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“Os vícios são um sintoma de uma sociedade em crise”, diz autoridade no tema

Um dos maiores especialistas em dependência, o psiquiatra e best-seller Gabor Maté elucida por que tantas pessoas estão reféns de vícios hoje

Por Diogo Sponchiato
Atualizado em 27 mar 2025, 09h40 - Publicado em 27 mar 2025, 09h40
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Gabor Maté, autor do recém-lançado "Vícios: O Reino dos Fantasmas Famintos" (Sextante) (Ilustração: Felipe Del Rio/Veja Saúde)
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Celular, jogos de azar, compulsão por compras e pornografia, velhas e novas drogas… A impressão é que nunca antes na história a humanidade esteve tão à mercê da dependência patológica de substâncias e comportamentos. Um fenômeno que se atualiza de tempos em tempos e agora emerge com a popularização preocupante de aplicativos de apostas, cujas vítimas podem ficar com os nervos à flor da pele e sem um centavo no bolso.

Contudo, os vícios são sintomas de uma doença bem maior — e que atinge toda a sociedade. Esse é o diagnóstico do psiquiatra húngaro radicado no Canadá Gabor Maté, um dos maiores especialistas no tema.

Ele acaba de lançar no Brasil seu novo livro, Vício: O Reino dos Fantasmas Famintos (Sextante – Clique para comprar), em que alia sua experiência clínica com dependentes químicos aos últimos achados da neurociência sobre o problema e traça reflexões e um programa para que as pessoas possam se libertar dessas armadilhas mentais. Confira a entrevista:

VEJA SAÚDE: Antes de tudo, do que estamos falando quando falamos em vícios?

Gabor Maté: Um vício é um comportamento no qual a pessoa encontra prazer ou alívio temporário, de modo que espera por ele mais uma vez. Só que isso passa a ter consequências negativas, e o indivíduo não consegue mais abrir mão, mesmo com os danos sofridos.

Nicotina, cafeína, cocaína, metanfetamina… Essas substâncias podem gerar dependência, mas as pessoas também podem se viciar em jogos de azar, comida, pornografia, esportes radicais e, acredite, até trabalho.

Todos esses comportamentos, do uso de cocaína às apostas, envolvem os mesmos circuitos do cérebro e têm o potencial de prejudicar o sujeito em si, sua família e os outros ao seu redor.

O senhor acredita que a humanidade está mais exposta e suscetível aos vícios hoje?

Em relação às fontes de vício, eu diria que sim. As pessoas buscam fugas temporárias, algo que lhes dê emoção e a sensação de estarem vivas. Se você perguntar a pessoas com dependência por que elas fazem uso de alguma substância ou têm determinado comportamento, elas lhe dirão exatamente a mesma coisa.

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O vício não começa como uma doença, mas como uma tentativa de atender a uma necessidade humana. Por que as pessoas querem escapar da realidade e se sentir mais vivas? Porque sentem que algo está faltando. Os vícios são, assim, uma fuga para uma dor existencial. Então a primeira pergunta que proponho não é o porquê do vício, mas o porquê dessa dor.

E, para termos uma resposta, é preciso olhar para a vida dessas pessoas, para seus traumas. E o fato é que muitas pessoas estão traumatizadas hoje. Veja o caso do Brasil: pobreza, violência, desigualdade social… Nessas situações, os cidadãos vivem sob estresse e querem fugir de uma realidade desagradável.

A dependência das telas é a grande preocupação do momento?

Bem, a mídia digital é muito viciante. As pessoas ficam horas no celular ou no computador como se fosse uma fuga, como se estivessem tirando férias. Querem encontrar algum tipo de excitação ou romper com um desconforto emocional.

E sabemos que isso começa cedo, já atinge as crianças e pode afetar o desenvolvimento do cérebro delas. O ponto é que os mais jovens têm menos autocontrole, e assim estão mais vulneráveis. E as máquinas, como o celular em nossas mãos, são projetadas para ser viciantes.

