Endometriose: por que o diagnóstico demora tanto?
Mulheres podem demorar até 10 anos para descobrir a doença. Normalização da dor e desconhecimento são alguns dos obstáculos

Cólicas fortes, dor pélvica, fluxo menstrual intenso, dor na relação sexual… Esses são os principais sintomas da endometriose, uma doença ginecológica que afeta uma a cada 10 mulheres.
A condição é caracterizada pelo crescimento do endométrio (tecido que reveste o interior do útero) em outras partes do corpo, como ovários, bexiga, intestino e parede abdominal. Em casos extremamente raros, até o pulmão e o cérebro podem ser invadidos por esse tecido.
A depender da extensão das lesões, outros sintomas podem se somar aos clássicos, como dor lombar, inchaço abdominal, diarreia ou constipação e até mesmo sangramento retal. Entre 30 a 50% daquelas que vivem com a doença também sofrem com infertilidade.
Clique aqui para entrar em nosso canal no WhatsAppÉ triste pensar que milhões de mulheres convivem com tantos incômodos e, em muitos casos, levam anos para descobrir o que está acontecendo em seu corpo.
Isso mesmo: anos. “O tempo médio entre o início dos sintomas e o diagnóstico pode chegar a 10 anos”, afirma Rogério Felizi, ginecologista e coordenador do Centro Especializado em Endometriose do Hospital Alemão Oswaldo Cruz (SP).
Nesse período, muitas recebem diagnósticos equivocados, têm suas dores subestimadas e a qualidade de vida comprometida. Até mesmo a cantora Anitta já compartilhou nas redes sociais e em entrevistas à imprensa sua experiência com a doença.
+ Leia também: Quem tem endometriose pode engravidar?
No caso dela, foram nove anos convivendo com cólicas intensas e diagnósticos incorretos de cistite e infecções sexualmente transmissíveis (IST) até descobrir que, na verdade, tinha endometriose.
E esse não é um problema apenas no Brasil. “Essa média é mundial, e uma realidade comum especialmente na América Latina e na Ásia. Além disso, a criação de grandes centros especializados é recente e está concentrada em poucas regiões”, avalia Marcos Tcherniakovsky, ginecologista, cirurgião e diretor de comunicação da Sociedade Brasileira de Endometriose (SBE).
Para os especialistas, há muitos fatores que explicam essa demora. Entre eles, o fato de, culturalmente, a dor das mulheres ser normalizada (nos consultórios e até mesmo dentro de casa). Outro problema grave está na formação médica: muitos profissionais não reconhecem os sintomas da doença.
Para difundir informações sobre a condição, foi criada a campanha de conscientização Março Amarelo e, nesta quinta-feira (13), foi comemorado o Dia Nacional de Luta contra a Endometriose.
A seguir, entenda o que é preciso ter em mente para mudar esse cenário.
Sentir dor não é normal
Um dos principais problemas é a normalização da dor no período menstrual, mesmo em casos em que as cólicas claramente prejudicam a mulher em diversos campos da sua vida — no trabalho, no lazer ou no sexo.
“Situações anormais não devem ser normalizadas. Aquelas que sentem dores incapacitantes, que as impedem de fazer atividades do dia a dia, precisam de atenção especial”, afirma Tcherniakovsky. “Toda dor precisa ser relatada e cabe ao médico saber discernir, em consulta e com avaliação física, se trata-se de uma situação em que haja comprometimento de alguns órgãos”.
Segundo o especialista, é preciso dar atenção às queixas desde a adolescência, já que muitas mulheres desenvolvem a condição ainda nos primeiros anos do período fértil.
Algumas situações no ciclo menstrual que precisam ser levadas em consideração são:
- mulheres que não tinham cólicas e passaram a ter;
- mulheres que já tinham cólicas menstruais e que pioraram;
- pacientes com dor pélvica crônica, ou seja, que sentem dor na pelve há mais de seis meses sem melhora;
- dor para ter relação sexual, principalmente no fundo da vagina (isso chama-se de dispareunia de profundidade)
- infertilidade.
+ Leia também: Endometriose: a doença está em crescimento ou o diagnóstico melhorou?
Atenção aos exames
Os exames de imagem são essenciais ao diagnóstico da endometriose. Os mais solicitados são o ultrassom transvaginal e a ressonância magnética.
“O ultrassom transvaginal é uma das primeiras opções para detectar sinais de endometriose, especialmente em casos de endometriose ovariana, para identificar os chamados endometriomas”, explica Felizi. “No entanto, sua sensibilidade para endometriose profunda varia entre 50% e 70%”, pondera.
A endometriose profunda é a forma mais grave da doença, na qual o tecido endometrial não está apenas presente na superfície de outros órgãos, como também invade profundamente suas camadas.
“A ressonância magnética (RM) tem apresentado maior precisão, sendo útil para identificar lesões em locais como ligamentos uterossacrais, intestino e paredes pélvicas”, ressalta.
A sensibilidade desse exame para a detecção da endometriose profunda é bem mais alta, girando em torno de 85 a 90%.
+ Leia também: Há cura para endometriose profunda? Tratamentos, sintomas e perspectivas
Preferencialmente, os exames devem ser realizados com preparo intestinal, que pode ser feito com laxantes ou enema. Isso melhora a visualização de possíveis focos de endometriose no intestino e no abdômen, segundo Tcherniakovsky.
E, é claro, que sejam feitos por médico um especializado em rastrear a doença. “E isso geralmente só se encontra em grande centros diagnóstico e universidades”, pontua o representante da SBE.
Alguns profissionais pedem também o exame de CA-125, um marcador tumoral no sangue que pode estar elevado por causa de muitas doenças ginecológicas, como endometriose, miomas, doença inflamatória pélvica (DIP) e até câncer de ovário. Não são todas as pacientes que apresentam alteração desse marcador. “É um exame complementar, mas não definitivo, especialmente nos estágios iniciais da doença”, assinala Felizi.
“Atualmente, não há exames de sangue que diagnostiquem definitivamente a doença”, afirma Tcherniakovsky.
+ Leia também: Endometriose além da cólica: cansaço é sintoma relevante da doença
Capacitação médica
Para reconhecer as queixas das pacientes e as lesões apresentadas nos exames de imagem, é preciso que o médico esteja atualizado.
“A falta de conhecimento sobre a doença entre médicos, especialmente generalistas, agrava a situação”, avalia o ginecologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
Até mesmo especialistas na saúde da mulher devem sempre complementar a formação. “Um estudo mostrou que 30% dos ginecologistas não reconhecem a endometriose como uma condição comum, e muitos sintomas são erroneamente atribuídos a fatores psicológicos“, pontua.
Para o diretor de comunicação da SBE, a criação de campanhas de conscientização como o Março Amarelo beneficia não apenas a população como também acaba informando os próprios médicos.
“Estamos falando de uma doença é muito interdisciplinar. Ela envolve ginecologistas, nutricionistas, psicólogos, radiologistas, cirurgiões e urologistas. Eles precisam ter informações realmente atualizadas para chegar no diagnóstico”, resume Tcherniakovsky.