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O Everest não muda ninguém — o que muda é a terapia

Montanhista usa a própria experiência para mostrar que a transformação pessoal vem do trabalho interno e da terapia, não de grandes feitos

Por Gustavo Ziller, escritor e montanhista* 28 mar 2026, 05h00
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A montanha ensina muito, mas não cura  (Ilustração: Ana Medina/Veja Saúde)
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  • Desde que voltei do Monte Everest, em maio de 2021, uma pergunta se repete, com insistência, em palestras, entrevistas, cafés rápidos com desconhecidos ou conversas longas com amigos: “Você voltou transformado? Tornou-se uma pessoa melhor depois de subir a montanha mais alta do mundo?”

    Eu entendo a pergunta. A ideia de que um grande feito produz automaticamente uma grande mudança é sedutora. É quase cinematográfica. A gente gosta de acreditar que existe um lugar onde, ao chegar, algo dentro de nós se reorganiza. Um ponto final para as dúvidas. Um upgrade espiritual. Uma iluminação silenciosa. Um antes e depois definitivo. Mas não é bem assim.

    E a minha resposta para essa questão existencial, quase sempre, é a mesma: subir montanha não muda ninguém.

    Subir montanha não transforma ninguém em uma pessoa melhor. Não deixa ninguém iluminado, imbatível, sem erro, sem sombra. Não apaga defeitos, não cura traumas, não resolve conflitos, não melhora automaticamente a maneira como alguém ama, trabalha ou se relaciona.

    Montanha não fabrica caráter. Montanha não dá ética. Montanha não produz maturidade emocional. E, definitivamente, montanha não conserta ninguém. O que a montanha faz — e isso, sim, ela faz muito bem — é oferecer perspectiva.

    Quando você passa dias exposto ao frio, ao silêncio, à altitude e ao risco, começa a perceber com mais nitidez como atua no dia a dia. Não porque o Everest te tornou alguém superior, mas porque ele te colocou em uma condição em que não existe distração suficiente para fugir do que precisa ser feito.

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    A montanha escancara o real: sua ansiedade, seu orgulho, sua pressa, sua vaidade, sua necessidade de controle, suas carências, seus medos e, também, sua capacidade de seguir mesmo quando não há glamour algum envolvido. Na montanha, as máscaras caem porque não há energia sobrando para sustentá-las.

    O cume, aliás, é apenas um instante. Um pico de dopamina e alívio. Mas a vida real continua acontecendo no retorno. No aeroporto. No trânsito. Na rotina. Nos mesmos dilemas. No mesmo corpo. Na mesma mente, que, se não for cuidada, volta a repetir os mesmos padrões.

    E eu falo isso com a autoridade de quem viveu, anos antes, uma queda silenciosa. Antes do Everest, antes das expedições e das medalhas simbólicas que a vida gosta de entregar a quem persiste, eu vivi um burnout avassalador que me obrigou a encarar algo que nenhuma conquista externa conseguiria disfarçar: eu precisava mudar. Não era uma questão de motivação. Era uma questão de saúde.

    O problema do burnout não é apenas o volume de trabalho. É o excesso de vida sem presença. É a sensação de estar em movimento constante, mas sem o menor sentido. É acordar com o corpo cansado e a mente anestesiada. É sorrir por educação e colapsar por dentro. É viver no automático. É perder a capacidade de sentir prazer no que antes fazia sentido. É se afastar, pouco a pouco, de quem você ama. E, o mais triste, de quem você é.

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    A montanha, quando chegou à minha vida, virou uma linguagem para expressar tudo isso. Mas ela não foi a cura. A cura, ou pelo menos o caminho mais honesto para parte dela, é terapia.

    Terapia é um lugar sem glamour. Não tem foto bonita do topo da montanha. Não tem trilha sonora. Terapia é repetição. É incômodo e humildade. É olhar para a própria história sem maquiagem. É reconhecer mecanismos de defesa, padrões de comportamento e crenças que nos conduzem sem que a gente perceba. É descobrir que muitas das nossas reações não são parte da personalidade, mas feridas antigas tentando se proteger.

    E o mais difícil: terapia exige execução diária e verdade. Cedo ou tarde, em algum momento da vida, eu realmente acredito que existe uma recomendação simples, objetiva e quase incontestável, que serve para qualquer pessoa: faça terapia. Não existe contraindicação.

    Terapia não é luxo. Não é moda. É uma ferramenta de saúde. E exige paciência, porque mudar é um processo lento, feito de pequenos deslocamentos internos, e não de frases prontas. E aqui eu preciso ser direto: o que muda alguém não é o Everest. O que muda alguém são conversas francas, responsabilidade emocional e prática constante.

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    Todo o resto pode virar show. Pode virar frase bonita de rede social. Pode virar dica vazia de autoafirmação de grupos subidores de montanha. Pode virar palestra motivacional com roteiro pronto. Pode virar a estética perigosa dos falsos terapeutas e dos coaches de Instagram que vendem cura em cinco passos e prometem uma vida “blindada”, como se sofrimento fosse falha de caráter.

    Tudo isso é entretenimento emocional. Transformação é quando você aprende a reconhecer seus gatilhos. Quando você para de terceirizar a culpa. Quando você assume seus limites. Quando você aceita pedir ajuda. Quando você aprende a respirar antes de reagir. Quando você entende que saúde mental não é ausência de dor, mas a capacidade de atravessar a dor sem se destruir. E isso não acontece de uma vez. Acontece como treino. Como um processo de aclimatação.

    Nos últimos anos, tenho tentado transformar essa visão em prática coletiva. No Instituto Serra do Curral, em Minas Gerais, a montanha deixa de ser metáfora e vira território: um lugar real de educação ambiental, pertencimento, esporte e reconstrução de vínculo com a natureza e com a cidade.

    Porque saúde mental também é comunidade. Também é ar livre. Também é sensação de futuro. Talvez essa seja a maior lição que o Everest me deu: não a ideia de que eu venci alguma coisa, mas a certeza de que a vida é uma expedição longa demais para ser vivida sem GPS interno.

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    Subir montanha não muda ninguém. Mas pode, sim, te lembrar que existe um mundo inteiro dentro de você. E é desse lugar, mais humano do que heroico, que também nasceu meu novo livro. Não como uma história sobre conquistar o Everest, mas como uma tentativa de traduzir o que acontece quando a gente percebe que o verdadeiro cume é aprender a viver com mais lucidez, presença e coragem.

    Porque, no fim, a montanha mais difícil quase sempre é a que carregamos dentro da gente.

    *Gustavo Ziller, é escritor e montanhista, autor do recém-lançado Escalando Sonhos: O Que Senti no Topo do Mundo (Vestígio – Clique para comprar)

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