A vida digital não apenas contribui para o vício. Ela já é um vício em si.

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No Brasil, nos últimos meses assistimos à popularização das bets, os jogos de apostas esportivas virtuais. E já se fala em pessoas perdendo a cabeça e todo o dinheiro com isso…

Essa é uma preocupação em todos os lugares, mas, se você mora num país com tradição em um esporte e tantas celebridades esportivas envolvidas, os riscos aumentam porque, para muitas pessoas, especialmente as mais jovens, não há uma noção de si mesmo fora desse universo.

Desde cedo, o ser humano tem algumas necessidades a serem preenchidas para um desenvolvimento saudável. Na ausência delas, tende a se identificar com fatores e prazeres externos.

Ganhar ou perder um jogo de futebol é realmente importante para a vida de alguém? Não faz diferença alguma, só que as pessoas substituem suas necessidades próprias por isso. Criam uma espécie de fantasia para suas vidas reais, difíceis e pouco gratificantes.

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Até que ponto a regulamentação desses setores pelos governos representa uma solução diante dos riscos pessoais e sociais?

Acredito que há um limite para o que um governo pode fazer a respeito. Pode haver regulação, mas não se pode revogar a lei da oferta e da procura. Veja o caso da “guerra às drogas”, um programa que tem sido um desperdício de esforços há décadas.

O maior resultado dessa estratégia é que mais e mais pessoas estão usando drogas vindas de cartéis ilegais. As pessoas continuam morrendo de overdose. A verdadeira questão aqui é o que impulsiona o vício, e isso tem a ver com a vida das pessoas.

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Se queremos prevenir qualquer tipo de vício, precisamos olhar para as condições de vida das crianças. É na infância que os circuitos cerebrais se desenvolvem, e esse processo não será o mesmo se as condições forem difíceis e dramáticas para elas. É como se o cérebro não se desenvolvesse para nenhum outro comando senão aquele que visa acalmar os ânimos.

A maior questão não é o que um governo pode fazer e se vai determinar se isso ou aquilo será ilegal ou não. Mas repensar em que tipo de sociedade vivemos, como as crianças têm sido criadas e até que ponto suas necessidades genuínas têm sido satisfeitas.

Há algum tipo de dependência química ou comportamento viciante mais alarmante hoje?

Bem, do ponto de vista dos riscos à sobrevivência humana, substâncias como fentanil [anestésico utilizado para fins recreativos que se tornou um problema de saúde pública nos Estados Unidos] são extremamente nocivas porque uma pequena diferença na dose ingerida é o que separa alguém chapado de uma vida perdida.

E, pelo menos na América do Norte, vemos muitas mortes devido ao uso.

Mas, levando à risca minha definição de vício, não posso escolher uma substância ou um único comportamento mais preocupante. Hoje o fenômeno das dependências é tão difundido na sociedade que precisamos questionar primeiro o que está acontecendo com a própria sociedade.

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Os vícios são apenas um sintoma de uma sociedade em crise. De uma sociedade que não sabe como criar seus filhos, que estressa, traumatiza e isola as pessoas… E, por causa disso, busca substitutos emocionais para suas dores. Vivemos hoje em meio a uma cultura tóxica, e o vício é uma de suas manifestações.

“As máquinas, como o celular em nossas mãos, são projetadas para ser viciantes. A vida digital não apenas contribui para o vício. Ela já é um vício em si”

O que não pode ser perdido de vista no tratamento de um transtorno de dependência? Imagino que a abordagem seja sempre individualizada, mas há princípios gerais e inescapáveis?

O plano terapêutico tem de ser individualizado porque as circunstâncias de vida das pessoas são diferentes.

Uma pessoa que mora na rua, como os viciados em droga com HIV ou hepatite C com quem trabalhei em Vancouver [no Canadá], tem uma realidade muito diferente da de um homem rico e viciado em jogos de azar. Mas os princípios por trás do tratamento não mudam.

