Cientistas propõem novo “relógio biológico” para prever envelhecimento
Estudo com participação de brasileiro propõe que alterações em proteína que dá forma ao DNA podem ajudar a medir desgaste das células

Os fios ficam grisalhos, as rugas tomam conta das nossas expressões faciais e as juntas já não são mais as mesmas… Mas, antes que o processo de envelhecimento se torne tão evidente, mudanças mais sutis vão acontecendo no nosso corpo. Mais especificamente, no nosso material genético.
Em laboratórios de todo o mundo, cientistas trabalham para descobrir novas formas de flagrar o envelhecimento humano de maneira precisa, e assim antever o risco de desenvolver doenças típicas da idade, como Alzheimer, câncer e problemas cardíacos.
Em janeiro, um artigo publicado na renomada revista científica Science Advances sugeriu que avaliar marcadores de proteínas que ajudam a compactar o nosso DNA é uma boa forma de estimar o quanto nosso corpo está envelhecendo, independente da idade do RG.
Clique aqui para entrar em nosso canal no WhatsAppChamadas histonas, essas proteínas ajudam a dar forma aos cromossomos, estruturas que guardam o DNA compactado e garantem que nosso extenso material genético caiba dentro do núcleo das nossas pequenas células. Ao sustentar o formato dessa sopa de letrinhas, elas também colaboram para que os genes funcionem da maneira correta.
Os cientistas utilizaram modelos computacionais para avaliar sete tipos de alterações em histonas ligadas ao envelhecimento humano. O resultado foi tão preciso quanto o modelo padrão utilizado hoje em dia para prever o desgaste celular — a metilação do DNA.
A metilação do DNA é outro processo relacionado à expressão gênica. É um processo natural, que pode influenciar como e quais genes são “ativados” em determinada situação ou período da nossa vida.
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Relógios biológicos
“Esses processos e proteínas têm sido estudados nas últimas décadas como formas de preverem nosso real envelhecimento e como isso afeta o desenvolvimento de certas doenças. Por isso, eles são apelidados de ‘relógios biológicos’“, explica Lucas Paulo de Lima Camillo, bioquímico brasileiro que pesquisa o tema na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e é um dos coautores do artigo.
São parâmetros diferentes do “relógio biológico” do ritmo circadiano, que se atém ao nosso ciclo de sono-vigília. Eles, na verdade, apontam as diferenças entre a nossa idade biológica (o quão jovem ou envelhecido está nosso corpo) e a cronológica (que nós celebramos a partir do nosso nascimento).
Uma pessoa jovem que fuma ou bebe com frequência, por exemplo, pode envelhecer precocemente e ter, mais cedo, problemas de saúde que só apareceriam em idade avançada.
“O estudo do envelhecimento permite que identifiquemos riscos a saúde e saibamos como predisposições genéticas ou fatores externos [como maus hábitos] interferem no nosso bem-estar a curto e longo prazo”, lista Camillo.
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O desenvolvimento de novos modelos de relógios biológicos traz benefícios até mesmo para a realização de estudos clínicos, já que os resultados podem ser melhor acompanhados com esse tipo de dado.
A maioria dos modelos de relógios epigenéticos, porém, ainda está em fase de desenvolvimento e de estudos pré-clínicos. Segundo Camillo, a pesquisa sobre os marcadores de histona ainda deve passar por novas fases envolvendo mais testes computacionais e até em animais antes de ser validado em humanos.
“Essa é uma área de pesquisa que está crescendo exponencialmente e esse avanço, no futuro, poderá beneficiar pacientes e sistemas de saúde em todo mundo, ajudando a população a envelhecer melhor e prevenindo casos de doenças cardiovasculares, diabetes, demências, tumores, entre outros”, celebra o pesquisador brasileiro.