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A mulher de 100 anos que ajudou a criar o teste do pezinho no Brasil

"Teste do pezinho" faz 50 anos: passado do exame envolve a luta de Jô Clemente por direitos e futuro encontra desafios para ampliação do diagnóstico

Por Daniela Mendes, superintendente-geral do Instituto Jô Clemente (IJC)* 18 jun 2026, 14h00
Pé amarelo com círculos brancos pulsantes no calcanhar, indicando dor, sobre fundo lilás com formas roxas escuras
Teste do pezinho revolucionou diagnósticos no Brasil. (Ilustração: Ana Cossermelli/Veja Saúde)
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Em junho de 2026, dona Jô Clemente, pioneira na luta pelos direitos das pessoas com deficiência no Brasil, completa 100 anos de vida.

Ao longo de sua trajetória, destacou-se pela capacidade de mobilizar a sociedade em torno da inclusão, criando iniciativas de arrecadação e engajamento social em prol das pessoas com deficiência intelectual.

Fundadora do Instituto Jô Clemente (IJC), que celebra 65 anos, ela e seu marido, o médico Antonio Clemente, ajudaram a construir uma das mais relevantes iniciativas de saúde pública do país: o teste do pezinho, que completa 50 anos.

Em 1976, a pedido do doutor Clemente, o médico Benjamin Schmidt trouxe ao país o primeiro exame de triagem neonatal biológica.

Naquela época, doenças genéticas e metabólicas raras, como aquelas detectadas pelo teste do pezinho, só eram identificadas após o surgimento de sintomas e sequelas, muitas vezes em estágio avançado.

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Movidos pela defesa da vida, da ciência e da inclusão, os líderes do IJC transformaram o exame, hoje oferecido gratuitamente pelo SUS, em uma referência no diagnóstico precoce, impactando milhares de famílias e moldando uma cultura de prevenção que segue presente até hoje.

Realizado preferencialmente após 48 horas do nascimento até o 5º dia de vida do bebê, o teste do pezinho, assim chamado porque a coleta da amostra de sangue é feita no calcanhar do bebê, permite identificar condições raras, genéticas, metabólicas, imunológicas e infecciosas capazes de afetar o desenvolvimento e o bem-estar da criança.

Ao longo de cinco décadas, o exame se consolidou como ferramenta de uma política pública, e o IJC, credenciado como Serviço de Referência em Triagem Neonatal pelo Ministério da Saúde, já testou cerca de 19 milhões de brasileiros no período.

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O exame evoluiu. Hoje há o teste do pezinho básico, que é oferecido pelo SUS e detecta sete doenças, e o ampliado, que cobre mais de 50.

Prevista em lei desde 2021, a incorporação da triagem ampliada representa um avanço importante e hoje é ofertada em iniciativas públicas isoladas, como na cidade de São Paulo, no estado de Minas Gerais e no Distrito Federal.

Mas a implementação em âmbito nacional pouco progrediu, fazendo com que o diagnóstico precoce não chegue a todos.

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Doenças como a atrofia muscular espinhal, incluídas nas etapas mais avançadas da ampliação do exame, ainda não são rastreadas de forma uniforme no país, por exemplo.

A ausência de um calendário nacional definitivo para a implementação preocupa especialistas e famílias que aguardam a ampliação efetiva do exame no âmbito do SUS.

O desafio, hoje, é transpor a evolução científica a um acesso real e equitativo.

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Ao completar 50 anos, o teste do pezinho reforça seu papel como um Programa de Triagem Neonatal em que o tempo faz toda a diferença: quanto mais cedo o diagnóstico, mais possibilidades de cuidado e tratamento.

Esse é o legado visionário de dona Jô e do doutor Antonio Clemente: transformar ciência em qualidade de vida de forma democrática.

*Daniela Mendes é superintendente-geral do Instituto Jô Clemente (IJC), referência nacional em triagem neonatal biológica

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