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Obesidade: nova forma de diagnóstico vai além do IMC

Comissão internacional define 18 sinais e sintomas que apontam quando o excesso de peso vira uma doença

Por Ingrid Luisa
Atualizado em 14 jan 2025, 20h47 - Publicado em 14 jan 2025, 20h30
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Cuidar do coração vem junto da redução do excesso de peso. (VEJA SAÚDE/SAÚDE é Vital)
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A obesidade é uma doença crônica, multifatorial e altamente recidivante (ou seja, com grande chance de voltar), mas costuma ser definida apenas como um acúmulo excessivo de gordura, estabelecido por meio do índice de massa corporal (IMC).

Mas essa é uma definição muito simples, que não abarca a complexidade da condição.

Nesse contexto, a The Lancet Diabetes & Endocrinology: Global Commission, um grande grupo de trabalho endossado por 76 organizações médicas ao redor do mundo, propõe uma nova abordagem para o diagnóstico da obesidade, que vai além do IMC e considera 18 sinais e sintomas ligados ao excesso de peso.

O documento também propõem duas novas classificações para a doença, dividindo-a em obesidade clínica, quando há sintomas e é preciso tratamento medicamentoso e/ou cirúrgico, e pré-clínica, quando não há grandes repercussões metabólicas e as intervenções geralmente são comportamentais.

Entenda mais a seguir.

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Contexto: o problema de olhar só para o IMC

Atualmente, o único critério para uma pessoa ter obesidade ou não é o IMC maior ou igual a 30. Mas esse método é frágil, pois não considera sinais e sintomas de doença.

“O IMC é só um marcador epidemiológico de alerta de que um indivíduo tem mais tecido adiposo, mas o número absoluto não prevê risco, doença, nada, só o tamanho da pessoa”, ressalta o médico Ricardo Cohen, cirurgião e head do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

O especialista ainda destaca que esse índice não mapeia a localização da gordura — estar entre os órgãos é pior que apenas no tecido subcutâneo, por exemplo — e não averigua questões de saúde.

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“Um atleta que tem muita massa magra pode chegar a 35, 38 de IMC, e ele certamente não está doente. É um critério muito inespecífico”, acrescenta o especialista, que faz parte da comissão que propõe a nova abordagem.

No artigo, os autores alegam que há uma falta de entendimento básico sobre o que caracteriza a doença obesidade, já que normalmente a definição do tratamento é baseada na presença de outras doenças (chamadas de “comorbidades”).

“Essas narrativas e práticas consolidaram ainda mais a noção de obesidade como uma condição de risco, mas não explicam a identidade clínica da doença em si”, escrevem os autores no estudo.

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Obesidade clínica x pré-clinica

Os autores definem como obesidade clínica uma doença crônica, com sinais e sintomas associados à disfunção de órgãos causada pelo excesso de peso.

Se encaixam também na classificação pessoas que possuem a capacidade física prejudicada devido ao excesso de gordura corporal, tendo dificuldade para realizar atividades cotidianas como tomar banho, caminhar, vestir-se ou mesmo controlar a urina.

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“A definição de obesidade clínica preenche uma lacuna conceitual importante, porque fornece identidade às alterações causadas diretamente pelo excesso de gordura, independentemente da presença de outras doenças relacionadas à obesidade”, explica o documento.

Já a obesidade pré-clínica é quando há o excesso de peso, mas a função dos órgãos não foi alterada.

Segundo o documento, pessoas vivendo com obesidade pré-clínica não apresentam doenças em andamento, mas têm um risco aumentado de desenvolver obesidade clínica e várias outras doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs).

Por isso, essas pessoas devem ser aconselhadas a reduzir o risco de possíveis doenças, seja melhorando a alimentação ou praticando exercícios.

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Os 18 sinais e sintomas que ajudam no diagnóstico

Se o IMC estiver entre 30 e 39, o documento recomenda averiguar se há excesso de gordura com pelo menos um outro critério antropométrico, como medição da circunferência da cintura, relação cintura-quadril ou relação cintura-altura.

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Outra opção é a medição direta do tecido adiposo por meio de densitometria óssea ou do exame DEXA, que já obtém um resultado conclusivo independente de qualquer IMC.

Em pessoas com IMC substancialmente alto (ou seja, >40), o excesso de adiposidade pode ser assumido pragmaticamente.

A confirmação do excesso de peso, no entanto, é apenas o primeiro passo. “Isso apenas define um fenótipo físico, mas não representa um diagnóstico por si só. Essas pessoas devem, então, ser avaliadas para possível obesidade clínica com base em histórico médico, exame físico e outros exames”, explica o documento.

