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O que acontece com o seu cérebro quando você rumina o passado

Entenda como o seu cérebro se comporta e saiba como é possível "desativar" a rede de pensamentos intrusivos

Por Larissa Beani Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 11 jun 2026, 17h13 | Atualizado em 11 jun 2026, 17h40
Duas imagens de ressonância magnética do cérebro humano, mostrando áreas de atividade em vermelho e laranja brilhantes. A imagem da esquerda é um corte sagital, exibindo o perfil do cérebro com pontos de atividade na parte frontal e central. A imagem da direita é um corte axial, mostrando o cérebro visto de cima, com áreas ativas na parte superior e inferior, e duas laterais
Ressonância magnética de áreas do cérebro na rede de modo padrão (John Graner/Wikimedia Commons)
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Precisa se concentrar no trabalho, mas não esquece aquela discussão que teve em casa? Ou, antes de dormir, fica pensando no que devia ter respondido ao seu colega da quinta série? Ruminar o passado é humano — e faz parte da natureza do seu cérebro. Inclusive, é o “modo padrão” dele.

No início dos anos 2000, o neurologista Marcus E. Raichle, da Escola de Medicina da Universidade de Washington, delimitou o que hoje se conhece como rede de modo padrão (RMP). Ela fica ativa quando estamos acordados, mas não estamos realmente prestando atenção no mundo a nossa volta ou no que estamos fazendo — ficamos divagando, relembrando o passado e pensando sobre nós mesmos.

Essa rede começou a ser observada nos anos 1990, por meio de imagens de tomografia. Na época, cientistas começaram a notar como diferentes partes da mente eram ativadas e desativadas quando estamos acordados e descansamos ou quando nos concentramos em uma tarefa.

Eles observaram que há uma rede conectando o córtex pré-frontal medial (responsável pela nossa inteligência social e emocional), que fica na dianteira do cérebro; o córtex cingulado posterior (ligado à memória autobiográfica e episódica), mais ao centro; e partes do lobo parietal, localizadas na parte posterior do órgão, como o precuneus (também associado à autorreflexão e à memória) e o giro angular (relacionado à interpretação da linguagem e números).

Todas as regiões estão conectadas, de alguma forma, à capacidade de registrar e recuperar memórias de nós mesmos (autobiográficas) e também tem papel fundamental sobre a nossa orientação espacial.

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Instinto inevitável

O funcionamento dessa rede foi tema da palestra “‘Anti-mindfulness’: a neurobiologia do sofrimento ruminativo”, apresentada pelo neurologista André Palmini, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) em uma mesa que discutiu a importância da atenção plena para a saúde mental no Congresso sobre Cérebro, Comportamento e Emoções (Brain Congress)*.

“Os seres humanos passam muito tempo pensando sobre coisas que não estão acontecendo à sua volta, lembrando do passado e imaginando o futuro — inclusive o que pode nunca acontecer“, afirma Palmini. Alguns estudos estimam que de 30 a 50% do tempo do nosso tempo acordados seja tomado pela divagação.

“A capacidade de pensar sobre o que não está acontecendo neste exato momento é, de certa forma, uma conquista cognitiva, só que isso tem um custo à nossa atenção e também ao nosso emocional”, reflete o médico.

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Decepções, ruminações, pensamentos catastróficos e ansiosos são em grande parte fruto das nossas divagações, o que está também ligado à sensação de tristeza e insatisfação.

Mente atenta

Para “desativar” essa rede, nada melhor do que concentrar-se em uma tarefa — por mais simples que ela seja, como prestar atenção na sua própria respiração e nas percepções do seu corpo, como instruem algumas técnicas de meditação e mindfulness.

“Poucos minutos de prática diária já fazendo diferença no seu humor e bem-estar. Comece aos poucos”, estimula Letícia Vedolin Sebastião, doutora em mindfulness pela Escola de Administração de Copenhague, na Dinamarca. 

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“A essência da neurobiologia do mindfulness nada mais é do que uma forma de desativar essa rede [a RMP] e mudar o programa mental por meio da atenção focada ao momento presente”, explica Palmini.

Para o psiquiatra Marcelo Trombka, também da PUCRS, é uma forma de trazer mais afeto para o dia a dia e afastar o catastrofismo. “Podemos voltar a perceber o extraordinário por trás do ordinário”, acredita.

*A repórter viajou a Porto Alegre a convite da organização do Brain Congress.

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