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Peptídeos em cosméticos: como funcionam e por que ainda oferecem riscos

Cientistas usam IA para mapear peptídeos que podem causar alergia e ajudar a criar cosméticos mais seguros

Por André Silva Pimentel e Marina Geisiely Damaso Godinho Alves, cientistas* 11 jul 2026, 09h30 | Atualizado em 11 jul 2026, 09h32
Close-up de uma mulher de meia-idade com toalha branca na cabeça, aplicando creme facial branco nas têmporas e bochechas, com expressão suave e sorridente
Peptídeos estão presente em cremes e outros produtos antienvelhecimento. (Magnific/Magnific)
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Nos últimos anos, tem surgido um boom de novos produtos cosméticos que prometem revolucionar os resultados em rejuvenescimento da pele com o uso de peptídeos. As propagandas afirmam que eles são mais eficientes e seguros até para quem tem a pele sensível. Mas será que são mesmo?

A resposta não é tão simples. De fato, têm o potencial de atuar mais profundamente nas células, mas a sensibilidade varia entre as pessoas e para diferentes tipos de peptídeos.

No intuito de garantir essa segurança, nós do Laboratório de Sistemas Complexos do Departamento de Química da PUC-Rio publicamos, recentemente, um artigo no periódico American Chemical Society sobre o assunto.

Utilizamos a Inteligência Artificial Explicável como método alternativo para determinar quais peptídeos são mais seguros contra alergias, para serem usados no desenvolvimento de novos produtos cosméticos.

A pesquisa contou com financiamento da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).

Mas afinal, o que são peptídeos e por que são tão promissores em cosméticos?

A palavra peptídeo está em alta no mundo da beleza, principalmente quando falamos em rejuvenescimento facial.

Os peptídeos são pequenas partes de uma proteína. É como se fossem os tijolos de uma casa e a proteína fosse a casa já pronta. Essas pequenas sequências são capazes de conversar diretamente com as nossas células.

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Alguns peptídeos tendem a causar mais alergia do que outros. No tratamento do rejuvenescimento facial tradicional, usa-se muito retinol e ácidos, que têm significativamente mais chances de gerar reações alérgicas.

O uso de peptídeos não alérgenos em formulações cosméticas entra como uma alternativa de tratamento de alta performance.

Os não alérgenos ajudam a ter uma comunicação saudável com o nosso organismo, de tal forma, que o nosso sistema imunológico não se sinta ameaçado e não gere uma reação inflamatória.

Isso evita o aparecimento de todos, ou pelo menos, da maioria dos sintomas alérgicos que estamos acostumados a ver, como a coceira, vermelhidão e a ardência.

Os peptídeos entram como mensageiros que vão se comunicar com as células e ajudar a estimular a produção de colágeno, elastina e outras substâncias necessárias para o bom funcionamento do nosso corpo.

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+Leia também: Peptídeos: o que são e por que estão em alta no skincare

Colágeno e elastina

O colágeno é a proteína que ajuda a trazer firmeza à pele. Já a produção de elastina traz elasticidade.

Ao longo dos anos, nossa pele tende a ter um efeito de “derretimento”. Imagine que o cimento que une os tijolos é o colágeno que não deixa a parede cair. Quando somos jovens, esse cimento está fresco e tem uma equipe de trabalhadores atenta e eficaz para manter sempre firme a estrutura.

Com o tempo, devido à presença de fatores como a exposição solar excessiva e sem proteção, estilo de vida, alimentação e poluição associados à genética fazem com que a nossa “equipe de trabalhadores” fique mais lenta e menos eficaz.

Então, começam a surgir as “rachaduras” (rugas), a flacidez e outros sinais de envelhecimento.

Para entender o papel da elastina na pele jovem ou de um idoso, pense em um colchão. Quando é recém-fabricado, os materiais internos do colchão são firmes e elásticos. Ao deitarmos, ele se adapta ao peso do corpo, mas assim que nos levantamos retorna rapidamente ao formato original.

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Com o passar dos anos, porém, esses materiais se desgastam, perdem elasticidade e deixam de recuperar completamente sua forma. O colchão passa a apresentar afundamentos permanentes, tornando-se menos firme e mais deformado.

Na pele ocorre um processo semelhante. A elastina funciona como esses “materiais” no tecido cutâneo. Enquanto estão íntegros, permite que a pele estique e volte ao normal. Com o envelhecimento, a elastina se degrada e se torna desorganizada.

Como resultado, a pele perde sua capacidade de recuperação, tornando-se mais flácida e propensa ao surgimento de rugas. Assim como um colchão envelhecido perde sua capacidade de sustentar o corpo adequadamente.

+Leia também: Peptídeos injetáveis: veja o novo procedimento de beleza que artistas internacionais têm feito

Inteligência Artificial Explicável

Até recentemente, para saber se um peptídeo era alérgeno ou não utilizava-se testes em animais, mas atualmente a Lei 15.183/2025, de 30 de julho de 2025, proíbe o uso deles em testes de cosméticos, perfume e produtos de higiene pessoal e seus ingredientes em todo o território nacional.

Essa lei é de grande importância para que tenhamos processos mais éticos e com a imposição de padrões rígidos para evitar abusos e garantir o bem-estar dos animais de laboratório.

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Diante dessa restrição, precisamos de alternativas e a Inteligência Artificial (IA) Explicável pode ser um caminho.

Diferente da IA tradicional, a IA Explicável permite interpretar o que tem dentro da “caixa preta” para ter mais transparência na explicação dos resultados de alergenicidade dos peptídeos.

Além de classificar esses peptídeos de acordo com uma certa probabilidade de causar alergias, conseguimos identificar as sequências de forma específica usando interpretadores de última geração.

Os resultados são promissores. Ao decifrar os peptídeos alérgenos, conseguimos ajudar na criação de formulações cosméticas mais seguras. Com isso, evitamos a geração de processos inflamatórios e alérgicos. Isso é de grande importância, principalmente para pessoas com pele sensível.

Enquanto os ácidos geram uma descamação para “forçar” uma renovação celular, os peptídeos não alérgenos entregam mensagens químicas sem gerar respostas alérgicas e de forma mais respeitosa para a célula.

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Esses peptídeos geralmente são encontrados em forma de séruns, máscaras e cremes. E podem ser usados em peles com rosácea, área dos olhos e em peles ultrassensíveis, com acompanhamento profissional.

A aplicação dos nossos resultados pode ir além dos cosméticos. No futuro, os resultados dessa ferramenta também poderão ser úteis para evitar alergias, por exemplo, alimentares. Também poderá ter aplicação na imunoterapia para dessensibilizar pessoas alérgicas, em vacinas e, consequentemente, evitar complicações.

O uso da Inteligência Artificial Explicável para decifrar os peptídeos alérgenos, mostra que a tecnologia por traz da beleza, evoluiu, sendo cada vez mais inteligente, respeitosa e ética. E além de tudo é inclusiva para aqueles de peles sensíveis.

O futuro da beleza deve incluir bons hábitos associados a produtos inteligentes e eficazes. Um caminho seguro para o rejuvenescimento saudável.

*Este artigo foi originalmente publicado em The Conversation Brasil. André Silva Pimentel é cientista da FAPERJ e professor associado do Departamento de Química do Centro Técnico Científico, PUC-Rio. Marina Geisiely Damaso Godinho Alves é mestranda n PUC-Rio.

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