Para que o diagnóstico seja assertivo, a comissão estabeleceu 18 critérios indicadores da doença para adultos. Se o indivíduo possuir apenas 1 deles (ou mais) já pode ser diagnosticado com obesidade clínica.

São eles:

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SINAIS OU SINTOMAS ÓRGÃO AFETADO
1. Sinais de pressão intracraniana elevada, como perda de visão e/ou dores de cabeça recorrentes Sistema Nervoso Central (SNC)
2. Apneias durante o sono devido ao aumento da resistência das vias aéreas superiores Vias aéreas superiores
3. Hipoventilação e/ou falta de ar e/ou chiado devido à complacência pulmonar e/ou diafragmática reduzida Sistema respiratório
4. Função sistólica ventricular esquerda reduzida — insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida Coração (ventrículo)
5. Fibrilação atrial crônica/recorrente Coração (átrio)
6. Hipertensão da artéria pulmonar Coração e pulmão
7. Fadiga crônica, edema dos membros inferiores devido à disfunção diastólica prejudicada—  Insuficiência cardíaca com ejeção preservada Coração
8. Trombose venosa profunda (TVP) recorrente e/ou doença tromboembólica pulmonar Coração
9. Pressão arterial elevada Coração e circulação
10. Juntos: hiperglicemia, altos níveis de triglicerídeos e baixos níveis de colesterol HDL Metabolismo como um todo
11. Doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA com fibrose hepática) Fígado
12. Microalbuminúria com eGFR (creatinina) reduzida Rins
13. Incontinência urinária recorrente/crônica Sistema urinário
14. Anovulação (mulher não ovula), oligomenorreia (frequência de ovulação anormal) ou SOP (síndrome dos ovários policísticos) Sistema reprodutor feminino
15. Hipogonadismo masculino (baixos níveis de testosterona)  Sistema reprodutor masculino
16. Dor crônica e grave no joelho ou quadril associada à rigidez articular e amplitude reduzida de movimento articular Sistema músculo-esquelético
17. Linfedema dos membros inferiores causando dor crônica e/ou amplitude reduzida de movimento Sistema linfático
18. Limitações das atividades do dia a dia  Todo o organismo

Se a pessoa não possui nenhum desses sintomas, mas há um excesso de gordura confirmado, ela tem obesidade pré-clínica.

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Tratamento de acordo com a nova abordagem

Os autores deixam claro que as estratégias de tratamento da obesidade clínica e da pré-clínica são distintas.

“Tem gente que tem alta concentração de tecido adiposo, faz atividade física e não perde peso ou melhora os sinais e sintomas. Por quê? Porque essas estratégias são acessórias ao tratamento na obesidade clínica, seja ele com medicações ou cirurgia”, explica Cohen.

“Já na obesidade pré-clínica é diferente, porque o foco é na prevenção. Então, uma orientação mais estrita de mudança do estilo de vida é fundamental para esses indivíduos, para que não progridam para a obesidade clínica”, acrescenta o especialista.

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Outra novidade é que o objetivo do tratamento não é a perda de peso, e sim a melhora dos problemas de saúde causados por ele.

Segundo Cohen, a mudança da balança é importante, mas é secundária. Ele dá como exemplo o estudo SELECT, que avaliou o efeito da semaglutida na redução de eventos cardiovasculares em pacientes com obesidade.

No trabalho, a perda de peso foi de 9,4%, e houve uma diminuição de 20% nos eventos cardiovasculares fatais e não fatais.

“O objetivo do tratamento não está vinculado perda de peso, mas sim à melhor qualidade de vida e à remissão da disfunção de órgãos que cada paciente possui”, completa.

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Repercussões para a saúde pública

Após a publicação da nova abordagem, Cohen afirma que será feita uma grande força-tarefa para divulgar e educar médicos e outros profissionais da saúde mundo afora.

Segundo o especialista, representantes da Organização Mundial da Saúde (OMS) foram favoráveis à mudança de conceito, o que aumenta a chance de que as classificações estejam presentes em diretrizes futuras.

O médico ainda acrescenta que sistemas de saúde públicos, como o nosso SUS, podem se beneficiar da nova classificação. “Com essas definições, conseguimos mostrar para os administradores públicos e privados quem deve ser tratado primeiro, quem ele vai tratar depois e pra quem ele vai indicar medidas comportamentais preventivas”, esclarece.

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