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Hiperfoco: o que é, como reconhecer e cuidados para que ele não faça mal

Concentração profunda e involuntária é típica de condições como autismo, TDAH e superdotação. Mas o termo vem sendo banalizado na internet. Entenda

Por Ingrid Luisa Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 13 out 2025, 14h17
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Estado de hiperfoco é diferente de concentração ou flow, entenda (Veja Saúde/SAÚDE é Vital)
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Quando uma pessoa começa a gostar muito de um assunto e pesquisar bastante sobre ele, ou fala todos os dias sobre um livro/série que acompanhou, muita gente costuma brincar: “nossa, está com hiperfoco nisso!”

Hiperfoco na internet virou sinônimo de amar muito algo ou focar bastante em uma tarefa, mas o termo não designa exatamente isso. E é bem importante entender para não banalizar.

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O que é hiperfoco

É um estado de concentração profunda, involuntária e sustentada de uma pessoa por uma tarefa ou um conjunto de estímulos específicos.

Uma das características principais do hiperfoco é a negligencia de necessidades básicas, como a sede, a fome ou o sono, a pessoa é capturada por aquele estado”, explica o psiquiatra Alexandre Valverde.

O hiperfoco é bem comum em condições de neurodivergência, como autismo, TDAH e superdotação.

Ainda é preciso aprofundar os estudos sobre como exatamente isso ocorre, mas acredita-se hoje que há uma comunicação errada entre redes neurais que definem a cognição.

De modo simples, nosso cérebro possui três redes neurais:

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  • Rede de modo padrão (default mode network, DMN) – ativa quando o cérebro está em “repouso” ou num “modo stand-by”. Mesmo quando a pessoa está parada, o cérebro continua ativo, cuidando das funções básicas e processando estímulos internos e externos, mas sem focar em nada específico. Quando o indivíduo está em devaneios, lembranças ou pensamento abstrato, também é essa rede que domina a cachola.
  • Rede de controle executivo (central executive network, CEN) – é ativada quando começamos a fazer alguma tarefa direcionada. Atenção dirigida, controle cognitivo, tarefas que exigem foco ou tomada de decisões ligam essa rede.
  • Rede de saliência (salience network, SN) – nos ajuda a perceber estímulos importantes (“salientes”) e a dar prioridade a certas situações. É ela que decide quando o cérebro deve sair do modo padrão e entrar no modo executivo.

“Quando há hiperfoco, sua rede de saliência vai desligar a sua rede de modo padrão e ligar a de controle executivo de uma maneira muito intensa, o que justamente pode acontecer em situações de neurodivergência”, explica Valverde.

Por isso, a execução da tarefa acaba acontecendo num tempo estendido, bastante longo, e sem muito controle, completa o especialista.

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Hiperfoco é o mesmo que concentração intensa ou estado de flow?

Não. A principal diferença é que o hiperfoco geralmente ocorre de uma maneira involuntária e até descontrolada, enquanto o estado de concentração intensa ocorre de forma voluntária.

“Geralmente a pessoa típica que se concentra bastante tem alguma demanda, trabalho, atividade, ou mesmo porque gosta de algo e quer focar, mas ela tem controle daquela atividade, não negligencia nada fisiológico em função daquilo”, explica o psiquiatra.

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Cabe lembrar que, muitas vezes, entrar num estado de hiperfoco é uma forma de autoregulação para pessoas com autismo. Ou seja, eles acabam acalmando e organizando a si mesmos quando se concentram naquela atividade de interesse. Já no TDAH, o hiperfoco se relaciona mais a uma recompensa imediata.

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O estado de hiperfoco pode gerar problemas?

Sim, físicos e sociais.

Físicos porque quando a pessoa entra nesse estado ela pode ficar na mesma posição por horas, sem perceber que está com dor nas costas, com a perna formigando ou numa postura ruim no geral.

O indivíduo tende perder a noção do tempo, não sabendo se ficou ali por 15 minutos ou 3 horas.

“E, no caso do autismo, uma irritação da pessoa quando é interrompida, porque ela está num fluxo tão intenso de pensamento, de concentração, que se esse fluxo é cessado, ela não necessariamente consegue voltar para ele tão rápido”, explica Valverde.

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Nesse contexto, entram os problemas sociais. Quando a pessoa fica múltiplos dias capturada pelo hiperfoco, ela se relaciona menos, interage menos com familiares, amigos e até cônjuge, o que pode gerar desgaste nas relações.

“Muita gente pode se sentir menosprezada, negligenciada, e isso acaba corroendo as relações sociais dessa pessoa”, completa o psiquiatra.

Em questões cotidianas e de trabalho, também pode dar ruim: não preparar comida, deixar coisas estragarem em casa, esquecer de pagar contas, não entregar alguma demanda do emprego, etc.

“Se não for manejado, o hiperfoco pode levar a demissão e divórcio. É difícil para o neurodivergente, mas, com acompanhamento, é possível trabalhar isso para que não prejudique tanto o cotidiano”, destaca o especialista.

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Qual a importância de não banalizar o termo na internet

Muitos termos psiquiátricos tem sido banalizados nas redes sociais.

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Ninguém fica mais triste, todo mundo está deprimido; não há mais alterações de humor, as pessoas estão bipolares; assim como toda falta de foco já vira TDAH. Nesse sentido, o termo hiperfoco também vem sendo usado de forma errônea.

“A banalização do termo pode ser um desrespeito as pessoas neurodivergentes, pois invalida necessidades e problemas reais ligados a quem passa por estados como do hiperfoco”, explica Valverde.

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