisam de ajuda. Na adolescência, pode ser ainda mais difícil dar nome às aflições e aos sentimentos. Mas, com a devida atenção e empatia, é possível perceber quem está precisando de ajuda psicológica.

    Quem trabalha em escola deve estar atento a esses comportamentos:

    • Mudanças bruscas de humor, irritabilidade ou apatia;
    • Queda repentina no rendimento escolar;
    • Faltas frequentes ou abandono de atividades;
    • Isolamento dos colegas e perda de interesse em relações sociais;
    • Alterações no sono, alimentação ou autocuidado;
    • Comentários sobre desesperança, morte ou desejo de desaparecer.

    Não é da alçada do educador dar um diagnóstico a partir desses sinais, mas o profissional pode abrir caminho para entender o que está acontecendo com o jovem.

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    “A ideia não é rotular ou diagnosticar, mas alertar que algo pode não estar bem e que pode ser a hora de escutar com cuidado e acionar os apoios necessários antes que o sofrimento se intensifique.”

    O que fazer (ou não) para acolher o aluno?

    A ajuda de um inspetor, professor ou coordenador não substitui a atuação de um profissional da saúde, como um psicólogo ou psiquiatra. Ainda assim, os funcionários das escolas têm um papel essencial na criação de um ambiente seguro e saudável para que todos os alunos possam se desenvolver.

    Esse espaço é construído com ações como o combate persistente ao bullying e à toda forma de discriminação (racial, social, sexual ou de gênero), a valorização das visões e dos sentimentos dos estudantes e o estímulo ao diálogo em sala de aula.

    Segundo a cartilha, para acolher um estudante individualmente, o profissional deve seguir essas orientações:

    1. Escolha um momento e espaço tranquilo.
    2. Converse em tom respeitoso, sem julgamento e de forma privada.
    3. Use perguntas abertas para ter mais informações.
    4. Escute mais do que fale.
    5. Evite soluções rápidas ou simplificações dos problemas.
    6. Se preciso, avise a coordenação e registre.
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    O documento também destaca alguns limites da profissão. O professor não deve fazer diagnósticos, não pode guardar segredos quando há uma situação de risco e precisa procurar as instâncias responsáveis na instituição de ensino para dar o devido encaminhamento ao caso.

    Palavra de Especialista

    Abaixo, confira a entrevista com a idealizadora do projeto, Karen Scavacini.

    VEJA SAÚDE: Qual foi a motivação para a criação dessa cartilha? Por que os educadores precisam se atentar para os comportamentos e aflições de seus alunos na adolescência?

    Karen Scavacini: A escola é um dos principais espaços de convivência na vida de adolescentes e pode ser um espaço privilegiado para perceber sinais de sofrimento e promover a saúde mental.

    Escutamos muitos professores que querem ajudar, mas não sabem como agir ou até onde podem ir. Há insegurança sobre limites, linguagens e encaminhamentos.

    A cartilha surge para responder a essa demanda concreta, valorizando o papel do educador, oferecendo critérios claros e caminhos possíveis, e fortalecendo uma atuação ética, segura e propositiva no cuidado cotidiano com adolescentes.

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    Os educadores, no geral, não tem treinamento em sua formação para tratar sobre saúde mental em sala de aula. Como isso pode mudar?

    Isso pode mudar ao reconhecer que saúde mental não é um tema periférico, mas parte do próprio processo educativo.

    Evitar o tema não faz com que o sofrimento desapareça. Pelo contrário, o silêncio tende a aumentar a confusão dos educadores e a fazer com que oportunidades importantes de apoio sejam perdidas.

    Em vez de esperar que o professor atue como especialista, é fundamental investir em formação continuada que ofereça linguagem adequada, critérios para observação de sinais, clareza sobre limites de atuação e protocolos de encaminhamento.

    Quando a escola assume a saúde mental como responsabilidade institucional, integrada ao projeto pedagógico e à gestão, o educador ganha segurança para agir, reduz o risco de omissão ou improviso e fortalece uma cultura de cuidado compartilhado

    A quais sinais os profissionais da educação devem ficar atentos em relação à saúde mental dos jovens?

    Os sinais costumam aparecer no cotidiano e nem sempre vêm em forma de pedidos diretos de ajuda. Mudanças persistentes de humor, irritabilidade ou apatia, isolamento progressivo, queda repentina no rendimento, faltas frequentes, alterações no sono, na alimentação ou no cuidado consigo, além de falas de desesperança ou desvalorização da própria vida, merecem atenção.

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    A ideia não é rotular ou diagnosticar, mas alertar que algo pode não estar bem e que pode ser a hora de escutar com cuidado e acionar os apoios necessários antes que o sofrimento se intensifique.

    Não podemos agir somente quando casos graves ou tragédias acontecem.

    A partir do momento que o professor identifica uma situação de risco, quais redes ele pode acionar para ajudar o aluno?

    O primeiro passo é acionar a própria escola, envolvendo coordenação pedagógica, orientação educacional e gestão, para que a situação não fique concentrada em uma única pessoa.

    Em seguida, é importante dialogar com a família e articular com a rede pública de saúde, como UBS e CAPSi, além da assistência social.

    Ferramentas como o Mapa da Saúde Mental ajudam a localizar serviços públicos, gratuitos ou de baixo custo em todo o país, facilitando encaminhamentos mais ágeis e adequados.

    Em situações de violação de direitos ou risco grave, o Conselho Tutelar deve ser acionado. O cuidado é mais efetivo quando essas redes atuam de forma integrada e contínua

    Como vocês pontuam no documento, o ambiente digital também pode ser prejudicial aos alunos. É necessário implementar aulas de educação midiática nas escolas?

    Sim. O ambiente digital é parte estruturante da vida dos adolescentes, e ignorá-lo não diminui seus riscos.

    A educação midiática funciona como estratégia de proteção, não de controle. Ela ajuda os estudantes a entender como as plataformas operam, a reconhecer violências online, a cuidar da privacidade e a refletir sobre os impactos das telas no humor, no sono e na autoestima.

    Por isso, no Vita Alere, temos cartilhas e materiais específicos sobre uso de telas e saúde mental, bem como um centro de inovação e pesquisa dedicado à interface entre saúde mental, tecnologia e suicidologia, que produz evidências, orientações práticas e conteúdos acessíveis para apoiar escolas nessa implementação.

    Você considera que, hoje, as redes sociais tem ferramentas suficientes para combater o cyberbullying e outros problemas?

    Houve avanços, mas ainda há espaços para melhorias diante da complexidade dessas violências. Mecanismos de denúncia e moderação são necessários, porém não substituem políticas públicas consistentes e acesso a locais de atendimento especializados.

    É fundamental fortalecer serviços como UBS [Unidades Básicas de Saúde], CAPSi [Centros de Atenção Psicossocial Infanto-Juvenil], assistência social, além de iniciativas como o CVV [Centro de Valorização da Vida] e organizações especializadas em violência digital.

    A proteção efetiva exige articulação entre plataformas, políticas públicas adequadas, educação digital nas escolas e uma rede de cuidado, não limitada à família, capaz de acolher e acompanhar os adolescentes para além do ambiente online.

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