Não devemos julgar, punir ou culpar essas pessoas. A culpa não é delas. Não é uma escolha que fizeram. Ninguém escolhe ser um viciado. O indivíduo é levado ao vício pelo sofrimento emocional, e ele pode ocorrer em qualquer nível social, não há distinções de classe.

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+Leia também: A anatomia dos vícios: por que eles surgem e como domá-los

O problema é democrático…

Sim, afeta os mais pobres e oprimidos, mas também os privilegiados. E isso remete, de novo, ao meu mantra: não se trata de questionar o vício em si, mas a dor da qual as pessoas tentam escapar.

Então, qualquer tratamento de dependência tem que focar não apenas na interrupção do comportamento prejudicial, mas se pautar pela cura dos traumas que impulsionam a dependência.

Não importa se a pessoa fuma, joga, bebe ou consome pornografia. É preciso olhar para a ferida subjacente ao vício.

No livro, o senhor comenta a conexão dos vícios com outros transtornos mentais. Pode dar um exemplo?

Muitas pessoas viciadas em jogos de aposta têm TDAH [transtorno de déficit de atenção e hiperatividade] e o que a gente observa é que, quando elas estão jogando, ficam totalmente focadas.

O jogo eleva os níveis de dopamina no seu banco central cerebral, o que lhes dá prazer e propósito naquele momento presente. Veja, esses indivíduos não estão atrás do dinheiro. Por que um jogador que ganha 1 milhão de dólares no sábado à noite volta ao cassino no domingo de manhã? Ele precisa daquela emoção propiciada pela dose de dopamina.

E esse padrão se repete com os viciados em cocaína, pornografia… Não por acaso, pessoas com TDAH são mais propensas a fumar, beber e ter comportamentos compulsivos.

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O senhor bate na tecla de que precisamos cuidar melhor das crianças hoje para termos adultos mais saudáveis mentalmente amanhã. Até que ponto uma educação adequada pode nos ajudar a evitar os vícios e outros fantasmas?

Pois é, vemos tantos problemas com as crianças e os jovens hoje. Suicídio, automutilação, bullying, violência, vício em mídias digitais

Falamos muito que as crianças não respeitam os adultos, mas é preciso buscar entender por que elas preferem estar só entre elas ou apenas no ambiente da internet a conviver com o grupo familiar. As crianças perderam um relacionamento saudável com os adultos. É isso que precisa ser restaurado, no Brasil e em outros lugares, para evitar o surgimento dos sintomas dessa crise, como os vícios.

É por isso que escrevo meus livros. Eu e minha esposa também passamos por essas experiências. Entendo esses pais que lutam por algo, que amam seus filhos, mas se veem em meio a conflitos e tensões em sua casa.

Só que todo esse estresse afeta o desenvolvimento e a personalidade infantil, bem como sua vulnerabilidade às fugas. Então lidamos com um problema da sociedade em si. Os vícios são apenas parte do problema, não o quadro todo.

Em seu livro recém-lançado, o senhor também fala que a espiritualidade pode ter um papel na vitória sobre o vício. Seria uma ferramenta a mais no arsenal terapêutico?

Ela é realmente impactante para o tratamento. Mas tem que ser uma espiritualidade real. E não algo usado para explorar as pessoas.

No Brasil, me vem à cabeça o caso de João de Deus, um homem que abusou sexualmente de suas clientes. Sabe por que ele fez isso? Primeiro porque era uma pessoa doente, mas também porque tinha poder. E isso também aconteceu com padres católicos na América do Norte e em países europeus.

Então, respondendo à sua pergunta, a espiritualidade é bem-vinda no contexto certo. E é necessário ter muito cuidado em como ela pode ser explorada. Porque, no fundo, trata-se de um aspecto importante de quem somos como seres humanos e permite às pessoas se conectar com algo maior.

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