Medo do câncer: como transformá-lo em ação e não em paralisia
Uma pesquisa com 1,5 mil mulheres revelou que o medo da recidiva persiste mesmo após a cura — e uma oncologista explica como transformá-lo em ação
Receber um diagnóstico de câncer não é fácil e sempre digo às minhas pacientes que compreendo quando vêm até mim ou a um colega desesperadas. No entanto, passado o susto inicial, é preciso respirar fundo e tentar entender o motivo do medo e o que fazer com ele.
Vejo, sob a perspectiva médica, que o medo nos protege. Afinal, só tem medo quem se importa com sua vida e quer continuar a viver. Mas será que viver com medo o tempo todo é possível ou é bom?
Recentemente tive acesso a uma pesquisa nacional do Oncoguia que investigou este tema em 1.582 mulheres com câncer de mama, provenientes de 21 estados brasileiros.
O objetivo do estudo foi avaliar o medo da recidiva, ou seja, do retorno da doença após o tratamento. A maioria das participantes tinha entre 40 e 59 anos (66%), 64% eram casadas e 73% possuiam ensino superior ou pós-graduação. Ou seja, era um grupo provavelmente bem-informado.
Os resultados demonstraram algo que com frequência observo nas minhas consultas: que o medo do câncer em si se baseia não somente no diagnóstico, mas no medo da recidiva que persiste mesmo após o término do tratamento.
Oitenta por cento (85%) das mulheres relataram medo de que o câncer pudesse voltar ou que progredisse, enquanto 85% afirmaram viver em estado de hipervigilância, monitorando constantemente sinais e sintomas do corpo.
É claro que o autocuidado é bom, conhecer a doença é bom, e conhecer como seu tratamento funciona e quais os riscos atrelados a ele também é o certo a se fazer, mas o que me impressionou foi que 42% relataram que adiaram planos para o futuro devido a esse medo. Ou seja, não foi um medo que ajudou, foi um medo que paralisou a vida.
Quando converso com minhas pacientes, digo sempre que o medo nos protege se ele gera ação. Por exemplo: se eu tenho medo que o cigarro me cause câncer, eu paro de fumar. Se eu tenho medo que o sedentarismo aumente meu risco para ter câncer ou para que o câncer que eu tive retorne, eu me movimento!
Eu saio da cadeira e faço exercícios, mas quando o medo é maior que a ação ele não traz benefício, ele só causa danos.
E outro dado que é muito verdadeiro em quase todas as consultas é o de que o medo segue presente mesmo entre mulheres que se consideram curadas: 70% deste subgrupo ainda sentia medo da recidiva, segundo a pesquisa. Ou seja, parece que lidar com o medo é tarefa difícil a todas independente da extensão da doença ou da perspectiva do tratamento.
O que fazer com o medo: orientações por fase
Baseado em todos esses dados de vida real, achei importante trazer a vocês algumas sugestões, que percebo em minhas próprias pacientes que não deixaram que o medo as paralisasse e que seguem vivendo, apesar do medo:
Para a mulher que ainda não teve um diagnóstico de câncer:
Se tem medo, informe-se sobre tudo o que aumenta risco para câncer e se afaste deles! De forma geral, as 7 atitudes que mais previnem câncer em geral
- Não fumar;
- Manter peso saudável;
- Praticar atividade física regularmente;
- Alimentação rica em vegetais e pobre em ultraprocessados;
- Evitar ou limitar álcool;
- Vacinar-se (HPV e hepatite B);
- Não deixar de fazer os exames indicados para você (baseados na sua idade e na sua história familiar).
Para a mulher que está com diagnóstico recente de câncer de mama:
- Informe-se sobre a sua doença (extensão, opções de tratamentos, e taxas de resposta se houver indicações de mais um tratamento como opção);
- Não desista do tratamento no primeiro efeito colateral das medicações, retorne no médico e entenda se há opções para melhorar a qualidade de vida mesmo mantendo o uso;
Atente-se que os itens do tópico anterior são importantes não somente para quem ainda não teve câncer. Na verdade, alguns deles, como a manutenção do peso e a prática de atividade física, hoje tem sido tão importante quanto usar adequadamente os remédios que o médico te prescreve.
+Leia também: Novos estudos confirmam: exercício é remédio poderoso contra o câncer
Para a mulher que já fez ou está em vigência de tratamento:
- Saiba que você teve câncer, mas você continua a ser uma pessoa que pode ficar gripada e ter uma dor de cabeça sem que isso seja uma metástase, por isso, atenção aos sintomas e à duração deles. Algo novo que passou rápido, tudo bem, mas se for algo que começa a ser muito frequente, e piora do nada, seu médico precisa ser comunicado;
- Saiba que não é só você que perto da data de fazer exames de rotina começa a ter queixas estranhas. Isso pode ser o medo atuando em você porque você se importa. O que não dá para fazer é deixar de ir ao médico porque está com medo.
Para aquela mulher que está em tratamento contínuo, com doença metastática:
- Mantenha os mesmos cuidados com a saúde que uma mulher sem câncer deveria ter, mas entenda que medicamentos que você usa podem te gerar necessidades de cuidados diferentes;
- Viva sua cura diária, nas pequenas coisas, mantenha sua fé na vida, e tenha um bom médico para chamar de seu, ou mais de um.
Os aprendizados de uma SuperVivente
E gostaria aqui de citar uma paciente chamada Jussara (Jussara Del Moral) que nas redes é chamada de SuperVivente que traz sempre em suas falas os seguintes aprendizados:
- Reconheça o medo, ele existe de fato, mas não entregue a ele o comando da sua vida;
- Cuide do que está sob seu controle hoje;
- Mantenha projetos e sonhos, mesmo que precisem ser adaptados;
- Permita-se viver além do câncer;
- Troque a pergunta “quanto tempo eu tenho?” por “o que vou fazer com o tempo que tenho?”.
O cuidado que vai além do tratamento
O medo está presente em todas as fases, e é uma experiência comum, duradoura e multidimensional para mulheres com câncer de mama, por isso, falar sobre isso é tão importante.
O cuidado oncológico não deve incluir apenas o tratamento da doença, mas também suporte emocional e acompanhamento específico para esse medo ao longo de toda a trajetória das nossas pacientes.
E, para todas as fases, nós, os médicos, precisamos estar preparados para ouvir, acolher e ajudar. Apesar do medo, que muitas vezes é também nosso.
Fiquem bem.






![[RELAMPAGO] PAYWALL (728 x 90 px) Banner laranja com texto branco OFERTA RELÂMPAGO e um raio amarelo, seguido de Você pediu, a gente ouviu!. À direita, capas de revistas Superinteressante e Veja, e um celular com aplicativo aberto](https://beta-develop.saude.abril.com.br/wp-content/uploads/2026/07/RELAMPAGO-PAYWALL-728-x-90-px.gif)
![[RELAMPAGO] PAYWALL - 328x79 Banner laranja com OFERTA RELÂMPAGO em destaque, acompanhado de um raio amarelo. Abaixo, Você pediu, a gente ouviu!. À direita, revistas Superinteressante e Veja e um cartão de crédito. No canto superior direito, um ícone de árvore](https://beta-develop.saude.abril.com.br/wp-content/uploads/2026/07/RELAMPAGO-PAYWALL-328x79-1.gif)