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Sextou com a doutora

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De médica para paciente (e vice-versa). Neste espaço, a mastologista e cirurgiã oncológica Fabiana Makdissi, uma das maiores autoridades em câncer de mama no país, compartilha seus conhecimentos, vivências e reflexões sobre a saúde da mulher.

Medo do câncer: como transformá-lo em ação e não em paralisia

Uma pesquisa com 1,5 mil mulheres revelou que o medo da recidiva persiste mesmo após a cura — e uma oncologista explica como transformá-lo em ação

Por Fabiana Makdissi 12 jun 2026, 10h26
outubro rosa: cancer de mama e bem-estar
Diagnóstico de câncer de mama não é sentença de morte (Ilustração: Mayla Tanferri/SAÚDE é Vital)
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Medo do câncer: como transformá-lo em ação e não em paralisia Priorizar nos meus resultados Google

Receber um diagnóstico de câncer não é fácil e sempre digo às minhas pacientes que compreendo quando vêm até mim ou a um colega desesperadas. No entanto, passado o susto inicial, é preciso respirar fundo e tentar entender o motivo do medo e o que fazer com ele.

Vejo, sob a perspectiva médica, que o medo nos protege. Afinal, só tem medo quem se importa com sua vida e quer continuar a viver. Mas será que viver com medo o tempo todo é possível ou é bom?

Recentemente tive acesso a uma pesquisa nacional do Oncoguia que investigou este tema em 1.582 mulheres com câncer de mama, provenientes de 21 estados brasileiros.

O objetivo do estudo foi avaliar o medo da recidiva, ou seja, do retorno da doença após o tratamento. A maioria das participantes tinha entre 40 e 59 anos (66%), 64% eram casadas e 73% possuiam ensino superior ou pós-graduação. Ou seja, era um grupo provavelmente bem-informado.

Os resultados demonstraram algo que com frequência observo nas minhas consultas: que o medo do câncer em si se baseia não somente no diagnóstico, mas no medo da recidiva que persiste mesmo após o término do tratamento.

Oitenta por cento (85%) das mulheres relataram medo de que o câncer pudesse voltar ou que progredisse, enquanto 85% afirmaram viver em estado de hipervigilância, monitorando constantemente sinais e sintomas do corpo.

É claro que o autocuidado é bom, conhecer a doença é bom, e conhecer como seu tratamento funciona e quais os riscos atrelados a ele também é o certo a se fazer, mas o que me impressionou foi que 42% relataram que adiaram planos para o futuro devido a esse medo. Ou seja, não foi um medo que ajudou, foi um medo que paralisou a vida.

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Quando converso com minhas pacientes, digo sempre que o medo nos protege se ele gera ação. Por exemplo: se eu tenho medo que o cigarro me cause câncer, eu paro de fumar. Se eu tenho medo que o sedentarismo aumente meu risco para ter câncer ou para que o câncer que eu tive retorne, eu me movimento!

Eu saio da cadeira e faço exercícios, mas quando o medo é maior que a ação ele não traz benefício, ele só causa danos.

E outro dado que é muito verdadeiro em quase todas as consultas é o de que o medo segue presente mesmo entre mulheres que se consideram curadas: 70% deste subgrupo ainda sentia medo da recidiva, segundo a pesquisa. Ou seja, parece que lidar com o medo é tarefa difícil a todas independente da extensão da doença ou da perspectiva do tratamento.

O que fazer com o medo: orientações por fase

Baseado em todos esses dados de vida real, achei importante trazer a vocês algumas sugestões, que percebo em minhas próprias pacientes que não deixaram que o medo as paralisasse e que seguem vivendo, apesar do medo:

Para a mulher que ainda não teve um diagnóstico de câncer:

Se tem medo, informe-se sobre tudo o que aumenta risco para câncer e se afaste deles! De forma geral, as 7 atitudes que mais previnem câncer em geral

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  • Não fumar;
  • Manter peso saudável;
  • Praticar atividade física regularmente;
  • Alimentação rica em vegetais e pobre em ultraprocessados;
  • Evitar ou limitar álcool;
  • Vacinar-se (HPV e hepatite B);
  • Não deixar de fazer os exames indicados para você (baseados na sua idade e na sua história familiar).

Para a mulher que está com diagnóstico recente de câncer de mama:

  • Informe-se sobre a sua doença (extensão, opções de tratamentos, e taxas de resposta se houver indicações de mais um tratamento como opção);
  • Não desista do tratamento no primeiro efeito colateral das medicações, retorne no médico e entenda se há opções para melhorar a qualidade de vida mesmo mantendo o uso;

Atente-se que os itens do tópico anterior são importantes não somente para quem ainda não teve câncer. Na verdade, alguns deles, como a manutenção do peso e a prática de atividade física, hoje tem sido tão importante quanto usar adequadamente os remédios que o médico te prescreve.

+Leia também: Novos estudos confirmam: exercício é remédio poderoso contra o câncer

Para a mulher que já fez ou está em vigência de tratamento:

  • Saiba que você teve câncer, mas você continua a ser uma pessoa que pode ficar gripada e ter uma dor de cabeça sem que isso seja uma metástase, por isso, atenção aos sintomas e à duração deles. Algo novo que passou rápido, tudo bem, mas se for algo que começa a ser muito frequente, e piora do nada, seu médico precisa ser comunicado;
  • Saiba que não é só você que perto da data de fazer exames de rotina começa a ter queixas estranhas. Isso pode ser o medo atuando em você porque você se importa. O que não dá para fazer é deixar de ir ao médico porque está com medo.

Para aquela mulher que está em tratamento contínuo, com doença metastática:

  • Mantenha os mesmos cuidados com a saúde que uma mulher sem câncer deveria ter, mas entenda que medicamentos que você usa podem te gerar necessidades de cuidados diferentes;
  • Viva sua cura diária, nas pequenas coisas, mantenha sua fé na vida, e tenha um bom médico para chamar de seu, ou mais de um.
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Os aprendizados de uma SuperVivente

E gostaria aqui de citar uma paciente chamada Jussara (Jussara Del Moral) que nas redes é chamada de SuperVivente que traz sempre em suas falas os seguintes aprendizados:

  • Reconheça o medo, ele existe de fato, mas não entregue a ele o comando da sua vida;
  • Cuide do que está sob seu controle hoje;
  • Mantenha projetos e sonhos, mesmo que precisem ser adaptados;
  • Permita-se viver além do câncer;
  • Troque a pergunta “quanto tempo eu tenho?” por “o que vou fazer com o tempo que tenho?”.

O cuidado que vai além do tratamento

O medo está presente em todas as fases, e é uma experiência comum, duradoura e multidimensional para mulheres com câncer de mama, por isso, falar sobre isso é tão importante.

O cuidado oncológico não deve incluir apenas o tratamento da doença, mas também suporte emocional e acompanhamento específico para esse medo ao longo de toda a trajetória das nossas pacientes.

E, para todas as fases, nós, os médicos, precisamos estar preparados para ouvir, acolher e ajudar. Apesar do medo, que muitas vezes é também nosso.

Fiquem bem.

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